Quero viver, explodir, quero cantar!
Venha o tempo, tempestades, vendavais;
Venha o pampeiro e arranque meus varais,
Caia a chuva sobre mim e o que eu amar!
Que é tudo, esta amplidão, este vinhedo,
O casarão plantado fundo na coxilha,
O jardim onde fui neta e ainda sou filha
E o Pampa a circundar o meu segredo.
Desçam nuvens e envolva-me a neblina,
Quero fundir-me à alma deste Sul,
Tornar-me a própria luz que me ilumina!
E se depois de tudo tudo eu retornar
Qual lua ébria a vagar sobre um paúl,
É que desci para o meu sonho visitar...
12/01/2007
domingo, 27 de dezembro de 2009
Os viajantes do Nada (de Alma Welt)
O que poucos viajantes nos contaram
Da Morte não merece neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hércules, Dante, e o armênio Er.*
E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.
Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena*
Alegando ainda não estar puro...
Só sei que o mal tocado em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.
(sem data)
Notas
Alma, poetisa em tempo integral, vivia em permanente sintonia com o Mito. Entretanto, posso estar enganada, enxergo uma certa ironia na maneira com que a Poetisa aborda o tema da Morte neste soneto...
* O armênio Er - este é o personagem do famoso mito de Er, o panfílio (armênio), das últimas dez páginas da República, de Platão, que trata longamente do obscuro e fascinante mistério do "Fuso de Ananke". Er foi um soldado que tendo sido morto em batalha, seu cadaver não se corrompeu, e já posto sobre a pira voltou a si, e na morte tendo sido poupado de beber da água do rio Letes (rio do esquecimento) pôde voltar do mundo dos mortos e contar com detalhes o que viu nessa estranha viagem.
* não... o tocasse a Madalena - episódio do Evangelho de São João conhecido iconograficamente como o "Nolli me tangere". Esta passagem presente também em São Lucas, incorre em controversas interpretações teológicas, porquanto Jesus permitiu dez dias depois que o incrédulo São Tomé tocasse as suas chagas.
Os leitores que estiverem só agora entrando em contato com a obra de Alma Welt, devem estranhar o referencial predominantemente pagão do embasamento cultural da Musa. Isso é devido ao fato de que a Alma foi criada por nosso pai, o pianista e erudito Werner Friedrich Welt, o "Vati" (papai, em alemão) dentro de um paganismo tardio e experimental, sem sequer ter sido batisada, e preservada da influência católica da "Mutti", nossa mãe, que morreu quando a Alma tinha 16 anos, Ana Morgado Welt, "a Açoriana" (como a Alma a chamava com um distanciamento mítico um tanto negativo, por falta de identificação ou afinidades).
(Lucia Welt)
Da Morte não merece neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hércules, Dante, e o armênio Er.*
E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.
Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena*
Alegando ainda não estar puro...
Só sei que o mal tocado em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.
(sem data)
Notas
Alma, poetisa em tempo integral, vivia em permanente sintonia com o Mito. Entretanto, posso estar enganada, enxergo uma certa ironia na maneira com que a Poetisa aborda o tema da Morte neste soneto...
* O armênio Er - este é o personagem do famoso mito de Er, o panfílio (armênio), das últimas dez páginas da República, de Platão, que trata longamente do obscuro e fascinante mistério do "Fuso de Ananke". Er foi um soldado que tendo sido morto em batalha, seu cadaver não se corrompeu, e já posto sobre a pira voltou a si, e na morte tendo sido poupado de beber da água do rio Letes (rio do esquecimento) pôde voltar do mundo dos mortos e contar com detalhes o que viu nessa estranha viagem.
* não... o tocasse a Madalena - episódio do Evangelho de São João conhecido iconograficamente como o "Nolli me tangere". Esta passagem presente também em São Lucas, incorre em controversas interpretações teológicas, porquanto Jesus permitiu dez dias depois que o incrédulo São Tomé tocasse as suas chagas.
Os leitores que estiverem só agora entrando em contato com a obra de Alma Welt, devem estranhar o referencial predominantemente pagão do embasamento cultural da Musa. Isso é devido ao fato de que a Alma foi criada por nosso pai, o pianista e erudito Werner Friedrich Welt, o "Vati" (papai, em alemão) dentro de um paganismo tardio e experimental, sem sequer ter sido batisada, e preservada da influência católica da "Mutti", nossa mãe, que morreu quando a Alma tinha 16 anos, Ana Morgado Welt, "a Açoriana" (como a Alma a chamava com um distanciamento mítico um tanto negativo, por falta de identificação ou afinidades).
(Lucia Welt)
sábado, 26 de dezembro de 2009
Quando cessam as palavras (de Alma Welt)
Tendo vivido pela força da palavra
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,
Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,
Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância... ou houvera.
E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.*
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, que com tantos outros dessa temática, evidencia a sua preocupação obsessiva com a morte, que, afinal, ela antevia muito próxima...
* Alcançamos a paz que não sonhamos- Com este curioso verso, presumo que a Alma quis dizer que a paz não é o que procuramos, pois o medo do desconhecido nos acompanha até o minuto final. E a paz vem de súbito, e à nossa revelia...
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,
Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,
Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância... ou houvera.
E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.*
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, que com tantos outros dessa temática, evidencia a sua preocupação obsessiva com a morte, que, afinal, ela antevia muito próxima...
* Alcançamos a paz que não sonhamos- Com este curioso verso, presumo que a Alma quis dizer que a paz não é o que procuramos, pois o medo do desconhecido nos acompanha até o minuto final. E a paz vem de súbito, e à nossa revelia...
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Correspondência da Lucia com o o poeta Joaquim Sustelo
Mantive nos últimos dias esta correspondência com o poeta luso Joaquim Sustelo, que se tornou admirador dos sonetos de minha irmã, postados no Mural dos Escritores, onde ambos publicamos. Mas logo percebi que ele admirava os sonetos pensando que seriam meus, isto é que a Alma seria um pseudônimo meu. Ao perceber o equívoco logo o esclareci:
Date: Tue, 15 Dec 2009 20:44:05
From: Lucia Welt
To: Joaquim Sustelo
Obrigadíssima caro Sustelo pelas amáveis palavras, que tanto me incentivam a continuar divulgando a obra de minha saudosa irmã Alma Welt.
Abraço
da Lucia
---------------------------------
From: Joaquim Sustelo
To: Lucia Welt
De nada, amiga.
Mas a poesia não é tua?
--------------------------------------------
From: Lucia Welt
To: Joaquim Sustelo
Não, caro Sustelo. A poetisa é a minha falecida irmã Alma Welt 1972-2007, que suicidou-se aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento, no dia 20/01/2007. Desde então sou sua devotada divulgadora e comentarista. Abri e administro 37 blogs, desde 2007, para a sua imensa obra. Só de sonetos já descobri mais de 1.500, além de contos, crônicas, contos, novelas e romances escritos por ela em sua curta mas tão fecunda vida. Ela deixou isso tudo manuscrito guardado numa arca que encontrei, para minha grande surpresa,após a sua morte, no sótão do casarão de nossa estância aqui no Pampa riograndense. Todos os dias encontro coisas novas que constato serem inéditas, e as digito e publico, nos blogs póstumos dela, aqui e em mais meia dúzia de portais literários coletivos. Creio que precisarei de mais dez anos no mínimo, para fazer o "rescaldo" completo de sua obra.
Os raros poemas e sonetos meus que publico com o meu nome, quase sempre são homenagens a ela ou a ela se referem.
Sinto muito, caro Sustelo, de alguma forma decepcionar-te.
Abraço
Lucia
----------------------------------------------
Não Lúcia, a mim não me decepcionaste. Passarei é a ler-te pensando nela. Fiquei muito triste ao saber que já não está entre nós. Penso que deverei homenageá-la, e a ti também por a divulgares.
Um beijo para ambas.
Sustelo
-------------------------------------------------------------
À ALMA WELT
Não sei como falar da tua alma
Que em tempos nos deixou belos poemas...
Que vem mostrar a vida em tantos temas
A vida onde na qual perdeste a calma
Ainda assim eu venho dar-te a palma
Que embora não vencesses os problemas
Confiro no que leio os diademas
Da Poeta soberana que me acalma
E tento que o poema meu se esbelte
Para homenagear-te, ó Alma Welt,
Tu que escreveste lindo em tua vida
Porém talvez não tenha arte ou argúcia
E peço o meu perdão à mana Lúcia
Que mostra a tua arte... embevecida.
Joaquim Sustelo
__________________________________
Joaquim Sustelo disse...
À ALMA WELT (II)
(na sequência do seu poema
A Dama do Lago)
Exausta te sentiste quando a vida
Te estava numa linda Primavera,
Optando por fazer uma partida
Que a gente à tua volta nunca espera.
Torrente de poemas... dilacera
Saber que esta poesia colorida
Pertence à tal Poeta que morrera
Aos poucos, por não suportar a vida.
Ah! Alma de minh'alma se te visse
A tempo de dizer-te o que já disse
E o mais que inda teria por dizer,
Quem sabe... tua vida inda florisse
E fosse o nosso chão uma planície
Com tantas plantas boas a crescer...
Um beijo, amiga
Joaquim Sustelo
25 de dezembro de 2009 05:06
Lúcia Welt disse...
Que belíssimo soneto de homenagem à Alma, amigo Sustelo.
Onde ela estiver, certamente estará grata e comovida, como eu...
Beijos
da Lu
Date: Tue, 15 Dec 2009 20:44:05
From: Lucia Welt
To: Joaquim Sustelo
Obrigadíssima caro Sustelo pelas amáveis palavras, que tanto me incentivam a continuar divulgando a obra de minha saudosa irmã Alma Welt.
Abraço
da Lucia
---------------------------------
From: Joaquim Sustelo
To: Lucia Welt
De nada, amiga.
Mas a poesia não é tua?
--------------------------------------------
From: Lucia Welt
To: Joaquim Sustelo
Não, caro Sustelo. A poetisa é a minha falecida irmã Alma Welt 1972-2007, que suicidou-se aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento, no dia 20/01/2007. Desde então sou sua devotada divulgadora e comentarista. Abri e administro 37 blogs, desde 2007, para a sua imensa obra. Só de sonetos já descobri mais de 1.500, além de contos, crônicas, contos, novelas e romances escritos por ela em sua curta mas tão fecunda vida. Ela deixou isso tudo manuscrito guardado numa arca que encontrei, para minha grande surpresa,após a sua morte, no sótão do casarão de nossa estância aqui no Pampa riograndense. Todos os dias encontro coisas novas que constato serem inéditas, e as digito e publico, nos blogs póstumos dela, aqui e em mais meia dúzia de portais literários coletivos. Creio que precisarei de mais dez anos no mínimo, para fazer o "rescaldo" completo de sua obra.
Os raros poemas e sonetos meus que publico com o meu nome, quase sempre são homenagens a ela ou a ela se referem.
Sinto muito, caro Sustelo, de alguma forma decepcionar-te.
Abraço
Lucia
----------------------------------------------
Não Lúcia, a mim não me decepcionaste. Passarei é a ler-te pensando nela. Fiquei muito triste ao saber que já não está entre nós. Penso que deverei homenageá-la, e a ti também por a divulgares.
Um beijo para ambas.
Sustelo
-------------------------------------------------------------
À ALMA WELT
Não sei como falar da tua alma
Que em tempos nos deixou belos poemas...
Que vem mostrar a vida em tantos temas
A vida onde na qual perdeste a calma
Ainda assim eu venho dar-te a palma
Que embora não vencesses os problemas
Confiro no que leio os diademas
Da Poeta soberana que me acalma
E tento que o poema meu se esbelte
Para homenagear-te, ó Alma Welt,
Tu que escreveste lindo em tua vida
Porém talvez não tenha arte ou argúcia
E peço o meu perdão à mana Lúcia
Que mostra a tua arte... embevecida.
Joaquim Sustelo
__________________________________
Joaquim Sustelo disse...
À ALMA WELT (II)
(na sequência do seu poema
A Dama do Lago)
Exausta te sentiste quando a vida
Te estava numa linda Primavera,
Optando por fazer uma partida
Que a gente à tua volta nunca espera.
Torrente de poemas... dilacera
Saber que esta poesia colorida
Pertence à tal Poeta que morrera
Aos poucos, por não suportar a vida.
Ah! Alma de minh'alma se te visse
A tempo de dizer-te o que já disse
E o mais que inda teria por dizer,
Quem sabe... tua vida inda florisse
E fosse o nosso chão uma planície
Com tantas plantas boas a crescer...
Um beijo, amiga
Joaquim Sustelo
25 de dezembro de 2009 05:06
Lúcia Welt disse...
Que belíssimo soneto de homenagem à Alma, amigo Sustelo.
Onde ela estiver, certamente estará grata e comovida, como eu...
Beijos
da Lu
domingo, 20 de dezembro de 2009
Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)

Alma Welt, Peregrinação à Árvore Sagrada -pintura de Guilherme de Faria, em processo (inacabada )
Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)
Eu que venho do plano da coxilha
À colina junto ao mar peregrinei
E emocionada então me prosternei
Como pródiga e reverente filha
Diante da sacra Árvore da Vida
Que ali frente ao azul Mediterrâneo
Permanece desde o tempo do Druida
E invisível ao olhar contemporâneo.
Então em minha pira os votos ardo
Com o mate que pra fumigar abafo
Grata à minha Musa e ao meu Bardo*
Pois receber um soneto cada dia
Não é pouco privilégio a cortesia
De Ossian e da divina abelha Safo.*
(sem data)
Notas
* Ossian - o bardo celta dos "Cantos de Ossian", livro de sagas e poemas do tempo dos druidas, em lingua gaélica, uma obra-prima descoberta no final do século XVIII, na Escócia, e que traduzida para o inglês se tornou a obra poética preferida de Goethe e de Napoleão I. Posteriormente descobriu-se ser apócrifa e atribuida ao jornalista escocês James Macpherson.
*Safo (de Lesbos)- a maior poetisa da antigüidade, e de quem a Alma era devota, foi elevada pelos gregos à condição de sétima Musa, e tinha o epíteto de " a Abelha da Piéria". (Lucia Welt)
A Dama do Lago (II) (de Alma Welt)


A Dama do Lago- díptico a óleo s/ tela, de Guilherme de Faria, 1977, 110x140cm cada. O primeiro na coleção Elisa Nazarian. Este segundo na coleção do falecido Fernando Carrieri, São Paulo, Brasil
A Dama do Lago (II) (de Alma Welt)
À vezes me sinto quase exausta
De ser este vulcão, esta torrente
De poemas, visões e vida fausta,
Derramada, liberta, transparente.
Tudo revelei, não por bravata,
E me doei generosa a este mundo
E ao Pampa, como água vem do fundo
Da fonte do meu poço da cascata
Aonde sinto deitarei como na cama
Pois aqui avistei-me como a Dama
Do Lago, que recolhe a bela espada
Que eu, como Arthur, me atirarei,
Cumprida a minha missão inusitada,
De volta ao mar de brumas como o rei...
20/12/2006
sábado, 19 de dezembro de 2009
Manhã orvalhada (de Lucia Welt, para a Alma Welt)- republicação

Alma Welt, manhã orvalhada -óleo s/tela de Guilherme de Faria,
110x140cm, Coleção GLATT, São Paulo, Brasil
Manhã orvalhada
(Para a amada Alma)
Nesta manhã orvalhada
caminhei pela campina como outrora
quando tudo parecia mais autêntico e vivo
pois a Alma estava entre nós
e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
Ainda ouvi sua respiração arfante
não tanto pelo andadura
como pelas emoções de seu olhar
sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
que me passavam despercebidos.
Senti novamente seu perfume
de mulher jovem inconcebivelmente linda
que só por isso já nos comovia
tanto quanto aos peões
que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
e tiravam o chapéu
ao seu riso cristalino.
Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
que agora nos falta!
Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas
entre a paisagem e nosso alento
que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
em teu vôo a um tempo gracioso e sobranceiro,
de branca garça pampiana
guria de cabelos flamejantes, de pele alva
de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
Esta foi, além de teus poemas
tua prenda maior mas tua desgraça,
pois também os maus te viram
e cobiçaram...
Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada,
quando rindo de alegria te afastavas de súbito
virando-te para mim
para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina
por puro prazer de viver.
Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã!
Que poema posso eu te escrever
senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
cheia de secretos encantos
que no entanto prodigalizavas?
Quanto te desnudavas em tua generosidade,
pois bem sabias que o olhar do povo,
deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
como não seria com nenhuma outra prenda!
Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses)
não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino
e fruir de tua pele de seda de impossível brancura
sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua
e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro?
(Ai! Na grande cidade também foste amada,
mas também violada
em tua comovente vulnerabilidade,
criatura exótica perdida no caos.)
Ah! Não poder nunca defender-te,
preservar-te do mal e dos maus,
cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal
e nunca mais deixar-te ir-se!...
Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão,
senti teu beijo em meus lábios,
o hálito fresco da pradaria
e soube que continuas por aqui.
E chorei consolada...
(Lucia Welt)
28/05/2008
Acusado! (de Alma Welt)
Os amigos vão-se e nós restamos.
Permanecemos a brincar, mas temerosos
Esperando nossa vez nos disfarçamos
Como crianças, como se ainda novos.
Escondidos à espera do: “Acusado!
Te vi aí atrás daquela moita!”
Daquele que nos vendo não se afoita
Pois basta o dedo a nós ter apontado.
E saímos um a um do esconderijo
Escolhido por nós na brincadeira,
Alguns sem conter o medo e o mijo.
É duro brincar com esse vizinho,
Tanto mais que brincamos na ladeira,
E alto ou baixo, no final... brincas sozinho.
(sem data)
Permanecemos a brincar, mas temerosos
Esperando nossa vez nos disfarçamos
Como crianças, como se ainda novos.
Escondidos à espera do: “Acusado!
Te vi aí atrás daquela moita!”
Daquele que nos vendo não se afoita
Pois basta o dedo a nós ter apontado.
E saímos um a um do esconderijo
Escolhido por nós na brincadeira,
Alguns sem conter o medo e o mijo.
É duro brincar com esse vizinho,
Tanto mais que brincamos na ladeira,
E alto ou baixo, no final... brincas sozinho.
(sem data)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
As horas voam (de Alma Welt)
As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
09/12/2006
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
09/12/2006
A charrete na ventania (de Alma Welt)

A charrete na ventania -pintura de 1967 do mestre José Antonio da Silva
Depressa, Galdério, com a charrete!
Faça a égua correr, mas sem chicote.
Sei que podes conseguir, a ti compete,
Use de persuasão... e que ela trote!
Bá! Velho Mino, tu me assustas!
E temo que invadindo teu espaço
Nos percamos assim nas tuas volutas
Ou nos enrolemos no teu laço.
Contigo não disputo, tu me gelas!
Vai, Miranda, bota sebo nas canelas
Ou esta noite não verei meu casarão
Com a lareira a crepitar em nossa sala,
Uma ceia à doce luz do lampião
E vinho vindo da adega na senzala...
(sem data)
Notas
Velho Mino- era como a Alma chamava o vento minuano, que ela temia e venerava.
*...vindo da adega na senzala- No seu romance A Herança, Alma conta como descobriu uma safra inteira de 1.000 garrafas de um vinho magnífico, a verdadeira herança de nossos avós, escondida numa adega por nós desconhecida, debaixo do casarão e que fora uma antiga senzala.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
O rio (de Alma Welt)
Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
08/07/2006
nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e encantada, vou imediatamente postá-lo lá no blog dos Metafísicos da Alma.
(Lucia Welt)
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
08/07/2006
nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e encantada, vou imediatamente postá-lo lá no blog dos Metafísicos da Alma.
(Lucia Welt)
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
O Segredo da Alma (de Alma Welt)
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma e imediatamente o enviei como resposta à Leandra April lá no blog do Milton Ribeiro.
Leandra, que durante um ano se correspondeu por e.mail com a Alma, e muito a amou, agora, diante das dúvidas sobre a existência real da Musa levantadas pelo debate naquele interessante blog, se mostra atormentada e mesmo revoltada, acreditando ter se apaixonado por uma miragem que a seduziu. Ameaça mesmo me processar para saber a verdade.
Olha, Leandra querida, quê posso te dizer? Vê, a Alma mesma te respondeu:
O Segredo da Alma (de Alma Welt)
Diante de mim mesma me persigno,
Eu que reverencio tantos deuses…
A musa que elegi, do mesmo signo,
É fiel e me acompanha desde Elêusis.
A Musa a que há muito me votei,
O fiz, modesta, em honra do que sou,
Pois já Zeus a fizera, o que amei,
Com meus traços, e vai aonde vou.
Anima sou e me chamavam Psiqué,
Mas neste Pampa um tanto esdrúxulo
Volto a saber quem sou, quem ela é:
Alma Welt, prenda ruiva e poetisa
Devo cantar a terra madre do gaúcho,
Sagrada, e que a nós dois imortaliza…
Leandra, que durante um ano se correspondeu por e.mail com a Alma, e muito a amou, agora, diante das dúvidas sobre a existência real da Musa levantadas pelo debate naquele interessante blog, se mostra atormentada e mesmo revoltada, acreditando ter se apaixonado por uma miragem que a seduziu. Ameaça mesmo me processar para saber a verdade.
Olha, Leandra querida, quê posso te dizer? Vê, a Alma mesma te respondeu:
O Segredo da Alma (de Alma Welt)
Diante de mim mesma me persigno,
Eu que reverencio tantos deuses…
A musa que elegi, do mesmo signo,
É fiel e me acompanha desde Elêusis.
A Musa a que há muito me votei,
O fiz, modesta, em honra do que sou,
Pois já Zeus a fizera, o que amei,
Com meus traços, e vai aonde vou.
Anima sou e me chamavam Psiqué,
Mas neste Pampa um tanto esdrúxulo
Volto a saber quem sou, quem ela é:
Alma Welt, prenda ruiva e poetisa
Devo cantar a terra madre do gaúcho,
Sagrada, e que a nós dois imortaliza…
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Dias tristes II (de Alma Welt)
(ou O outro canto da cigarra)
Dia cinza e chuvoso, novamente,
E eu que sou tão susceptível
Amanheci também triste e carente
A crer que esta vida é impossível
Pois há muito findaram aqueles dias
De vinhos e de rosas no poente,
Quando junto a mim permanecias
E em torno ainda havia tanta gente,
E tudo era fartura e esbanjamento,
De tanto vão carinho dissipado
Com o breve vinho do momento
Sem guardar o desta temporada,
Somente de memórias do passado
Pois o aqui e agora é quase nada...
(sem data)
Dia cinza e chuvoso, novamente,
E eu que sou tão susceptível
Amanheci também triste e carente
A crer que esta vida é impossível
Pois há muito findaram aqueles dias
De vinhos e de rosas no poente,
Quando junto a mim permanecias
E em torno ainda havia tanta gente,
E tudo era fartura e esbanjamento,
De tanto vão carinho dissipado
Com o breve vinho do momento
Sem guardar o desta temporada,
Somente de memórias do passado
Pois o aqui e agora é quase nada...
(sem data)
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O bobo na colina (de Alma Welt)
Longe dança o bobo, de contente,
E o vejo e aos outros na colina
Em silhueta no cenário do poente
A que meu ser no âmago declina.
Meu coração rejeita esse cordão
De desgraçados e teme o que ilude
Nessa dança macabra de roldão
De que fugi até agora como pude.
Sei bem quem é o tal bobo sinistro
Disfarçado de coringa esfuziante
E que na falsa dança segue adiante
Envolvente como um sutil jogral,
Mas que é o ardiloso e vil ministro
Do rei que nos quer o bem e o mal...
08/01/2007
E o vejo e aos outros na colina
Em silhueta no cenário do poente
A que meu ser no âmago declina.
Meu coração rejeita esse cordão
De desgraçados e teme o que ilude
Nessa dança macabra de roldão
De que fugi até agora como pude.
Sei bem quem é o tal bobo sinistro
Disfarçado de coringa esfuziante
E que na falsa dança segue adiante
Envolvente como um sutil jogral,
Mas que é o ardiloso e vil ministro
Do rei que nos quer o bem e o mal...
08/01/2007
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
La vida es sueño (de Alma Welt)

Pintura de Guilherme de Faria, 2006, óleo s/ tela, 150x150cm, coleção Fernando Carrieri, São Paulo, Brazil
La vida es sueño (de Alma Welt)
Penso logo existo, diz Descartes,
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final de minha arte?
Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.
Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...
Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...
(sem data)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
O excelente poeta luso Joaquim Sustelo que publica seus poemas no Mural dos Escritores acaba de me fazer esta tocante homenagem:
LÚCIA WELT
(pequena homenagem)
Por vezes estamos sós e sem saber
Porque é que o tempo pára para nós;
Ou porque nos sentimos muito sós...
Ou porque não há nada pra fazer
As horas são obstáculo a vencer
E o tempo se afigura como algoz!
Enquanto a solidão cresce veloz
Entristecido que é o nosso Ser
Então, para expulsar a amargura
Que tal nos dedicarmos à leitura
De algo que ao olhar se nos esbelte?
Exemplo? - Uma boa poesia;
Assim, e quanto a isso, eu sugeria
Poemas que nos dá a Lúcia Welt.
Joaquim Sustelo
a que imediatamente retribuí:
Ao Joaquim Sustelo ( de Lucia Welt)
Sim, se nos sentimos solitários
Por todas as razões de ser e estar
Num mar de piratas e corsários
Numa rota para além de Gibraltar,
As horas nesse mar seriam tédio
Se não fossem o medo e as saudades
Que negamos em nós, de tanto assédio,
De duelos, abordagens e maldades.
E eu, que sou de mim presa e botim,
Longe de águas calmas de um arroio
Arrisquei meu presunçoso bergantim.
Mas se me sinto só sob um cutelo
Ainda posso contar com o apoio
E um verso lisonjeiro do Sustelo.
_______________________
LÚCIA WELT
(pequena homenagem)
Por vezes estamos sós e sem saber
Porque é que o tempo pára para nós;
Ou porque nos sentimos muito sós...
Ou porque não há nada pra fazer
As horas são obstáculo a vencer
E o tempo se afigura como algoz!
Enquanto a solidão cresce veloz
Entristecido que é o nosso Ser
Então, para expulsar a amargura
Que tal nos dedicarmos à leitura
De algo que ao olhar se nos esbelte?
Exemplo? - Uma boa poesia;
Assim, e quanto a isso, eu sugeria
Poemas que nos dá a Lúcia Welt.
Joaquim Sustelo
a que imediatamente retribuí:
Ao Joaquim Sustelo ( de Lucia Welt)
Sim, se nos sentimos solitários
Por todas as razões de ser e estar
Num mar de piratas e corsários
Numa rota para além de Gibraltar,
As horas nesse mar seriam tédio
Se não fossem o medo e as saudades
Que negamos em nós, de tanto assédio,
De duelos, abordagens e maldades.
E eu, que sou de mim presa e botim,
Longe de águas calmas de um arroio
Arrisquei meu presunçoso bergantim.
Mas se me sinto só sob um cutelo
Ainda posso contar com o apoio
E um verso lisonjeiro do Sustelo.
_______________________
Tempestade (de Alma Welt)

Tempestade -óleo s/ tela de Guilherme de Faria
Tempestade (de Alma Welt)
Vê: o céu se adensa e escurece,
Procelárias se agitam sobre a face
Que se ergue na mais sinistra prece
Prevendo o iminente desenlace.
O mar se turva e mais se encrespa
E as ondas lançam brados de loucura
Enquanto um ribombo força a fresta
De um teto de chumbo sem pintura.
Então o caos se instala e ai de nós
Neste pequenino barco rubro
Que não passa de vã casca de noz
À deriva, a medo, e sem poesia,
Se o vórtice indigesto de um tubo
Nos devora em ânsias de agonia...
14/09/2006
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Canção sinistra (de Alma Welt)

A Peste (1898)- de Arnold Böcklin 1827-1901

O corvo sobre a forca (1568)- de Pieter Bruegel, o Velho
Canção sinistra (de Alma Welt)
Chegamos ao fim, não tem mais jeito,
O mundo se acabou e já o vemos,
O Mal é burgomestre ou o prefeito,
O caos se instalou e é o que temos.
Corram, corram, amigos desta aldeia
Aí vêm do tirano os quatro esbirros,
Foices já não brilham, e a cara feia,
Respingadas pelo sangue aos espirros.
Um corvo ali crocita no patíbulo
Mas a madrugada ainda teremos,
Vamos todos juntos ao prostíbulo.
Dancemos, cantemos e bebamos
A manhã por certo não veremos.
Ah! A vida foi tão breve e já nos vamos...
17/01/2007

Dança na aldeia- de Pieter Bruegel, o Velho
A Pergunta (de Alma Welt)
Saberei morrer, chegada a hora?
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.
Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.
Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,
Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nesta vida
Num falso carnaval de gestos lentos.
(sem data)
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.
Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.
Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,
Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nesta vida
Num falso carnaval de gestos lentos.
(sem data)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
O Mistério Alma Welt (um acróstico apócrifo)
Descobri, através da pesquisa Google, o blog do escritor Milton Ribeiro com uma página sobre a polêmica que se estabeleceu na Internet sobre a existência real ou não da Poetisa Alma Welt. Esse blog ressalta a existência de um "mistério Alma Welt". Seria divertido para mim, não fosse o fato de que a lembranças de minha irmã sobrepostas às imagens de sua morte trágica me emocionam ainda, demais, e trazem-me lágrimas aos olhos e um aperto no coração. Entretanto encontrei numa outra página do mesmo blog este comentário da pessoa que se diz chamar Jungmar Jensen e que tem um blog dedicado a investigar o "mistério Alma Welt". Fiquei pasma e (como ele diz que fez) também escrevi para o Guilherme de Faria que reiterou a sua negação, indignado de que estejam usando seu nome no acróstico de um soneto falsamente a ele atribuido.
Imediatamente escrevi ao sr Jungmar e consegui permissão para transcrever aqui o que ele postou no blog do Milton Ribeiro:
Jungmar Jensen
on Dec 7th, 2009 at 1:41 am
Já confessei aqui o meu fracasso em elucidar o Mistério Alma Welt, mesmo tendo aberto há meses um blog com essa finalidade. Ainda não cheguei a uma conclusão, tanto mais que acabo de receber através de um e.mail nitidamente falso este notável soneto em acróstico que fui imediatamente conferir com o mestre poeta e pintor Guilherme de Faria, que veemente e indignadamente negou a autoria. É curioso perceber como o veterano artista se emociona ao falar de sua grande musa, a cuja imagem e memória está dedicado em magníficas telas desde que a conheceu e amou. Entretanto, como contribuição ao debate, e por sua curiosidade e engenho transcrevo aqui o citado soneto, mesmo que apócrifo:
Quem sou
Gostariam de saber quem mesmo sou,
Um bardo ou poetisa delicada
Interiorizando um grande show
Literalmente ao longo da jornada.
Herdei, confesso, o estro e o resto,
E devo tudo à Alma peregrina
Resoluta, rebelde e feminina
Mesmo que acabe num protesto
E revolte alguns dúbios sentimentos
Fazendo com que me dêem as costas
Aqueles que choravam meus tormentos,
Rindo também se alegre estava,
Indicando minhas vitórias nas apostas
A que dei tanto valor quando jogava…
Imediatamente escrevi ao sr Jungmar e consegui permissão para transcrever aqui o que ele postou no blog do Milton Ribeiro:
Jungmar Jensen
on Dec 7th, 2009 at 1:41 am
Já confessei aqui o meu fracasso em elucidar o Mistério Alma Welt, mesmo tendo aberto há meses um blog com essa finalidade. Ainda não cheguei a uma conclusão, tanto mais que acabo de receber através de um e.mail nitidamente falso este notável soneto em acróstico que fui imediatamente conferir com o mestre poeta e pintor Guilherme de Faria, que veemente e indignadamente negou a autoria. É curioso perceber como o veterano artista se emociona ao falar de sua grande musa, a cuja imagem e memória está dedicado em magníficas telas desde que a conheceu e amou. Entretanto, como contribuição ao debate, e por sua curiosidade e engenho transcrevo aqui o citado soneto, mesmo que apócrifo:
Quem sou
Gostariam de saber quem mesmo sou,
Um bardo ou poetisa delicada
Interiorizando um grande show
Literalmente ao longo da jornada.
Herdei, confesso, o estro e o resto,
E devo tudo à Alma peregrina
Resoluta, rebelde e feminina
Mesmo que acabe num protesto
E revolte alguns dúbios sentimentos
Fazendo com que me dêem as costas
Aqueles que choravam meus tormentos,
Rindo também se alegre estava,
Indicando minhas vitórias nas apostas
A que dei tanto valor quando jogava…
domingo, 6 de dezembro de 2009
Se deixo assim passar (de Alma Welt)
Se deixo assim passar um dia só
Sem ter escrito ao menos um soneto
Ou conto, uma crônica, um quarteto,
Um verso que seja... me faz dó.
O Tempo por certo não é meu sócio
Ou tenho dele uma quota tão restrita!
Não posso dar-me o luxo de tal ócio
E o verso que perdi ainda me irrita.
Não consigo entender que uma pessoa
Se deixe estar a viver sem criar algo
Que palpado possa ser e que ressoa.
É como ver as horas irem pelo ralo
Nessa nossa temporada de fidalgo
A perseguir pobres raposas a cavalo...
Sem ter escrito ao menos um soneto
Ou conto, uma crônica, um quarteto,
Um verso que seja... me faz dó.
O Tempo por certo não é meu sócio
Ou tenho dele uma quota tão restrita!
Não posso dar-me o luxo de tal ócio
E o verso que perdi ainda me irrita.
Não consigo entender que uma pessoa
Se deixe estar a viver sem criar algo
Que palpado possa ser e que ressoa.
É como ver as horas irem pelo ralo
Nessa nossa temporada de fidalgo
A perseguir pobres raposas a cavalo...
sábado, 5 de dezembro de 2009
Que falta... o meu Natal! (de Alma Welt)
"Mudou o Natal, ou mudei eu?" (Machado de Assis)
Eis aí o Natal neste meu Pampa.
E eu não sei se gosto ou se minto...
Faltam tantos queridos, falta tanta
Emoção que agora não mais sinto!
A Mutti, o Vati, até a irmã*
Que me fazia picuinhas de Natal
Só pra não perder a mão do sal
Com que cosinhava a coisa vã.
E Alberto*, o meu fã embriagado
Que não obstante meu cunhado
Me declarava amor e coisa e tal...
Rôdo, onde está?* E a irmã Lúcia,
Pê e Pati e os anjinhos de pelúcia?*
Ah! Como faz falta o meu Natal!
23/12/2006
Notas
*irmã- Alma se refere à nossa irmã mais velha
Solange que a perseguia muito, se tornando
mesmo sua inimiga. Mas ambas se perdoaram na morte
de Solange nos braços da Alma. Isso está contado
no romance auto-biográfico A Herança.
*Alberto- Nosso cunhado alcoólatra, viúvo de
Solange que sobreviveu a ela (que o havia abandonado) apenas um ano.
Alma lhe tinha carinho pois este salvara-lhe a vida
em circunstâncias que estão descritas no romance.
*Rôdo, onde está?- O amor de Alma por nosso irmão desde a tenra infância, durou até o fim, e é bem conhecido dos leitores da nossa poetisa.
No último Natal Rôdo chegou da Europa atrazado, só no Ano Novo.
*Pê e Pati- Pedrinho e Patrícia, filhos de Solange
e Alberto, e que agora são meus filhos.
*... os anjinhos de pelúcia- Alma se refere assim
aos gêmeos Hans e Christian, meus filhos.
Chegamos de Alegrete nas vésperas do Natal,
e encontramos Alma melancólica e nostálgica,
sintomas da doença a que atribuimos a sua morte.
Eis aí o Natal neste meu Pampa.
E eu não sei se gosto ou se minto...
Faltam tantos queridos, falta tanta
Emoção que agora não mais sinto!
A Mutti, o Vati, até a irmã*
Que me fazia picuinhas de Natal
Só pra não perder a mão do sal
Com que cosinhava a coisa vã.
E Alberto*, o meu fã embriagado
Que não obstante meu cunhado
Me declarava amor e coisa e tal...
Rôdo, onde está?* E a irmã Lúcia,
Pê e Pati e os anjinhos de pelúcia?*
Ah! Como faz falta o meu Natal!
23/12/2006
Notas
*irmã- Alma se refere à nossa irmã mais velha
Solange que a perseguia muito, se tornando
mesmo sua inimiga. Mas ambas se perdoaram na morte
de Solange nos braços da Alma. Isso está contado
no romance auto-biográfico A Herança.
*Alberto- Nosso cunhado alcoólatra, viúvo de
Solange que sobreviveu a ela (que o havia abandonado) apenas um ano.
Alma lhe tinha carinho pois este salvara-lhe a vida
em circunstâncias que estão descritas no romance.
*Rôdo, onde está?- O amor de Alma por nosso irmão desde a tenra infância, durou até o fim, e é bem conhecido dos leitores da nossa poetisa.
No último Natal Rôdo chegou da Europa atrazado, só no Ano Novo.
*Pê e Pati- Pedrinho e Patrícia, filhos de Solange
e Alberto, e que agora são meus filhos.
*... os anjinhos de pelúcia- Alma se refere assim
aos gêmeos Hans e Christian, meus filhos.
Chegamos de Alegrete nas vésperas do Natal,
e encontramos Alma melancólica e nostálgica,
sintomas da doença a que atribuimos a sua morte.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Vida do poeta (de Alma Welt)
Se penso minha vida nesta estância
Eu vejo que afinal não me perdi
Conquanto meus desejos e esta ânsia
Produzam uma tocha em que me vi,
De repente, ardendo em minhas noites
No meio destes prados esquecidos
Neste fim de mundo e seus amoites
De valentes exilados ou fugidos.
Logo busco encontrar o meu prazer
Que está na base mesma da procura
E que a culpa me quer comprometer.*
E então uma coerência se faz ver*
Mesmo dentro do quadro de loucura
Que é a vida do poeta enquanto ser...
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e mais uma vez constato essa coerência que ela menciona.
*...e a culpa me quer comprometer- Alma certamente se refere ao seu relacionamento incestuoso com nosso irmão Rodo, que nasceu inocentemente na infância de ambos, e a que nossa mãe cobriu de escândalo, procurando incutir um sentimento de culpa que não era natural à indole da Alma, criada por nosso pai, sem batismo e "como uma pequena pagã".
* ...uma coerência se faz ver- Existe uma expressão inglesa se referindo a certos loucos que dizem de repente coisas muito lógicas: "há um método nessa loucura..." Alma brincava com isso, pois somente nossa mãe achava que a Alma era atacada de uma espécie de loucura poética, que ela, a "Açoriana", gostaria de coibir. (Lucia Welt)
Eu vejo que afinal não me perdi
Conquanto meus desejos e esta ânsia
Produzam uma tocha em que me vi,
De repente, ardendo em minhas noites
No meio destes prados esquecidos
Neste fim de mundo e seus amoites
De valentes exilados ou fugidos.
Logo busco encontrar o meu prazer
Que está na base mesma da procura
E que a culpa me quer comprometer.*
E então uma coerência se faz ver*
Mesmo dentro do quadro de loucura
Que é a vida do poeta enquanto ser...
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e mais uma vez constato essa coerência que ela menciona.
*...e a culpa me quer comprometer- Alma certamente se refere ao seu relacionamento incestuoso com nosso irmão Rodo, que nasceu inocentemente na infância de ambos, e a que nossa mãe cobriu de escândalo, procurando incutir um sentimento de culpa que não era natural à indole da Alma, criada por nosso pai, sem batismo e "como uma pequena pagã".
* ...uma coerência se faz ver- Existe uma expressão inglesa se referindo a certos loucos que dizem de repente coisas muito lógicas: "há um método nessa loucura..." Alma brincava com isso, pois somente nossa mãe achava que a Alma era atacada de uma espécie de loucura poética, que ela, a "Açoriana", gostaria de coibir. (Lucia Welt)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A anti-condoreira (de Alma Welt)
São poucos os chamados à Poesia
Entre os milhões que fazem versos.
E os verdadeiros, os dotados de magia,
Quase sempre no silêncio estão imersos.
Quero dizer, sem voz que nos alcance,
Tateando ao frio sol de seus degredos
Esperando finalmente a grande chance
De revelarem seus delírios e segredos.
Pois Poesia não é cartilha de decência
Ou de conduta um perfeito manual,
E muito menos declarações de amor
Se não mesmo ao poema e sua essência
Gratuita, aérea, livre e, se animal,
Capaz de mergulhar, não um condor.
(sem data)
Entre os milhões que fazem versos.
E os verdadeiros, os dotados de magia,
Quase sempre no silêncio estão imersos.
Quero dizer, sem voz que nos alcance,
Tateando ao frio sol de seus degredos
Esperando finalmente a grande chance
De revelarem seus delírios e segredos.
Pois Poesia não é cartilha de decência
Ou de conduta um perfeito manual,
E muito menos declarações de amor
Se não mesmo ao poema e sua essência
Gratuita, aérea, livre e, se animal,
Capaz de mergulhar, não um condor.
(sem data)
domingo, 29 de novembro de 2009
A cal e a pedra (de Alma Welt)
Olhando meu passado e o presente,
Não vivo de pequenas alegrias,
Devo confessar humildemente,
Mas de grandes arroubos e euforias.
Pruridos ou mania de grandeza!
Dirão alguns, como eu ouvia
Já de minha mãe, não com rudeza,
Mas dura, cortante e um tanto fria.
Mas vede, é com pouco que construo
E transformo em epopéias a jornada
Destes meus dias que tão ávida fruo.
Fazer do vão momento e até do tédio
A cal e a pedra do nosso grande prédio,
Ser poeta é justamente a empreitada...
17/06/2005
Não vivo de pequenas alegrias,
Devo confessar humildemente,
Mas de grandes arroubos e euforias.
Pruridos ou mania de grandeza!
Dirão alguns, como eu ouvia
Já de minha mãe, não com rudeza,
Mas dura, cortante e um tanto fria.
Mas vede, é com pouco que construo
E transformo em epopéias a jornada
Destes meus dias que tão ávida fruo.
Fazer do vão momento e até do tédio
A cal e a pedra do nosso grande prédio,
Ser poeta é justamente a empreitada...
17/06/2005
sábado, 28 de novembro de 2009
O segredo (de Alma Welt)
Crescer e ser chamada a escrever,
Dar meu testemunho da paixão
De ser... e a lealdade de viver
Em sintonia de alma e coração,
Eis a chave de uma vida em poesia
Que por certo me fez pagar um preço
Muito alto e excludente de honraria,
Pois ser poeta é ter na Arte o endereço.
Quem no dinheiro estiver sintonizado,
No dinheiro está... e não em Arte.
Impossível dos dois mundos fazer parte.
E se me perguntas: “É um brinquedo?”
Eu murmuro te puxando para um lado:
“Não posso revelar-te um tal segredo...”
14/05/2005
Dar meu testemunho da paixão
De ser... e a lealdade de viver
Em sintonia de alma e coração,
Eis a chave de uma vida em poesia
Que por certo me fez pagar um preço
Muito alto e excludente de honraria,
Pois ser poeta é ter na Arte o endereço.
Quem no dinheiro estiver sintonizado,
No dinheiro está... e não em Arte.
Impossível dos dois mundos fazer parte.
E se me perguntas: “É um brinquedo?”
Eu murmuro te puxando para um lado:
“Não posso revelar-te um tal segredo...”
14/05/2005
Estrela peregrina (de Alma Welt)
Estrela peregrina do meu pampa,
De quem viria a ser dileta filha!
És a cigana que por aqui acampa
E eu te evoquei em minha vigília,
Rafisa, musa destas pradarias,
Que me deste a honra da amizade,
E que ainda bem mais dividirias:
Teu leito e um dom de divindade,
O poder de divinar o meu futuro
Que me fez enxergar além do muro
Com sensível clareza e acuidade.
E este louco sentimento de urgência
Contra o fundo cenário de saudade
Que dá a esta poesia permanência...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, embora ele trate de tema bastante recorrente na obra da nossa Poetisa: a sua relação com a cigana Rafisa. Como exemplo republico aqui outros dedicados à cigana que foi uma das mais amadas namoradas de minha irmã, a quem ensinou, infelizmente, a arte divinatória, que, suspeito, precipitou o seu destino:
Um soneto para a minha cigana (de Alma Welt)
Minha amada cigana está vindo!
A Rafisa... um peão veio avisar.
E logo penso que quando ela chegar
Meu mundo voltará a ficar lindo...
Eu sei que as ciganas querem paga
Para ler o futuro sem agir,
Não lhes cabe escolher ou decidir,
Mas a minha cigana é mesmo maga
Pois seu dom é trazer encantamento
Num carroção puxado por jumento
Que abre um arco-íris na poeira
E ela chega com a silhueta esguia
De seu corpo moreno que se esgueira
Para trocar comigo sua poesia...
21/12/2006
O que me disse a cigana (de Alma Welt)
Um dia voltando do meu bosque
Onde fora colher belas amoras
Eu vi uma espécie de quiosque
E ciganos a dançar as suas horas.
Pensei:"vou ofertar-lhes o que aqui tenho,
E juntar-me a eles por minutos..."
Ah! por quê é que não contenho
Esta sede de espalhar todos os frutos?
Pois logo uma delas veio a mim
E afoita agarrando a minha mão
Me levou para atrás de um carroção
E com estranho olhar me disse assim:
"A *Moira vê, te cobiça, e eu cuidaria,
Porquanto jorras tanta e tal poesia!"
08/01/2007
Notas da editora:
* Moira - A Morte, uma das várias naturezas
de Ananque (a Necessidade) entre
os antigos órficos gregos. É um princípio teogônico
(arqué) ao mesmo tempo que uma deusa. Outras naturezas da
Necessidade eram, por exemplo, Dyké(a Justiça),
Niké( a Vitória), Fado (o Destino), Belona (a Guerra),
a Discórdia, etc.
Este soneto me parece mais um momento de
de premonição da Alma, quanto à proximidade
de sua morte, onze dias depois.
O SONHO DA ALMA COM O PAVÃO MISTERIOSO

O sonho da Alma- óleo s/ tela, 100x100cm, de Guilherme de Faria
Notícias do Pavão Misterioso (de Alma Welt)
Rafisa esteve aqui e revelou-me
Que Josué espera a minha volta
E não consegue esconder a sua revolta
Com a partida que afinal facilitou-me
Entregando-me na casa do italiano
Em pleno Carnaval-frevo de Olinda
Depois de voarmos meio ano
Por cima daquela terra linda.
"O Pavão Misterioso nos espera,
(eu li isto em minha própria palma)
Mas não no carroção, minha tapera."
"Quero voar contigo, minha Alma,
No *tapete voador do Josué,
Do Recife à muito vera Santa Fé!"
12/01/2007
Notas
* Rafisa- Este é o nome (anagrama de Safira) da cigana recorrente nos textos da Alma. Ela existe mesmo, e era uma amiga muito fiel da Alma, que dedicou a ela um capítulo do seu romance "O Retorno dos Menestréis", e mais de uma crônica, como a "Safira eu e os ciganos" e "A peregrina" ( vide no Leia livro), onde Alma conta um terrível drama vivido por sua amiga cigana. Outra curiosidade sobre ela, foi que a partir de uma estória vivida que ela contou para a Alma e esta repassou para o seu amigo cordelista Guilherme de Faria, este compôs sua obra prima: o cordel "Romance da Vidência" (vide Leia Livro).
* Josué- Jovem sertanejo, irmão da Anunciada, personagens reais descritos primeiramente no conto da Alma entitulado "Na Trilha dos Menestréis, e depois na sua seqüência, o romance "O Retorno dos Menestréis". Alma teve um tórrido romance com esse jovem sertanejo, quando de sua viagem a Olinda e ao sertão pernambucano e paraibano, que ela transformou em conto publicado(Contos da Alma de Alma Welt, pela Editora Palavras & Gestos de São Paulo( vide capa neste blog)
e o romance inédito do qual ela publicou trechos no Recanto das Letras(apagado) e no Leia Livro.
* na casa do Italiano- Esse italiano do qual o primeiro nome é Giuseppe, é real, vive ainda em Olinda e foi "marchand" da Alma enquanto pintora.
* Pavão Misterioso - Alma persegue e incorpora esse mito
nordestino que é o fundamento central de seu conto e romance referidos acima.
* "tapete voador"- aqui, metáfora do Pavão Misterioso alusiva
às "mil e uma noites" simbolicamente vividas pela Alma no sertão nordestino
* "à muito vera Santa Fé"- Alma, através da Rafisa se refere
à cidade imaginária, mítica, da família Terra, depois Terra-Cambará, do monumental romance "O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo, que ela alude com a expressão "muito vera" (muito verdadeira, veríssima).
De quem viria a ser dileta filha!
És a cigana que por aqui acampa
E eu te evoquei em minha vigília,
Rafisa, musa destas pradarias,
Que me deste a honra da amizade,
E que ainda bem mais dividirias:
Teu leito e um dom de divindade,
O poder de divinar o meu futuro
Que me fez enxergar além do muro
Com sensível clareza e acuidade.
E este louco sentimento de urgência
Contra o fundo cenário de saudade
Que dá a esta poesia permanência...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, embora ele trate de tema bastante recorrente na obra da nossa Poetisa: a sua relação com a cigana Rafisa. Como exemplo republico aqui outros dedicados à cigana que foi uma das mais amadas namoradas de minha irmã, a quem ensinou, infelizmente, a arte divinatória, que, suspeito, precipitou o seu destino:
Um soneto para a minha cigana (de Alma Welt)
Minha amada cigana está vindo!
A Rafisa... um peão veio avisar.
E logo penso que quando ela chegar
Meu mundo voltará a ficar lindo...
Eu sei que as ciganas querem paga
Para ler o futuro sem agir,
Não lhes cabe escolher ou decidir,
Mas a minha cigana é mesmo maga
Pois seu dom é trazer encantamento
Num carroção puxado por jumento
Que abre um arco-íris na poeira
E ela chega com a silhueta esguia
De seu corpo moreno que se esgueira
Para trocar comigo sua poesia...
21/12/2006
O que me disse a cigana (de Alma Welt)
Um dia voltando do meu bosque
Onde fora colher belas amoras
Eu vi uma espécie de quiosque
E ciganos a dançar as suas horas.
Pensei:"vou ofertar-lhes o que aqui tenho,
E juntar-me a eles por minutos..."
Ah! por quê é que não contenho
Esta sede de espalhar todos os frutos?
Pois logo uma delas veio a mim
E afoita agarrando a minha mão
Me levou para atrás de um carroção
E com estranho olhar me disse assim:
"A *Moira vê, te cobiça, e eu cuidaria,
Porquanto jorras tanta e tal poesia!"
08/01/2007
Notas da editora:
* Moira - A Morte, uma das várias naturezas
de Ananque (a Necessidade) entre
os antigos órficos gregos. É um princípio teogônico
(arqué) ao mesmo tempo que uma deusa. Outras naturezas da
Necessidade eram, por exemplo, Dyké(a Justiça),
Niké( a Vitória), Fado (o Destino), Belona (a Guerra),
a Discórdia, etc.
Este soneto me parece mais um momento de
de premonição da Alma, quanto à proximidade
de sua morte, onze dias depois.
O SONHO DA ALMA COM O PAVÃO MISTERIOSO

O sonho da Alma- óleo s/ tela, 100x100cm, de Guilherme de Faria
Notícias do Pavão Misterioso (de Alma Welt)
Rafisa esteve aqui e revelou-me
Que Josué espera a minha volta
E não consegue esconder a sua revolta
Com a partida que afinal facilitou-me
Entregando-me na casa do italiano
Em pleno Carnaval-frevo de Olinda
Depois de voarmos meio ano
Por cima daquela terra linda.
"O Pavão Misterioso nos espera,
(eu li isto em minha própria palma)
Mas não no carroção, minha tapera."
"Quero voar contigo, minha Alma,
No *tapete voador do Josué,
Do Recife à muito vera Santa Fé!"
12/01/2007
Notas
* Rafisa- Este é o nome (anagrama de Safira) da cigana recorrente nos textos da Alma. Ela existe mesmo, e era uma amiga muito fiel da Alma, que dedicou a ela um capítulo do seu romance "O Retorno dos Menestréis", e mais de uma crônica, como a "Safira eu e os ciganos" e "A peregrina" ( vide no Leia livro), onde Alma conta um terrível drama vivido por sua amiga cigana. Outra curiosidade sobre ela, foi que a partir de uma estória vivida que ela contou para a Alma e esta repassou para o seu amigo cordelista Guilherme de Faria, este compôs sua obra prima: o cordel "Romance da Vidência" (vide Leia Livro).
* Josué- Jovem sertanejo, irmão da Anunciada, personagens reais descritos primeiramente no conto da Alma entitulado "Na Trilha dos Menestréis, e depois na sua seqüência, o romance "O Retorno dos Menestréis". Alma teve um tórrido romance com esse jovem sertanejo, quando de sua viagem a Olinda e ao sertão pernambucano e paraibano, que ela transformou em conto publicado(Contos da Alma de Alma Welt, pela Editora Palavras & Gestos de São Paulo( vide capa neste blog)
e o romance inédito do qual ela publicou trechos no Recanto das Letras(apagado) e no Leia Livro.
* na casa do Italiano- Esse italiano do qual o primeiro nome é Giuseppe, é real, vive ainda em Olinda e foi "marchand" da Alma enquanto pintora.
* Pavão Misterioso - Alma persegue e incorpora esse mito
nordestino que é o fundamento central de seu conto e romance referidos acima.
* "tapete voador"- aqui, metáfora do Pavão Misterioso alusiva
às "mil e uma noites" simbolicamente vividas pela Alma no sertão nordestino
* "à muito vera Santa Fé"- Alma, através da Rafisa se refere
à cidade imaginária, mítica, da família Terra, depois Terra-Cambará, do monumental romance "O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo, que ela alude com a expressão "muito vera" (muito verdadeira, veríssima).
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Soneto antigo (de Alma Welt)
Queria ir com a branca caravela
Que vejo no poente deslumbrante
Aqui deste grato meu mirante,
A varanda da casa grande e bela
Que não obstante me confina
Num canto limitado deste mundo,
Esta Alma cuja propensão sulina
É ir mais para o sul, ou mais ao fundo.
Leva-me, ó barco dos meus sonhos!
Como diriam as ledas poetisas,
Flores belas de tempos mais bisonhos...
Também tenho em mim barcos alados,
Mas vogo entre os perigos de banquisas
De um mar que subsiste nestes prados...
(sem data)
Que vejo no poente deslumbrante
Aqui deste grato meu mirante,
A varanda da casa grande e bela
Que não obstante me confina
Num canto limitado deste mundo,
Esta Alma cuja propensão sulina
É ir mais para o sul, ou mais ao fundo.
Leva-me, ó barco dos meus sonhos!
Como diriam as ledas poetisas,
Flores belas de tempos mais bisonhos...
Também tenho em mim barcos alados,
Mas vogo entre os perigos de banquisas
De um mar que subsiste nestes prados...
(sem data)
A suspeita (de Alma Welt)
Vivo desperta o sonho desta vida
Só possível ao grato coração
Conquanto a inquietação contida
Tenha o timbre da dor e da paixão
E um pesadelo oculto me acompanhe
Cada copo de vinho esvaziado
E mesmo a bela taça de champanhe
A saudar um novo cume conquistado.
Pois a contraparte percebida
É a terrível ameaça que perdura
Na suspeita do nadir da criatura.
Pois se a psique é alma e nos constrói,
Que será de nós se ela é perdida
Na poeira e no verme que nos rói?
(sem data)
Só possível ao grato coração
Conquanto a inquietação contida
Tenha o timbre da dor e da paixão
E um pesadelo oculto me acompanhe
Cada copo de vinho esvaziado
E mesmo a bela taça de champanhe
A saudar um novo cume conquistado.
Pois a contraparte percebida
É a terrível ameaça que perdura
Na suspeita do nadir da criatura.
Pois se a psique é alma e nos constrói,
Que será de nós se ela é perdida
Na poeira e no verme que nos rói?
(sem data)
O retorno (de Alma Welt)
Sem algum conflito estar no mundo
É uma leda utopia ou devaneio
Pois temos um vão rancor profundo
Disto tudo não ser o nosso meio
Amniótico, silencioso e tão seguro
Do qual fomos tirados brutalmente
Pelas boas intenções de um ente puro
Se considerado essencialmente:
A mãe que nos expulsa de si mesma
E nos lança afinal no labirinto
Ligados ao seu fio qual abantesma
E buscando escapar do Minotauro.
Eis como nesta vida mal me sinto:
Numa saga de retorno e de restauro.
(sem data)
É uma leda utopia ou devaneio
Pois temos um vão rancor profundo
Disto tudo não ser o nosso meio
Amniótico, silencioso e tão seguro
Do qual fomos tirados brutalmente
Pelas boas intenções de um ente puro
Se considerado essencialmente:
A mãe que nos expulsa de si mesma
E nos lança afinal no labirinto
Ligados ao seu fio qual abantesma
E buscando escapar do Minotauro.
Eis como nesta vida mal me sinto:
Numa saga de retorno e de restauro.
(sem data)
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O último verso (de Alma Welt)
Quando acordo e me ponho escrever,
E eu o faço o tempo todo, compulsiva,
Eu sinto que, assim só, posso viver
Ou que assim me sinto bem mais viva.
Entre o espírito e a carne o vão conflito
Expresso em outros termos, vida e arte,
Não existe mais pra mim, pois acredito,
Só se reflete o que do espelho fizer parte.
Solitária a vagar, devaneando
E parando pra anotar um simples verso,
Encontro o meu nicho no universo.
Mas cercada de poemas e de dores,
Se no leito estiver agonizando,
Roubai-me o derradeiro aos estertores...
(sem data)
E eu o faço o tempo todo, compulsiva,
Eu sinto que, assim só, posso viver
Ou que assim me sinto bem mais viva.
Entre o espírito e a carne o vão conflito
Expresso em outros termos, vida e arte,
Não existe mais pra mim, pois acredito,
Só se reflete o que do espelho fizer parte.
Solitária a vagar, devaneando
E parando pra anotar um simples verso,
Encontro o meu nicho no universo.
Mas cercada de poemas e de dores,
Se no leito estiver agonizando,
Roubai-me o derradeiro aos estertores...
(sem data)
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Evocando Rimbaud (de Alma Welt)

Retrato imaginário de Rimbaud- desenho de Guilherme de Faria (a pincel e nanquim sobre papel Shoeller, 70x25cm, déc de 80)
Evocando Rimbaud (de Alma Welt)
Se tendo a enternecer demasiado
Perdendo a dureza necessária
Como o bravo Che tinha alertado*,
Relembro outra verve visionária
Que pôs ponto final mas perdurou,
E o fez correr o mundo escuro
Além dos dezessete, o que o mudou
Na procura da beleza além do muro.
E na carta do Arthur Rimbaud vidente*
Reencontro o segredo que já havia
Em tão precoce e mágica poesia
Que deixou como lastro permanente,
No oceano sem farol, tão conturbado,
De nosso próprio barco embriagado*.
19/08/2006
Notas
Ao enviar este soneto (que acabo de encontrar na Arca da Alma) para o meu colaborador o mestre Guilherme de Faria, este, encantado, lembrou-se de ainda possuir em sua coleção este Retrato Imaginário de Rimbaud, meio maldito, trágico, pois representado no período final do poeta, com uma estranha e ambígua perna negra, gangrenada ou de pau, já amputada. (Lucia Welt)
...Como o bravo Che tinha alertado - Alusão à famosa frase de Che Guevara: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".
*...carta de Rimbaud vidente- Alusão à célebre Lettre du Voyant(carta do Vidente) de Rimbaud.
*...dos dezessete, o que o mudou - Rimbaud aos dezessete anos pôs ponto final na sua obra poética e tornou-se aventureiro na África negra (... "mundo escuro"), indo traficar armas para o Ras (imperador) Menelik, da Etiópia.
*...barco embriagado - menção ao Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado), célebre poema de Rimbaud.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Nau pirata (de Alma Welt)

Nau pirata- litografia de Guilherme de Faria
Para poder escrever e ser legítima
Sigo a esteira desta vã nave ignota
Em prados de ondulação marítima,
Mas de pó e pampa a minha rota.
Aqui desta varanda eu comando
Minhas horas matinais e do poente
Como sinistra capitã do meu desmando
Ou pirata do meu riso de contente.
E cedo tive meu motim denunciado
No Almirantado da dura Açoriana*
Que quis ver o meu sonho sufocado,
Pois viver a minha vida sem bandeira
E com estandarte de poesia pampiana,
Era guerrilha, não batalha verdadeira...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito, manuscrito, na arca da Alma, e logo o digitei por considerá-lo especialmente significativo da maneira como a Poetisa considerava seu métier, e como a oposição de nossa mãe, a *Açoriana (neta de portugueses açorianos) era um constante desafio (ou mágoa) para ela. (Lucia Welt)
domingo, 22 de novembro de 2009
Efeméridas, ou A Roda de Samsara (de Alma Welt)

A roda de Samsara
Efeméridas (de Alma Welt)
ou A Roda de Samsara
Eu costumava olhar as mariposas
E as efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,
Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve iluminar
No meio da infinita escuridão.
Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.
E se na festa dessa roda de Samsara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...
16/08/2005
Nota
Efeméridas- uma espécie de insetos voadores cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.
Ariadne em Náxos (de Alma Welt)

Ariadne em Náxos- pintura de John William Waterhouse (escola inglesa do século XIX)
Não temos planta baixa desta vida,
Suas câmaras, alcovas, confusão.
Uma aposta errada ou indevida
Põe tudo a perder e sem perdão.
Alguma lógica a nós perceptível
É a do encadear de circunstâncias
Que vemos perscrutando o fio sensível
Que atravessa nosso dédalo de ânsias,
Como aquele da Ariane sem dedal,
Alinhavados como ela ao ser amado,
Pasmo herói confuso e... enrolado,
Pois encontrar a completude original
Numa Náxos aberta e sem volutas,
Eis o nexo, afinal, das nossas lutas.
06/04/2005
Nota
Acabo de encontrar neste domingo, na Arca da Alma, este notável soneto inédito, um tanto filosófico, e a que não falta um toque do humorismo peculiar da Poetisa, cheia de referências, ilações e até trocadilhos. (Lucia Welt)
Por curiosidade republico aqui um outro soneto de mesmo título pertencente ao ciclo Sonetos Mitológicos da Alma, em que a Poetisa aborda o tema de maneira bem diferente, mas igualmente humorística:
Ariadne em Náxos (de Alma Welt)
( Dionisos )
3
Nesta Náxos, perdida, abandonada
Fui por Teseu logo esquecida,
Ou então foi a vela, assim, quadrada,
Que não pode interromper sua partida.
Por isso, ou razões da deusa Ananke
Fiquei a Zeus dará, meio perdida,
Com o fluir do meu destino assim estanque,
A ver crescer meu ventre, embevecida.
Até que o deus alegre, brincalhão,
Aportou nesta Náxos sem nexo
Trazendo um grande falo, como sexo
De madeira, polido, ornamentado,
Com correias preso, pendurado,
E pediu-me que o servisse... esse bufão!
Patética e inacabada* (de Alma Welt)
O soneto é a partitura do meu dia
E contém as notas, timbre e tom
De um andante meu na pradaria,
Dispondo se o concerto será bom.
Mas ao primeiro acorde inusitado
Regerei meu dia entre visões
E propensa a consultar o Fado,
Maestro verdadeiro... de ilusões.
Vê, o primo verso em tom saudoso
Já me arrasta em vã melancolia
Por um longo adágio de agonia...
Mas de minha sinfonia inacabada
O patético “finale maestoso”
Há de compor-se ao termo da jornada.
(sem data)
Nota
* Patética e inacabada - uma fusão, na alusão poética a duas famosas sinfonias: a "Patética" de Tchaikovsky e a "Inacabada" de Schubert.
E contém as notas, timbre e tom
De um andante meu na pradaria,
Dispondo se o concerto será bom.
Mas ao primeiro acorde inusitado
Regerei meu dia entre visões
E propensa a consultar o Fado,
Maestro verdadeiro... de ilusões.
Vê, o primo verso em tom saudoso
Já me arrasta em vã melancolia
Por um longo adágio de agonia...
Mas de minha sinfonia inacabada
O patético “finale maestoso”
Há de compor-se ao termo da jornada.
(sem data)
Nota
* Patética e inacabada - uma fusão, na alusão poética a duas famosas sinfonias: a "Patética" de Tchaikovsky e a "Inacabada" de Schubert.
sábado, 21 de novembro de 2009
De feiticeiras, sopranos e contraltos (de Alma Welt)
Amar, grande mistério, é Deus em nós,
Assim como odiar é o Diabo.
E este dito perdura muito após
O tempo em que o cujo era invocado
Não só a torto e a direito nas igrejas
Mas na cozinha das velhas feiticeiras
Que com a feiúra e nariz de brotoejas
Aqueciam mais que nossas mamadeiras,
Mas asas de morcego e alguns sapos
Com o fio de cabelo de um incauto
Que ousara cuspir nos nossos trapos.
Bah! Miséria... do soprano até o contralto,
Destino da mulher por tantos séculos,
Pernas abertas a sementes e espéculos!...
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar na Arca da Alma, este forte e chocante soneto, a meu ver, profundamente feminista.
*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.
*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum = espelho. (Lucia Welt)
Assim como odiar é o Diabo.
E este dito perdura muito após
O tempo em que o cujo era invocado
Não só a torto e a direito nas igrejas
Mas na cozinha das velhas feiticeiras
Que com a feiúra e nariz de brotoejas
Aqueciam mais que nossas mamadeiras,
Mas asas de morcego e alguns sapos
Com o fio de cabelo de um incauto
Que ousara cuspir nos nossos trapos.
Bah! Miséria... do soprano até o contralto,
Destino da mulher por tantos séculos,
Pernas abertas a sementes e espéculos!...
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar na Arca da Alma, este forte e chocante soneto, a meu ver, profundamente feminista.
*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.
*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum = espelho. (Lucia Welt)
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Magia do Verbo (de Alma Welt)
Mestre Freud dizia que as palavras
São uma espécie de magia atenuada.
Então, análise vem a ser abracadabras
Que a linguagem põe desencantada.
Nesses termos o poeta é o contrário,
Recompondo o encanto primitivo
Do verbo em seu impulso instintivo
Que marca a relação com o imaginário
Mas também com o mundo do real,
Mandrake, ilusionista e assombroso,
E a vida, um truque herdado mal e mal.
E estamos ainda agora como dantes,
Em plena festa da Natura como infantes
Diante do mágico, do acrobata e do Bozo*.
(sem data)
Nota
*Bozo- alcunha de um palhaço muito estereotipado da televisão brasileira nos anos oitenta, aqui usado como imagem do lado ridículo da nossa natureza... (Lucia Welt)
São uma espécie de magia atenuada.
Então, análise vem a ser abracadabras
Que a linguagem põe desencantada.
Nesses termos o poeta é o contrário,
Recompondo o encanto primitivo
Do verbo em seu impulso instintivo
Que marca a relação com o imaginário
Mas também com o mundo do real,
Mandrake, ilusionista e assombroso,
E a vida, um truque herdado mal e mal.
E estamos ainda agora como dantes,
Em plena festa da Natura como infantes
Diante do mágico, do acrobata e do Bozo*.
(sem data)
Nota
*Bozo- alcunha de um palhaço muito estereotipado da televisão brasileira nos anos oitenta, aqui usado como imagem do lado ridículo da nossa natureza... (Lucia Welt)
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Arte em mim (de Alma Welt)
Dei-me cedo a mim mesma permissões
Que a Vida não daria de bom grado
A um astro, soberano ou potentado,
Mas no mundo interno: o das visões.
Aqui fui princesa e sou rainha,
Estrela maga, infanta, feiticeira.
Aqui a bela Terra é toda minha
E a minha visão é a verdadeira
Pois não há como de mim desencantar
O mundo que criei, de tão sutil
A diferença entre o ser e o avatar.
E se o Mistério há em toda parte,
Em mim cristalizou-se como arte
Com as palavras gravadas a buril....
(sem data)
Que a Vida não daria de bom grado
A um astro, soberano ou potentado,
Mas no mundo interno: o das visões.
Aqui fui princesa e sou rainha,
Estrela maga, infanta, feiticeira.
Aqui a bela Terra é toda minha
E a minha visão é a verdadeira
Pois não há como de mim desencantar
O mundo que criei, de tão sutil
A diferença entre o ser e o avatar.
E se o Mistério há em toda parte,
Em mim cristalizou-se como arte
Com as palavras gravadas a buril....
(sem data)
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Meus heróis (de Alma Welt)
Perdida de mim na pradaria...
Uma vez me vi quase perdida
No labirinto que me confundiria,
E Ariane fui de minha saída.
E no núcleo rochoso do meu Eu
Em torno ao qual orbitam tais delírios
Estava o acorrentado Prometeu
Que tanto acende lumes como círios.
Mas libertei de mim o herói titã
Apoiada no meu próprio cabedal
Da ave do poder mesmo, xamã,
Que era o Abutre da minha mente
Empenhado no embate figadal,
Renovado sempre... eternamente.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto metafísico, em que a Poetisa reconhece, de acordo com a teoria da Mitanálise Junguiana, seus próprios arquétipos libertadores, no caso Ariadne, a do fio no labirinto (aqui grafada Ariane por questão de cadência), Prometeu, o libertador derrotado, mas que deu o fogo (a razão) ao homem, e a quem a Poetisa atribui também um elemento de morte, ao acender nossas velas fúnebres (círios); e afinal, surpreendentemente, o próprio Abutre, que devora eternamente o fígado, sede da alma = psique (figué, fígado, entre os gregos) como o seu animal de poder no Xamanismo, doutrina animista de que a Alma às vezes lançava mão pela sua beleza primitiva. (Lucia Welt)
Uma vez me vi quase perdida
No labirinto que me confundiria,
E Ariane fui de minha saída.
E no núcleo rochoso do meu Eu
Em torno ao qual orbitam tais delírios
Estava o acorrentado Prometeu
Que tanto acende lumes como círios.
Mas libertei de mim o herói titã
Apoiada no meu próprio cabedal
Da ave do poder mesmo, xamã,
Que era o Abutre da minha mente
Empenhado no embate figadal,
Renovado sempre... eternamente.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto metafísico, em que a Poetisa reconhece, de acordo com a teoria da Mitanálise Junguiana, seus próprios arquétipos libertadores, no caso Ariadne, a do fio no labirinto (aqui grafada Ariane por questão de cadência), Prometeu, o libertador derrotado, mas que deu o fogo (a razão) ao homem, e a quem a Poetisa atribui também um elemento de morte, ao acender nossas velas fúnebres (círios); e afinal, surpreendentemente, o próprio Abutre, que devora eternamente o fígado, sede da alma = psique (figué, fígado, entre os gregos) como o seu animal de poder no Xamanismo, doutrina animista de que a Alma às vezes lançava mão pela sua beleza primitiva. (Lucia Welt)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Retrato de Jomara (ou Meu Plano - de Alma Welt)

Retrato de Jomara (penúltima musa do pintor)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1976,30x40cm, coleção Flavio Pacheco, São Paulo, Brasil
Retrato de Jomara
ou Meu plano (de Alma Welt)
Contemplando um retrato de Jomara
Que musa fora do pintor Guilherme
E no qual o artista a morte captara
Em vida, e a que só faltava o verme
Que a esperava em breve sob a terra
Oculto e insidioso predador...
Eu, modelo vivo e diva do pintor
Resolvi poupar-me o que me aterra,
Que por meu plano justo e infalível
Hão de encontrar-me nua e bela
Sob um lago, espelho mais sensível.
E pelas instruções que dei de mim,
As chamas levarão como uma vela
Minha beleza preservada até o fim...
05/01/2007
Nota
Acabo de encontrar, assombrada e comovida, este aterrador soneto na Arca da Alma, em que ela revela o seu plano de morte incorruptível, e que dissipou para sempre as dúvidas que em nós foram plantadas sobre as circunstâncias da morte da Poetisa, por aquele nefasto delegado Bennotti. (Lucia Welt)
* O pintor imediatamente após receber este soneto republicou seu quadro no seu blog com este comentário: "Espantou-me saber que o retrato que pintei (nos anos 70) de minha segunda musa, Jomara, realmente premonitório do aspecto terrível que ela adquiriria pela doença que haveria de matar aquela que fora uma beldade na nossa louca juventude, serviria de inspiração às avessas para o plano de morte de outra beldade, a minha última musa, a poetisa Alma Welt. (Guilherme de Faria)
domingo, 8 de novembro de 2009
O Vale e a Aurora (de Alma Welt)
Minha mãe, a dura Açoriana,
Queria dobrar-me à tal doutrina
Do Vale de Lágrimas... e lama,
Pois meu riso iria contra a Sina
Do homem votado ao sofrimento
E que demandava austeridade
Para do dever o cumprimento,
Não entregue ao riso ou à saudade
Como era o meu caso, simplesmente.
Saudade, bem... a ânsia que eu sentia
Era a que o artista sempre sente.
Quanto ao riso... o oposto dos adeuses,
E ao ver o sol também que Arte nascia
Como aurora dos homens e dos deuses...
19/07/2005
Queria dobrar-me à tal doutrina
Do Vale de Lágrimas... e lama,
Pois meu riso iria contra a Sina
Do homem votado ao sofrimento
E que demandava austeridade
Para do dever o cumprimento,
Não entregue ao riso ou à saudade
Como era o meu caso, simplesmente.
Saudade, bem... a ânsia que eu sentia
Era a que o artista sempre sente.
Quanto ao riso... o oposto dos adeuses,
E ao ver o sol também que Arte nascia
Como aurora dos homens e dos deuses...
19/07/2005
Deus, deuses (Alma Welt)
Atribuir a Deus coisas de nós
Como amor, ira, onipotência
Tédio, ou pior, onisciência,
Bem, isso fazemos muito após
A era dos deuses encarnados...
Não me refiro àquele do madeiro
Mas aos dos tempos mais dourados
Em que se era cru e verdadeiro
E se punha ao largo contra Ílio,
Por Helena ou pra pilhar sem culpa,
Por puro vitalismo, ódio ou idílio.
E confesso preferia ter nascido
No tempo em que se era recebido
Sem a água-benta de desculpa...
(sem data)
Como amor, ira, onipotência
Tédio, ou pior, onisciência,
Bem, isso fazemos muito após
A era dos deuses encarnados...
Não me refiro àquele do madeiro
Mas aos dos tempos mais dourados
Em que se era cru e verdadeiro
E se punha ao largo contra Ílio,
Por Helena ou pra pilhar sem culpa,
Por puro vitalismo, ódio ou idílio.
E confesso preferia ter nascido
No tempo em que se era recebido
Sem a água-benta de desculpa...
(sem data)
sábado, 7 de novembro de 2009
O Vício do Soneto (de Alma Welt)
Sim, preciso afinal me confessar:
Estou mesma viciada no soneto,
E como em consultório não me meto,
Esse vício vai por certo me matar.
Pois já ando com lápis e bloquinho,
E até com o toco atrás da orelha,
Como o da padaria, lá, do Minho,
Pro verso que me dará na telha,
Pulando um riacho ou na campina,
A brincar com os infantes no jardim,
Até no leito, que não mais de menina,
Onde em ondas de múltiplos orgasmos
Me pego a ver tercetos dentro em mim,
E sílabas contar por entre espasmos...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me divertiu muito, e vou imediatamente postar no blog dos Humorísticos da Alma . (Lucia Welt)
Estou mesma viciada no soneto,
E como em consultório não me meto,
Esse vício vai por certo me matar.
Pois já ando com lápis e bloquinho,
E até com o toco atrás da orelha,
Como o da padaria, lá, do Minho,
Pro verso que me dará na telha,
Pulando um riacho ou na campina,
A brincar com os infantes no jardim,
Até no leito, que não mais de menina,
Onde em ondas de múltiplos orgasmos
Me pego a ver tercetos dentro em mim,
E sílabas contar por entre espasmos...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me divertiu muito, e vou imediatamente postar no blog dos Humorísticos da Alma . (Lucia Welt)
Anita, eu e as visitas (de Alma Welt)
Meus verões de guria na fazenda
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes
Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.
E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,
Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...
05/08/2001
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes
Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.
E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,
Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...
05/08/2001
O Sonho do casarão (de Alma Welt)
À meia-noite o sonho começava
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira
Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão
Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas
Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.
(sem data)
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira
Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão
Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas
Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.
(sem data)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A vida (de Alma Welt)
A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Babilônia (de Alma Welt)

A Torre de Babel- de Pieter Bruegel, 1563
Babilônia (de Alma Welt)
No mundo não há refúgio ou paz
A não ser na sua própria mente
Quem a tiver em paz, naturalmente,
Ou quem de altos vôos for capaz.
Não vêem os ingênuos ou incultos
Que o mundo foi sempre a Babilônia,
E não houve um só entre mil cultos
Que evitasse a falsa rima para esbórnia?
O segredo do mundo é a senda oculta
Que percorre o inferno nesta terra
Em meio a confusão da turbamulta
Da qual fazemos parte até o dia
Da recusa de uma tal de “mais valia”
E a solidão primordial que nos desterra.
09/10/2006
O Coro (de Alma Welt)
O canto da planície eu apreendi,
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O sentido da Vida (de Alma Welt)
Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.
Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,
É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.
Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...
28/07/2005
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto na Arca, e que logo postarei no blog dos humorísticos da Alma. A poetisa, por ser demasiado inteligente, sabia que a questão do "sentido da vida" só pode ser respondida com humor ... e em favor da beleza. (Lucia Welt)
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.
Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,
É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.
Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...
28/07/2005
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto na Arca, e que logo postarei no blog dos humorísticos da Alma. A poetisa, por ser demasiado inteligente, sabia que a questão do "sentido da vida" só pode ser respondida com humor ... e em favor da beleza. (Lucia Welt)
Amor, amores (de Alma Welt)
Coleciono amores com carinho
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O gaucho* (de Alma Welt)
O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.
Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual
Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.
Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.
06/05/2004
Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.
El gaucho (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
En la Pampa no hay flecos ni limite
Y se extiende mucho allá del horizonte
Donde el gaucho vive y sin desmonte
El Martín Fierro en sí él admite.
En la ondeada llanura de estos pagos
Como manta de un charqui visceral
Los peones son profetas y son magos
De una oculta cofradía de bagual
Cuyo honor o altivez alardeada
Del ser, es sin embargo confundida
Con la provocación o la machada.
Si todavía recusares un convite
A una rodada más de la bebida,
Saca luego tu fierro… y no hesite.
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.
Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual
Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.
Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.
06/05/2004
Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.
El gaucho (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
En la Pampa no hay flecos ni limite
Y se extiende mucho allá del horizonte
Donde el gaucho vive y sin desmonte
El Martín Fierro en sí él admite.
En la ondeada llanura de estos pagos
Como manta de un charqui visceral
Los peones son profetas y son magos
De una oculta cofradía de bagual
Cuyo honor o altivez alardeada
Del ser, es sin embargo confundida
Con la provocación o la machada.
Si todavía recusares un convite
A una rodada más de la bebida,
Saca luego tu fierro… y no hesite.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
A música dos versos (de Alma Welt)
Cedo eu encontrei o diapasão
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia
Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.
Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante
Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...
(sem data)
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia
Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.
Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante
Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...
(sem data)
A última primavera (de Alma Welt)

Ofélia- óleo s/ tela de Guilherme de Faria
A Última Primavera (de Alma Welt)
O que me guardará a primavera
Que é com certeza a derradeira
Já que a carta revelada, tão sincera
Me diz que não está pra brincadeira?
O meu jardim florido está deserto
Com as lindas crianças já crescidas,
Que já não as tenho tão por perto,
Que revoam, batem asas estendidas...
E se o meu perfil ainda comove
Por certo é a mim mesma que o faz
Se no espelhado lago ele se move.
Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,
A me dizer que o espelho sempre traz
Sobre a face liquefeita uma camélia...
20/10/2006
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Contratempo (de Alma Welt)
Eu pedi ao Tempo o beneplácito
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:
O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue
Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,
Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...
12/19/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me comoveu por nele Alma mais uma vez evidenciar que sabia que seu tempo estava acabando, e que ela se sentia numa espécie de prorrogação por causa de seu amor por Rodo, nosso irmão, que desde a infância lhe custara uma perda tão grande: o amor da "Açoriana", nossa mãe, segundo ela acreditava, já que Ana Morgado fora tão dura com sua filha até a sua morte quando Alma tinha 19 anos. Um grande número de sonetos da Alma trata desse problema, confiram. (Lucia Welt)
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:
O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue
Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,
Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...
12/19/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me comoveu por nele Alma mais uma vez evidenciar que sabia que seu tempo estava acabando, e que ela se sentia numa espécie de prorrogação por causa de seu amor por Rodo, nosso irmão, que desde a infância lhe custara uma perda tão grande: o amor da "Açoriana", nossa mãe, segundo ela acreditava, já que Ana Morgado fora tão dura com sua filha até a sua morte quando Alma tinha 19 anos. Um grande número de sonetos da Alma trata desse problema, confiram. (Lucia Welt)
domingo, 1 de novembro de 2009
Poema perplexo (de Alma Welt)
O melhor de mim
é a certeza
de minha perplexidade
inominável
diante da vida
erigida em religião
de mistérios
e de assombros.
E o amor...
por quase tudo
menos pela moscas
que essas seriam
mesmo
do diabo
como mosquitos
e algumas larvas
Mas o sol
e o seu pôr,
o sol...
só pode ser Deus,
se Deus houvesse.
Ando
pela campina
ainda a colher flores
privilégio que veio
a mim
de outras eras
E ao imaginar-me
e mesmo
avistar-me
com longínquo olho
me comovo
comigo
e abano a cabeça
conformada.
Romântica ?
Talvez...
por pura
estética...
17/08/2006
é a certeza
de minha perplexidade
inominável
diante da vida
erigida em religião
de mistérios
e de assombros.
E o amor...
por quase tudo
menos pela moscas
que essas seriam
mesmo
do diabo
como mosquitos
e algumas larvas
Mas o sol
e o seu pôr,
o sol...
só pode ser Deus,
se Deus houvesse.
Ando
pela campina
ainda a colher flores
privilégio que veio
a mim
de outras eras
E ao imaginar-me
e mesmo
avistar-me
com longínquo olho
me comovo
comigo
e abano a cabeça
conformada.
Romântica ?
Talvez...
por pura
estética...
17/08/2006
A cepa da videira (de Alma Welt)
Eu fui a este mundo transplantada
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo
Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.
E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,
Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.
(sem data)
Nota
Para o leitor neófito da Alma entender melhor este soneto (que acabo de descobrir na Arca da Poetisa) republico aqui estas estrofes do poema entitulado Meu perfil, que narra em seu início as circunstâncias excepcionais do nascimento da Musa, numa estrada, nossos pais vindos do Vale do Itajaí(SC) a caminho de Novo Hamburgo:
MEU PERFIL
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
...........................
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo
Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.
E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,
Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.
(sem data)
Nota
Para o leitor neófito da Alma entender melhor este soneto (que acabo de descobrir na Arca da Poetisa) republico aqui estas estrofes do poema entitulado Meu perfil, que narra em seu início as circunstâncias excepcionais do nascimento da Musa, numa estrada, nossos pais vindos do Vale do Itajaí(SC) a caminho de Novo Hamburgo:
MEU PERFIL
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
...........................
sábado, 31 de outubro de 2009
O início (de Alma Welt)
Nunca esquecerei meu próprio olhar
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.
O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.
Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.
Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...
08/05/2004
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.
O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.
Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.
Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...
08/05/2004
Finitude (de Alma Welt)
Estar-se consciente é a tragédia,
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.
A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.
Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.
Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...
Finitud (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Estarse conciente es la tragedia
De ser y estarse ante la muerte
Si eso entre nosotros, raro en media,
No lograr darnos así ningún suporte.
La finitud de todo es soportable
Cuando avistada en la Natura,
Pues la transformación es inefable
Y produce fruta verde y la madura.
Así como agua sube y pura cae
Nada se cría, tampoco no es nada,
Al polvo torna el cuerpo y se desvaye.
Pero sospecho que el Ego y su misterio
Completa imagen en vida conquistada
Se perderá en un otro cementerio…
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.
A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.
Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.
Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...
Finitud (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Estarse conciente es la tragedia
De ser y estarse ante la muerte
Si eso entre nosotros, raro en media,
No lograr darnos así ningún suporte.
La finitud de todo es soportable
Cuando avistada en la Natura,
Pues la transformación es inefable
Y produce fruta verde y la madura.
Así como agua sube y pura cae
Nada se cría, tampoco no es nada,
Al polvo torna el cuerpo y se desvaye.
Pero sospecho que el Ego y su misterio
Completa imagen en vida conquistada
Se perderá en un otro cementerio…
A nascente (de Alma Welt)
Meu despertar diário em Poesia
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto
Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão
De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...
Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...
(sem data)
El Naciente (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Mi despertar diario en poesía
Es un riachuelo que presiento
Y con un vislumbre todavía,
Que al localizarlo no desmiento
Que el soneto así nace mejor,
En el café en la mesa matinal,
Con chiquillería en derredor
Y en mi mano el toque digital
De Rodo, mi hermano, que escogía
El póquer por minar nuestro pasado,
Y que es otro misterio o ironía…
Pues creo que el naciente que destilo
Y de equilibrio ambiental tan delicado
Empieza siempre con un cristalino hilo.
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto
Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão
De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...
Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...
(sem data)
El Naciente (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Mi despertar diario en poesía
Es un riachuelo que presiento
Y con un vislumbre todavía,
Que al localizarlo no desmiento
Que el soneto así nace mejor,
En el café en la mesa matinal,
Con chiquillería en derredor
Y en mi mano el toque digital
De Rodo, mi hermano, que escogía
El póquer por minar nuestro pasado,
Y que es otro misterio o ironía…
Pues creo que el naciente que destilo
Y de equilibrio ambiental tan delicado
Empieza siempre con un cristalino hilo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Análise sucinta do tumulto a propósito de uma mini-saia, numa universidade de São Paulo (por Lucia Welt).
O tumulto ocorrido numa universidade de São Paulo causado pela mini-saia de uma moça, deveria ser analisado à luz da psicologia das massas, disciplina praticamente inexistente hoje em dia e que tentarei configurar em um de seus aspectos básicos.
Houve um enorme retrocesso no processo de emancipação feminina a partir do advento da AIDS no começo dos anos oitenta. Uma série de conquistas das mulheres, decorrentes do movimento feminista a partir dos anos sessenta, foram renegadas e retroagiram. O momento é de uma grande obscuridade social, e talvez mesmo cultural, com a cultura tendo sido atrelada ao consumo, produzindo a chamada “cultura de massas”.
A verdade é que o jovem de hoje é de uma lamentável incultura e conseqüentemente de uma espantosa mediocridade pessoal, existencial. Individualmente é um ignorante, em que pese o seu acesso à informação através da Internet. O jovem típico de hoje, é o contrário do ser "individuado", na concepção junguiana do termo. Fruto da sociedade de consumo, não tem consciência histórica referencial, não tem pensamentos próprios e vive sob o domínio das palavras de ordem do momento e dos modismos quer de linguagem, quer de gostos e padrões de comportamento. É escravo das modas, manipulado pelos chamados "formadores de opinião", os manipuladores das mentes através das mídias: escrita, televisiva e digital. Seres assim, isolados raramente são perigosos, mas quando em ajuntamento constituem um organismo imprevisível como uma manada passível de estouro a qualquer momento, bastando para isso um elemento catalizador do inconsciente de cada membro amalgamando-os para formar o que poderíamos chamar de inconsciente coletivo primal: uma força conjunta primitiva, de natureza violenta e negativa.
Uma multidão de jovens assim, mesmo no ambiente de uma faculdade, é a coisa mais parecida com o fenômeno das massas acéfalas clássicas mobilizadas pelos "senhores da guerra", e basta uma faísca, uma provocação ou uma liderança cega eventual para produzir o mesmo movimento, por exemplo, de um linchamento: a irrupção do inconsciente coletivo no seu componente mais bárbaro, primitivo, violento e sanguinário. Ou, no caso, com raízes na discriminação milenar da sexualidade feminina, que na antiguidade produzia até mesmo a lapidação das adúlteras, ou, mais tarde, a queima das bruxas.
Os meios de comunicação, suspeitos por natureza (já que estão na base do fenômeno) no caso dos jornais televisivos através de seus jornalistas locutores, se encontram obviamente despreparados para uma abordagem em profundidade, e manifestam perplexidade ou atribuem o fato tão somente a uma "atitude preconceituosa”, sem meios ou tempo de irem mais fundo numa análise que, na verdade resultaria desoladora. Estamos novamente em tempos de trevas. E brevemente veremos as massas, constituídas em maioria pelos jovens, gritando algo equivalente ao “Aos leões!...” da plebe romana. E salve-se quem puder....
Lucia Welt
Houve um enorme retrocesso no processo de emancipação feminina a partir do advento da AIDS no começo dos anos oitenta. Uma série de conquistas das mulheres, decorrentes do movimento feminista a partir dos anos sessenta, foram renegadas e retroagiram. O momento é de uma grande obscuridade social, e talvez mesmo cultural, com a cultura tendo sido atrelada ao consumo, produzindo a chamada “cultura de massas”.
A verdade é que o jovem de hoje é de uma lamentável incultura e conseqüentemente de uma espantosa mediocridade pessoal, existencial. Individualmente é um ignorante, em que pese o seu acesso à informação através da Internet. O jovem típico de hoje, é o contrário do ser "individuado", na concepção junguiana do termo. Fruto da sociedade de consumo, não tem consciência histórica referencial, não tem pensamentos próprios e vive sob o domínio das palavras de ordem do momento e dos modismos quer de linguagem, quer de gostos e padrões de comportamento. É escravo das modas, manipulado pelos chamados "formadores de opinião", os manipuladores das mentes através das mídias: escrita, televisiva e digital. Seres assim, isolados raramente são perigosos, mas quando em ajuntamento constituem um organismo imprevisível como uma manada passível de estouro a qualquer momento, bastando para isso um elemento catalizador do inconsciente de cada membro amalgamando-os para formar o que poderíamos chamar de inconsciente coletivo primal: uma força conjunta primitiva, de natureza violenta e negativa.
Uma multidão de jovens assim, mesmo no ambiente de uma faculdade, é a coisa mais parecida com o fenômeno das massas acéfalas clássicas mobilizadas pelos "senhores da guerra", e basta uma faísca, uma provocação ou uma liderança cega eventual para produzir o mesmo movimento, por exemplo, de um linchamento: a irrupção do inconsciente coletivo no seu componente mais bárbaro, primitivo, violento e sanguinário. Ou, no caso, com raízes na discriminação milenar da sexualidade feminina, que na antiguidade produzia até mesmo a lapidação das adúlteras, ou, mais tarde, a queima das bruxas.
Os meios de comunicação, suspeitos por natureza (já que estão na base do fenômeno) no caso dos jornais televisivos através de seus jornalistas locutores, se encontram obviamente despreparados para uma abordagem em profundidade, e manifestam perplexidade ou atribuem o fato tão somente a uma "atitude preconceituosa”, sem meios ou tempo de irem mais fundo numa análise que, na verdade resultaria desoladora. Estamos novamente em tempos de trevas. E brevemente veremos as massas, constituídas em maioria pelos jovens, gritando algo equivalente ao “Aos leões!...” da plebe romana. E salve-se quem puder....
Lucia Welt
Ritual (de Alma Welt)
Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)
É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...
(21/08/2005)
El Laberinto de Dioniso (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Es posible un ser el otro conocer ?
Podremos penetrarle el corazón ?
En la bodega aquí del caserón
El alma quiere huir o trascender?
El griego antiguo está engañado:
Como Ícaro de plumas y de penas,
En el cuerpo de un Titán, encarcelado,
Dioniso solo hay alas de falenas…
Y miedoso, sumiso, acobardado,
Quisiera aquí quedarse eternamente
Pues teme lo que habrá de otro lado.
Y el techo azul, solar, del laberinto
(no se trata de bodega, yo lo siento)
Es consuelo y ledo engaño suficiente.
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...
(21/08/2005)
El Laberinto de Dioniso (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Es posible un ser el otro conocer ?
Podremos penetrarle el corazón ?
En la bodega aquí del caserón
El alma quiere huir o trascender?
El griego antiguo está engañado:
Como Ícaro de plumas y de penas,
En el cuerpo de un Titán, encarcelado,
Dioniso solo hay alas de falenas…
Y miedoso, sumiso, acobardado,
Quisiera aquí quedarse eternamente
Pues teme lo que habrá de otro lado.
Y el techo azul, solar, del laberinto
(no se trata de bodega, yo lo siento)
Es consuelo y ledo engaño suficiente.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O Pacto (de Alma Welt)
A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.
Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.
E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles
E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)
Imediatamente o verti para o castelhano:
El Acuerdo (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
La vida, mi amigo, no perdona
Un engaño, errores o desliz,
Y ha de cobrar en tu persona,
Sea aquí, en Belize o en Paris.
No podrás huir a Patagonia
Si en la hora misma de conquista
Cambiares una rosa por begonia
O otra flor que esté fuera de su lista.
Y si la atracción mutua de sus lutos
Te hace casar con un ser incompatible,
Acuerdo que no puedes cambiar
Y que el Tiempo, lento, ha de cobrar,
Verás que un orgasmo de minutos
Se ha tornado esa tu vida, tan horrible…
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.
Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.
E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles
E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)
Imediatamente o verti para o castelhano:
El Acuerdo (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
La vida, mi amigo, no perdona
Un engaño, errores o desliz,
Y ha de cobrar en tu persona,
Sea aquí, en Belize o en Paris.
No podrás huir a Patagonia
Si en la hora misma de conquista
Cambiares una rosa por begonia
O otra flor que esté fuera de su lista.
Y si la atracción mutua de sus lutos
Te hace casar con un ser incompatible,
Acuerdo que no puedes cambiar
Y que el Tiempo, lento, ha de cobrar,
Verás que un orgasmo de minutos
Se ha tornado esa tu vida, tan horrible…
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
A Dama do Lago (de Alma Welt)
Dediquei-me à tarefa de sonhar
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho
Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre
Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,
No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.
08/01/2007
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho
Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre
Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,
No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.
08/01/2007
Angústia (de Alma Welt)
É difícil desfrutar da juventude
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,
Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.
Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,
Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...
(sem data)
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,
Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.
Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,
Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...
(sem data)
sábado, 24 de outubro de 2009
O Ser e a Poesia (de Alma Welt)
Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Meta-física (de Alma Welt)
Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)
Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)

O eterno retorno- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, déc, 70, 60x80cm, (paradeiro desconhecido)
Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
08/01/2007
El Eterno Retorno (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
No digo adiós a las cosas tan amadas
Que me acompañaran en esta vida,
De las aves el canto en las ramadas
O los colores que yo veo embebecida
De los ponientes que más allá nos ponen
Y la gloria hacen ver y lo que habemos
Cuando ya no decimos aquel amén
Pero somos entonces lo que vemos
Integrados en el Mundo y el Porvenir,
Soles, espacio-tiempo, muerte fría
O tan solo un cometa en nostalgia
En el viaje solitario, extremo en sí,
Durante la jornada a desvaír
Para tornar al lar, que es mismo aquí…
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Stradivarius (de Alma Welt)
Conquanto nascida pra escrever,
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.
Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão
Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,
Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...
14/01/2007
Stradivarius (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Con cuanto yo he nacida para escribir
Yo sé que no seré bien comprendida
Pues que sonetos solo a exhibir
No ha sido mi propósito en la vida.
Pero subir bien alto en pensamiento,
Entregarme a la pasión que me disuelve
Por todo lo que es vivo en andamiento
Sabedora de que todo al polvo vuelve,
Como simiente de un sueño conmovido,
Hondas raíces lanzando en la memoria,
Luchando en las tinieblas y el olvido,
Esta es mi meta objetiva, mi destino,
Más que un soprano, un violín muy fino,
Stradivarius de mi misma y de mi gloria.
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.
Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão
Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,
Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...
14/01/2007
Stradivarius (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Con cuanto yo he nacida para escribir
Yo sé que no seré bien comprendida
Pues que sonetos solo a exhibir
No ha sido mi propósito en la vida.
Pero subir bien alto en pensamiento,
Entregarme a la pasión que me disuelve
Por todo lo que es vivo en andamiento
Sabedora de que todo al polvo vuelve,
Como simiente de un sueño conmovido,
Hondas raíces lanzando en la memoria,
Luchando en las tinieblas y el olvido,
Esta es mi meta objetiva, mi destino,
Más que un soprano, un violín muy fino,
Stradivarius de mi misma y de mi gloria.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
“O tempo e o vento” (soneto de Alma Welt para Érico Veríssimo)

Alma e o vento- pintura de Guilherme de Faria
(para Érico Veríssimo, in memoriam)
Para expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...
Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.
Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.
E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória...
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e maravilhada com essa bela homenagem ao grande Érico, imediatamente verti-o (ou transliterei-o) para o castelhano:
El Tempo y el Viento
(de Alma Welt para Érico Veríssimo, in memoriam)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para cantar la Pampa, que es mi hado,
Raíces hondas yo lancé, de umbu-pampero,
Aquél grande en la colina, elevado,
(que nada ha de segarme por entero)...
La tierra y yo tenemos lazos, somos un,
Y la llanura se refleja en mi mirada
A buscar el horizonte como un zoon
Y la razón de ser poeta y desvariada.
Pero todo a cercarme está lanzado
En un libro de registros inmanente
De sonetos como flores de mi prado.
Y cuando llegue un tiempo sin memoria,
Sin embargo amplia y llana en mi mente,
El viento ha de narrar mi propia historia.
A Usurpadora (de Alma Welt)

Da série Dança Macabra- xilogravura de Rethel
Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.
De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
Da Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...
A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,
Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...
10/06/2005
La Usurpadora (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Aunque caída yo retorno al caserón,
Yo que anduve por el mundo, peregrina
En busca de algo en una esquina,
Sin embargo estaba aquí su apelación.
De mi feudo la muerte me expulsara,
No me quería ella y sí mi Vati.
De la infanta destronada se librara,
Que me tornara amarga como el mate.
La Usurpadora no quiere llanto ver,
Un pie allá, otro en la vida, como anfíbia,
En la macabra fiesta es solo una mujer,
Libertina, siniestra y falsa amable.
Y yo escuché su violín en una tibia
En la sala del difunto inigualable.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A queda livre (de Alma Welt)
A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
O Sangue do Poeta (de Alma Welt)
Quando guria um tonel eu vi jorrar
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
Nota
Acabei de descobrir este soneto na Arca da Alma e logo o verti para o idioma castelhano para postá-lo nas páginas da Poetisa no portal LA VOZ DE LA PALABRA ESCRITA-INTERNACIONAL, também no ES DELETRAS e no RED DE ESCRITORES DE COQUIMBO:
La sangre del Poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Yo era niña y he visto chorrear
El vino por la hierba en borbollón
De un tonel por el hacha de un peón
Que lo rajó así, siempre a gritar:
“ He aquí la sangre de la tierra!
Y luego el de mi mismo, lo verán!
Pero verteré de uno que aberra
Y no merece el amargo* que le dan!”
En la tarde ha ocurrido el embate
En la sinistra Colina del Ahorcado
De la sangre más regada que del mate.
Y yo que todo en cerca absorbía
Juré verter por cuenta de mi hado
Mi sangre por la vida y la Poesía…
Nota
* amargo- el mate (sorbido en una calabaza, el "chimarrão") referido así por los peones de la Pampa.
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
Nota
Acabei de descobrir este soneto na Arca da Alma e logo o verti para o idioma castelhano para postá-lo nas páginas da Poetisa no portal LA VOZ DE LA PALABRA ESCRITA-INTERNACIONAL, também no ES DELETRAS e no RED DE ESCRITORES DE COQUIMBO:
La sangre del Poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Yo era niña y he visto chorrear
El vino por la hierba en borbollón
De un tonel por el hacha de un peón
Que lo rajó así, siempre a gritar:
“ He aquí la sangre de la tierra!
Y luego el de mi mismo, lo verán!
Pero verteré de uno que aberra
Y no merece el amargo* que le dan!”
En la tarde ha ocurrido el embate
En la sinistra Colina del Ahorcado
De la sangre más regada que del mate.
Y yo que todo en cerca absorbía
Juré verter por cuenta de mi hado
Mi sangre por la vida y la Poesía…
Nota
* amargo- el mate (sorbido en una calabaza, el "chimarrão") referido así por los peones de la Pampa.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Penélope do Pampa (de Alma Welt)
Nos meus olhos lágrimas faltando,
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória
Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.
E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo
Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...
Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)
Como exemplo da recorrência deste tema na obra da Alma republico aqui este outro (n°221, dos Sonetos Pampianos):
Penélope (de Alma Welt)
Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.
Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna
Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,
E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.
29/12/2006
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória
Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.
E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo
Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...
Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)
Como exemplo da recorrência deste tema na obra da Alma republico aqui este outro (n°221, dos Sonetos Pampianos):
Penélope (de Alma Welt)
Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.
Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna
Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,
E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.
29/12/2006
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Estaremos (de Alma Welt)
Estaremos por aqui na derrocada,
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão
Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...
Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.
E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, inédito embora de tema bastante recorrente na obra da poetisa. Republico aqui, como exemplo, este outro (n° 163 dos Pampianos da Alma) de tema análogo:
A Abantesma (de Alma Welt)
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão
Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...
Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.
E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, inédito embora de tema bastante recorrente na obra da poetisa. Republico aqui, como exemplo, este outro (n° 163 dos Pampianos da Alma) de tema análogo:
A Abantesma (de Alma Welt)
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)
domingo, 11 de outubro de 2009
A Verdade (de Alma Welt)
A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)
Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
sábado, 10 de outubro de 2009
Nostalgia (de Alma Welt)
À noite na varanda ante a planície
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim
Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.
Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,
Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...
(sem data)
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim
Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.
Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,
Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...
(sem data)
O poeta (de Alma Welt)
O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O Vale (de Alma Welt)
Já se vão os irradiantes dias
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.
Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!
Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...
E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...
29/12/2006
El Valle (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Ya se van los radiantes bellos días
Y yo tengo de rendirme a evidencias
De un futuro quizá de penitencias
Por los tiempos de cigarra y alegrías.
Nuestra madre a nosotros prevenía:
De lágrimas, valle no hay que no se crie
Y que ella misma jamás se iludía
Pues el llanto es el premio de quien rie.
Se fueran ella y los yernos de este llano
Y Solange que miraba como abrojos
La risa siempre y el brillo de mis ojos
Y las velas de Matilde y su homilía
Que hacia reírse nuestro hermano,
Aunque, sin muebles, ya la casa desvaía…
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.
Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!
Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...
E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...
29/12/2006
El Valle (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Ya se van los radiantes bellos días
Y yo tengo de rendirme a evidencias
De un futuro quizá de penitencias
Por los tiempos de cigarra y alegrías.
Nuestra madre a nosotros prevenía:
De lágrimas, valle no hay que no se crie
Y que ella misma jamás se iludía
Pues el llanto es el premio de quien rie.
Se fueran ella y los yernos de este llano
Y Solange que miraba como abrojos
La risa siempre y el brillo de mis ojos
Y las velas de Matilde y su homilía
Que hacia reírse nuestro hermano,
Aunque, sin muebles, ya la casa desvaía…
"A Louca de Albano" do Pampa (de Alma Welt)

(detalhe de uma famosa pintura húngara de Jenö Gyárfás)
Noites do meu pampa, estrelas nuas
Que me vêem como sonâmbula vagar
Esperando me elevar à luz da lua
Pequena e branca gôndola no ar!
Me conhecem os peões e suas prendas,
Esta “louca de Albano” desvairada,*
Que sai de sua cama toda em rendas
Para andar no jardim, de madrugada,
Pois que não resisto aos seus apelos,
Noites e luas sedutoras da planura,
Que me puxam no leito os cabelos
E que, antigos, meus delírios alimentam
(sou eu a lenda viva que comentam)
Na sutil voragem branca de loucura...
27/02/2004
Nota
*...louca de Albano- Nossa mãe, Ana Morgado, catarinense neta de açorianos, nos contou esta estória antiga, portuguesa, em versos, apreendida com seus avós, e costumava chamar a Alma de Louca de Albano como censura quando ouvia contar que ela vagara nua, de noite, pelo jardim ou pela pradaria, ou outra aventura bizarra de minha irmã. Por curiosidade transcrevo-a aqui:
A Louca de Albano
Anda cá, meu filho, escuta:
És amigo de sua mãe?
Oh, minha mãe, que pergunta?
Basta, meu Paulo, pois bem.
Vai ver a velha Vicenza
o amor que o filho lhe tem.
Faz hoje 20 anos
que teu pai morreu
a golpe deste ferro,
para meu mal e eu,
a vir vingá-lo,
fiz uma jura fatal...
Uma jura? Mãe santíssima!
Oh, minha mãe, o que jurou?
Eu jurei por este sangue,
que em ferrugem se tornou,
que tu Paulo matarias,
quem teu pai matou.
E matas, meu filho?
Mato.
Matas, seja quem for?
Ainda que esta vingança
lhe roube do seio o amor?
Mato.
Tome este ferro, é Ricardo o matador.
Ricardo, o pai de Maria?
Oh, minha mãe, perdoai...
Pela amante o pai esquece,
filho ingrato, parte e vai,
cumpre a jura ou sê maldito
se não vingares a teu pai.
Nesta noite, tinto em sangue,
com os cabelos no ar,
o assassino de Ricardo,
foi aos pés da mãe prostar
o punhal com que jurara,
do pai a morte vingar.
Riu-se a velha de contente
e abraçou o vingador,
mas que de súbito aparece
na porta uma estátua de dor:
Paulo, meu Paulo, perdi meu pai, não vês?
As lágrimas que aqui derramo
assistiram ao triste fim.
Quis falar-me e já não pode,
com os olhos fixos em mim,
expirou... "Vingança eterna".
Tu vingas, meu Paulo, sim?
Vingo, Maria, sossega,
eu sei quem teu pai matou,
vai morrer com o mesmo ferro
que a pouco o transpassou.
Assim disse e a punhalada
no próprio peito cravou...
Foge a moça espavorida,
deixa Albano sem parar,
chega a Roma no outro dia,
por toda parte a gritar:
"Quem me mata por piedade,
quem me acaba de matar?"
E assim vagou três dias,
e no quarto enlouqueceu,
quando passa o viajante,
quando passa o Coliseu,
vê a triste às gargalhadas,
vingança pedindo a Deus...
Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha...
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Meu lobo-guará (de Alma Welt

Alma e o Lobo- óleo s/ tela, 15ox150cm de Guilherme de Faria- coleção Flávio Pacheco, São Paulo, Brasil
Alma e o Lobo (de Alma Welt)
Um lobo é meu amigo, isto é sério!
Isso afirmei quando ainda era guria
E não fui acreditada em meu mistério,
Lobo-guará como esse não havia...
“Esse animal é tímido, covarde”,
Diziam Galdério e mesmo o Rodo.
“O sonho que em ti por certo arde
Te faz crer amigo o mundo todo”.
Mas eles não sabem e não podem
Saber que para atraí-lo eu me desnudo
Que assim o meu guará aceita a ordem
Natural de nossa pele e do meu cheiro
Pois eu creio que assim medo transmudo
Em instinto de amor ao mundo inteiro...
(sem data)
Versejando (de Alma Welt)
Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:
“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.
“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.
Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”
(sem data)
O Pampa, eu, e o Maestro (de Alma Welt)
Quando estou a vagar na pradaria
Por entre brisas, vôos e zumbidos,
Aguçados os meus olhos e os ouvidos,
Posso sentir a deferência e honraria
De ser do Pampa aceita pelo povo,
Eu, nascida à beira de uma estrada,
Arrancada do ventre, ensangüentada,
Pelo cirurgião de Hamburgo Novo.
Também seria o pampa assimilado
Por ele, o Maestro, de bombachas,
Com notável respeito e até agrado.
E sinto ainda, ele no solo e eu vagando
Nas sendas que são gaudérias faixas,
O punhal o meu cordão ainda cortando...
A candeia (de Alma Welt)
Sob a luz aconchegante da candeia
Que tremula viva qual carícia,
Sou como a aranha em minha teia
Embora espere idéias sem malícia,
E nunca como presas, sem piedade,
Mas aquelas que vierem por encanto
Que é como nascem de verdade
Os poemas, o riso e mesmo o pranto.
E começo por pensar a natureza
Dessa luz tão doce e aliciante
Que aqui no casarão é ainda acesa.
E se, poeta, queimo velas e pestanas
É que percebo que a chama leva adiante
A vigília do Tempo em filigranas...
19/08/2005
A estirpe dos Sonhos (de Alma Welt)
Os seres que povoam nossos sonhos
Pertencem a estirpes muito antigas.
Não sabemos o que os põe tristonhos
E o que os alegra em risos e cantigas.
Em mim os vejo sempre em algo misto
De uma Arcádia bucólica e um Walhalla
Onde ali no bosque ou cá na sala
Erguem brindes de honra ao mais bem-quisto.
Mas sei que o festejado é Dioniso
E não um guerreiro, e meu espanto
É que Orfeu ao lado jaz e eu o diviso
Na forma de um cisne apaixonado
Que no último momento lança um canto
E trai em arte seu amor desesperado.
O poeta e o Logos (de Alma Welt)
Estaremos todos juntos no final?
A humanidade é só uma alma mesma?
Estilhaçada como vidro no quintal,
Espera que um “rewind” a torne ilesa?
Tudo é um mistério sobre a terra,
Se somos sozinhos tudo é inútil,
E o medo persiste e nos aterra,
Fazendo do viver algo bem fútil.
Mas se somos parte do Indizível
O poeta é que teima em decliná-lo
Com frações daquele logos irascível,
Os versos a juntar cada pedaço
Da triste humanidade para amá-Lo
E sentir-se um pouco em Seu regaço...
Os ciganos (de Alma Welt)
Os ciganos chegaram novamente
E sou eu a defendê-los e hospedá-los.
Desde o tempo do Maestro entre a gente
Vou à orla do bosque encontrá-los.
O Vati, que era sábio e tolerante,
Ensinou-me a respeitar e até amar
Aqueles que desfrutam cada instante
E assim parecem nunca trabalhar.
E qual Dalí, grão-mestre surreal,
Direi que, embora um ente laborioso,
Defenderei até a morte o ocioso.
Então percebo que, poeta, sofro igual,
Pois sou vista como ovelha desgarrada
Que se afastou a esmo e... por nada.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Antípodas (de Alma Welt)
Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
Antípodas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para ser Alma, yo misma, que me cabe,
Debo cantar solamente, y rimar
Acordarme en ser y éxtasis de amar
Para vivir como jamás nada se acabe.
Todavía aquél espectro soturno
Insiste en seguirme y acompañar
Aunque sea día y no su turno,
Que la noche es de facto su lugar.
Pero yo sé que los polos se entrelazan
Y para uno ser el otro opongo
Pues que hacen dolor y amenazan.
Pero el misterio en esto acá consiste:
Si en el mundo mi propio sueño pongo,
Sé que es bello, sin embargo ni existe.
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
Antípodas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para ser Alma, yo misma, que me cabe,
Debo cantar solamente, y rimar
Acordarme en ser y éxtasis de amar
Para vivir como jamás nada se acabe.
Todavía aquél espectro soturno
Insiste en seguirme y acompañar
Aunque sea día y no su turno,
Que la noche es de facto su lugar.
Pero yo sé que los polos se entrelazan
Y para uno ser el otro opongo
Pues que hacen dolor y amenazan.
Pero el misterio en esto acá consiste:
Si en el mundo mi propio sueño pongo,
Sé que es bello, sin embargo ni existe.
Espelhos (de Alma Welt)
Como branca nau entre as ervinhas,
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”
Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.
Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.
E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...
(sem data)
Espejos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Como blanca nave entre las hierbas,
Singlando leve, sin verga y sin lastro,
Yo pienso en ti, oh bella Inês de Castro.
Y el nombre que en el pecho escrito llevas.
Ah! quisiera ser mi misma, toda en mí,
Y ninguna imagen santa respaldar,
Para ver mi propia aura irradiar,
Ser yo misma y sola, esta Alma, así.
Sin embargo la flor cojo a mi alcance,
Y la imagen de Florbela, tan amada,
Me lanza en otro tiempo, en otro lance.
Y yo vagueo entre flores y tubérculos
Haciendo del Tiempo mi morada
En este juego de almas y de espéculos.
_____________________________
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”
Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.
Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.
E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...
(sem data)
Espejos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Como blanca nave entre las hierbas,
Singlando leve, sin verga y sin lastro,
Yo pienso en ti, oh bella Inês de Castro.
Y el nombre que en el pecho escrito llevas.
Ah! quisiera ser mi misma, toda en mí,
Y ninguna imagen santa respaldar,
Para ver mi propia aura irradiar,
Ser yo misma y sola, esta Alma, así.
Sin embargo la flor cojo a mi alcance,
Y la imagen de Florbela, tan amada,
Me lanza en otro tiempo, en otro lance.
Y yo vagueo entre flores y tubérculos
Haciendo del Tiempo mi morada
En este juego de almas y de espéculos.
_____________________________
domingo, 4 de outubro de 2009
Anti-receita do poeta (de Alma Welt)
O poeta não vive o “dia a dia”,
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.
Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.
Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.
E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...
(sem data)
Contra-receta del poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
El poeta no vive el “día a día”
La rutina, el hastío, se tu quieres.
Bajo el signo de la atroz melancolía
Todavía no deshoja “mal-me-quieres”
No ora o pontifica y hace reparos,
Alejándose de reglas y de códigos
El poeta hace cuña entre los raros
Y se alza mejor en medio a pródigos.
Evita sermones de costumbres
O causas y misiones a abrazar…
No pretende a nadie llevar lumes
Y si el poema nace, que sorpresa !
(jamás sale lo que está a esperar)
Nueva mirada a la faz de la belesa…
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.
Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.
Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.
E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...
(sem data)
Contra-receta del poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
El poeta no vive el “día a día”
La rutina, el hastío, se tu quieres.
Bajo el signo de la atroz melancolía
Todavía no deshoja “mal-me-quieres”
No ora o pontifica y hace reparos,
Alejándose de reglas y de códigos
El poeta hace cuña entre los raros
Y se alza mejor en medio a pródigos.
Evita sermones de costumbres
O causas y misiones a abrazar…
No pretende a nadie llevar lumes
Y si el poema nace, que sorpresa !
(jamás sale lo que está a esperar)
Nueva mirada a la faz de la belesa…
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Amor e Arte (de Alma Welt)

Alma- desenho a pincel de Guilherme de Faria
Amor e Arte (de Alma Welt)
Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.
Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho
É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.
Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.
(sem data)
Amor y Arte (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Del divino los nombres muchos son,
Todavía el Amor es el primero
Con el arte, un violín de bello ton,
El poético real y verdadero.
Pasar por la vida como un canto
Un poema, un dibujo, un trazo ileso
Que tengan del amor el mismo encanto
Y se quiera rastrear como un sabueso
Es marca antigua del artista, distintiva
Por la cual él paga un alto precio,
Es don que trae de Dios la nota viva.
Entonces canta el alma y sus trazos,
La palabra recupera su aprecio,
Y de pronto vida y muerte dan abrazos.
Abramos as janelas (de Alma Welt)
Abramos as janelas, meu irmão!
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.
Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.
Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.
A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e imediatamente o verti para o idioma castelhano:
Abramos las ventanas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Abramos las ventanas, mi hermano!
La vida no requiere esa penumbra.
Los muertos agitaran ya su mano
Y ahora están bien bajo la tundra.
Nuestro padre era alegre, bonachón,
Y no un melancólico cualquiera.
Nuestra madre, lo sabes, una fiera,
Pero ahora él ya no acepta su tacón.
Nuestra índole es clara, luminosa
No hemos sido hechos para el llanto
Ni culpas ni tampoco simple glosa.
La verdad estaba allí en nuestro prado:
La tierra los cubría con su manto
Y yo sentía tus caricias, disfrazado…
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.
Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.
Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.
A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e imediatamente o verti para o idioma castelhano:
Abramos las ventanas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Abramos las ventanas, mi hermano!
La vida no requiere esa penumbra.
Los muertos agitaran ya su mano
Y ahora están bien bajo la tundra.
Nuestro padre era alegre, bonachón,
Y no un melancólico cualquiera.
Nuestra madre, lo sabes, una fiera,
Pero ahora él ya no acepta su tacón.
Nuestra índole es clara, luminosa
No hemos sido hechos para el llanto
Ni culpas ni tampoco simple glosa.
La verdad estaba allí en nuestro prado:
La tierra los cubría con su manto
Y yo sentía tus caricias, disfrazado…
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A Arca insensata (de Alma Welt)
Construir minha Arca de poesia
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.
Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.
Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?
Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...
(sem data)
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.
Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.
Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?
Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...
(sem data)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O Turbilhão (de Alma Welt)
Tem dias que me vê a pradaria
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,
Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...
Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?
Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...
02/10/2005
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,
Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...
Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?
Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...
02/10/2005
Balanço final (de Alma Welt)
Quão colhemos nós dourados pomos
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude
Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.
Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,
Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...
(sem data)
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude
Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.
Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,
Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...
(sem data)
Noites retornadas (de Alma Welt)
Noites retornadas na memória!
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão
Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida
E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas
Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...
(sem data)
Nota
Descobri esta madrugada este soneto inédito na Arca da Alma, importante no sentido de evocação das lutas internas que ocorreram no seio da família Welt pela herança da estância, o casarão e o vinhedo, depois da morte do Vati, como chamávamos o nosso pai. Quem quiser conhecer esta nova saga, a dos Welt, neste Pampa a que viemos, e a luta pela herança do nosso avô, recomendo que leia o romance A Herança , que publiquei inteiro num dos 36 blogs da Alma (ver link O romance a Herança de Alma Welt)(Lucia Welt)
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão
Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida
E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas
Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...
(sem data)
Nota
Descobri esta madrugada este soneto inédito na Arca da Alma, importante no sentido de evocação das lutas internas que ocorreram no seio da família Welt pela herança da estância, o casarão e o vinhedo, depois da morte do Vati, como chamávamos o nosso pai. Quem quiser conhecer esta nova saga, a dos Welt, neste Pampa a que viemos, e a luta pela herança do nosso avô, recomendo que leia o romance A Herança , que publiquei inteiro num dos 36 blogs da Alma (ver link O romance a Herança de Alma Welt)(Lucia Welt)
domingo, 27 de setembro de 2009
O amor guardado (de Alma Welt)
O primeiro amor, eternizado
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).
Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).
Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
Meu mastim (de Alma Welt)
Longe ladra o mastim fiel da casa
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.
Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,
Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,
E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.
(sem data)
Nota
Descobri agora de manhã este curioso e encantador soneto na Arca da Alma. Minha irmã amava os animais: seus cães, seus cavalos e toda a fauna destes prados e do mundo. E naturalmente os animais lhe correspondiam, de maneira nítida e comovente de se ver. (Lucia Welt)
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.
Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,
Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,
E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.
(sem data)
Nota
Descobri agora de manhã este curioso e encantador soneto na Arca da Alma. Minha irmã amava os animais: seus cães, seus cavalos e toda a fauna destes prados e do mundo. E naturalmente os animais lhe correspondiam, de maneira nítida e comovente de se ver. (Lucia Welt)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Revelações (de Alma Welt)
O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O cavaleiro (de Alma Welt)
Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Nieblas ( de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
La niebla que planea en la estancia
La revela por su falso letargo,
Dos siglos de espera y de constancia
La hicieran firme, siempre, al largo.
¿Quien llega al caserón y sus soleras,
Qué espuelas ya retiñen en la baranda,
Qué dulces ojos de casadas y solteras,
Bajan como uno a veces manda?
La niebla revive áureos tiempos,
Las risas y esperanzas se renuevan,
Todavía no habían contratiempos.
Garibaldi en la sala entra con Anita,
Quizá a la familia ambos conmuevan,
La pareja no será acá maldita.
Névoas (original de Alma Welt)
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
La niebla que planea en la estancia
La revela por su falso letargo,
Dos siglos de espera y de constancia
La hicieran firme, siempre, al largo.
¿Quien llega al caserón y sus soleras,
Qué espuelas ya retiñen en la baranda,
Qué dulces ojos de casadas y solteras,
Bajan como uno a veces manda?
La niebla revive áureos tiempos,
Las risas y esperanzas se renuevan,
Todavía no habían contratiempos.
Garibaldi en la sala entra con Anita,
Quizá a la familia ambos conmuevan,
La pareja no será acá maldita.
Névoas (original de Alma Welt)
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
Seis Sonetos gaúchos de Alma Welt
Acabo de descobrir estes seis sonetos da Alma, inéditos, manuscritos num pequeno bloco. Vou em seguida publicá-los no blog dos "Gauchescos da Alma" (vide link).
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
terça-feira, 22 de setembro de 2009
O Jogral (de Alma Welt)

O Jogral (de Alma Welt)
Para prosseguir minha jornada
Abro mão de certos artifícios,
Como os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,
Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira,
Eis a maior vaidade! -vós direis-
Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis.
Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.
(sem data)
Nota
No tesouro da inesgotável Arca da Alma, descobri esta manhã este soneto inédito, que estou persuadida de tratar-se de uma obra-prima, e logo o verti para o castelhano:
El Juglar (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Para proseguir en mi jornada
Abro mano de unos artificios,
Los de la vanidad declarada,
Los cuales demandan sacrificios.
Pero sigo plantando en el ahora,
Frutos del porvenir, el manzano
Dorado, sin embargo, de una aurora
Vislumbrada por mi, bajo mi mano,
Esto es la vanidad! –ustedes dirán-
Todo es vano, la muerte va matando
Hasta el poder del rey y del sultán.
Pero yo, aunque niña, he constatado
Que el juglar del rey sigue cantando
Y su poder jamás ha terminado.
Ilustração:O Jogral- aquarela de Guilherme de Faria
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Nove Sonetos recém-descobertos da Alma
Prece (de Alma Welt)
Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...
Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais
De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos
E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!
A jornada de outono (de Alma Welt)
Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,
De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.
Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...
Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...
14/01/2007
Da Saudade (Alma Welt)
“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,
A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.
Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...
Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.
Iniciação (de Alma Welt)
À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque
Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:
A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.
Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.
(sem data)
Perdidos Amores (de Alma Welt)
Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,
Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...
Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!
E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!
O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser
E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.
Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal
Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...
(sem data)
Revelação (de Alma Welt)
Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação
Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.
Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.
Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...
Sonetos (de Alma Welt)
Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.
Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.
"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"
Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.
O ananque das coisas (de Alma Welt)
A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.
Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.
Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.
O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...
Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...
Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais
De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos
E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!
A jornada de outono (de Alma Welt)
Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,
De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.
Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...
Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...
14/01/2007
Da Saudade (Alma Welt)
“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,
A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.
Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...
Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.
Iniciação (de Alma Welt)
À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque
Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:
A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.
Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.
(sem data)
Perdidos Amores (de Alma Welt)
Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,
Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...
Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!
E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!
O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser
E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.
Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal
Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...
(sem data)
Revelação (de Alma Welt)
Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação
Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.
Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.
Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...
Sonetos (de Alma Welt)
Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.
Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.
"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"
Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.
O ananque das coisas (de Alma Welt)
A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.
Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.
Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.
O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cabra-Cega (de Alma Welt)
A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.
(sem data)
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.
(sem data)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O Nascimento de Vênus (de Alma Welt)

O Nascimento de Vênus - óleo s/tela do mestre Guilherme de Faria, de 150x150cm inspirado pela visão da Alma no poço da cascata.
Convidei o grande artista, velho mestre,
Pra acompanhar-me ao poço da cascata
Onde após deambulação breve e eqüestre
Já planejo banhar nua, por bravata...
E chegando nesse sítio dos meus deuses,
Na praínha de cascalho me desnudo
Ao deixar cair meus panos como adeuses
E emergindo branca e pura disso tudo,
Entro assim nas águas tépidas, a vau,
Até a linha do meu púbis depilado,
Como nostálgica, leve e alva nau.
Então, nesse momento comovido
Julguei ter o pintor isto exclamado:
“O Nascimento de Vênus revivido!”
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto cujo episódio narrado presumi ter sido o que inspirou o quadro do mestre pintor paulistano Guilherme de Faria, que foi amigo, descobridor, ilustrador e lançador da Alma, e a quem ela convidou para uma temporada aqui na estância no final do ano de 2001.(Lucia Welt)
O Diapasão (de Alma Welt)
Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
Nota
Mais um soneto inédito encontrado na fabulosa Arca da Alma, e que deve por certo pertencer aos "Pampianos da Alma". Acredito que os sonetos inéditos da Alma que se acham na Arca ainda por conferir e compilar, farão seu número passar de 1.500. Convenhamos: é prodigioso! Principalmente pela alta qualidade de cada um, formando um corpo de obra tão homogêneo e ao mesmo tempo tão diversicado de assuntos ou temáticas. Trata-se realmente de uma obra universal, apesar da sua raíz gaúcha e rural. (Lucia Welt)
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
Nota
Mais um soneto inédito encontrado na fabulosa Arca da Alma, e que deve por certo pertencer aos "Pampianos da Alma". Acredito que os sonetos inéditos da Alma que se acham na Arca ainda por conferir e compilar, farão seu número passar de 1.500. Convenhamos: é prodigioso! Principalmente pela alta qualidade de cada um, formando um corpo de obra tão homogêneo e ao mesmo tempo tão diversicado de assuntos ou temáticas. Trata-se realmente de uma obra universal, apesar da sua raíz gaúcha e rural. (Lucia Welt)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Vida e Arte (de Alma Welt)
Creio que uma vida é bem vivida
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.
Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...
Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.
Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!
12/01/2007
Nota
Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.
Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...
Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.
Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!
12/01/2007
Nota
Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)
Amante Póstumo- Soneto de E.M. à Alma
O excelente poeta E.M. acaba de me enviar por e.mail esta belíssima homenagem à Musa minha irmã. Creio que Alma estará feliz e gratificada com isso, onde ela estiver.
AMANTE PÓSTUMO
Deitado em minha cama com um tomo
De versos de Alma Welt sobre o colo
Reajo às sensações e me descolo
Da realidade e fauno ser assomo.
O pensamento, fera que não domo,
Excita-se e recorro ao consolo
Do delírio, possuindo sobre o solo
O corpo revivido, nem sei como.
E no êxtase puríssimo do sonho
Dentro de seus "poemas" eu me ponho,
Sem parar o delírio um só instante.
Não profano a memória de uma morta
Amando-a, se seu verso a razão corta,
E o leitor transforma em seu amante.
Às vezes, os poetas sequer imaginam o poder intemporal de suas obras e a influência que estas exercem nos leitores contemporâneos e futuros. Alma Welt ainda cumpre a missão de arrebatar pelas palavras. Se acreditarmos, como Guimarães Rosa, que as pessoas não morrem, se encantam, a guria dos pampas continua mais do que nunca viva, encantada, certamente, mas encantando seus tantos admiradores.
E.M.
Blumenau -SC
AMANTE PÓSTUMO
Deitado em minha cama com um tomo
De versos de Alma Welt sobre o colo
Reajo às sensações e me descolo
Da realidade e fauno ser assomo.
O pensamento, fera que não domo,
Excita-se e recorro ao consolo
Do delírio, possuindo sobre o solo
O corpo revivido, nem sei como.
E no êxtase puríssimo do sonho
Dentro de seus "poemas" eu me ponho,
Sem parar o delírio um só instante.
Não profano a memória de uma morta
Amando-a, se seu verso a razão corta,
E o leitor transforma em seu amante.
Às vezes, os poetas sequer imaginam o poder intemporal de suas obras e a influência que estas exercem nos leitores contemporâneos e futuros. Alma Welt ainda cumpre a missão de arrebatar pelas palavras. Se acreditarmos, como Guimarães Rosa, que as pessoas não morrem, se encantam, a guria dos pampas continua mais do que nunca viva, encantada, certamente, mas encantando seus tantos admiradores.
E.M.
Blumenau -SC
domingo, 13 de setembro de 2009
Como Florbela (de Alma Welt)
Não me perderás, ó meu irmão
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.
Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.
Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar
Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar nesta manhã de domingo este soneto na Arca da Alma, soneto este que contrasta no tom com o anteriormente postado (A Vindima). Por curiosidade devo revelar que o manuscrito estava rasurado no terceiro verso da primeira quadra. A primeira versão do verso, riscada, dava para ler e era assim: "Como dizia a Florbela em dramalhão".. Com sua sabedoria técnica, Alma percebeu que não deveria ironisar Florbela Espanca nem por graça, mesmo porque ela era grande admiradora da genial sonetista portuguesa. (Lucia Welt)
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.
Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.
Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar
Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar nesta manhã de domingo este soneto na Arca da Alma, soneto este que contrasta no tom com o anteriormente postado (A Vindima). Por curiosidade devo revelar que o manuscrito estava rasurado no terceiro verso da primeira quadra. A primeira versão do verso, riscada, dava para ler e era assim: "Como dizia a Florbela em dramalhão".. Com sua sabedoria técnica, Alma percebeu que não deveria ironisar Florbela Espanca nem por graça, mesmo porque ela era grande admiradora da genial sonetista portuguesa. (Lucia Welt)
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
A Vindima (de Alma Welt)
Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
03/08/2002
Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
03/08/2002
Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)
terça-feira, 8 de setembro de 2009
A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)
De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...
Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória
Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos
Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...
17/08/2006
De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...
Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória
Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos
Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...
17/08/2006
domingo, 6 de setembro de 2009
Amor guerreiro (de Alma Welt)
O amor triunfante que concebo
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,
Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.
Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência
Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,
Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.
Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência
Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)
sábado, 5 de setembro de 2009
Dupla Saga, ou Sonhos do casarão (de Alma Welt)
Quando à noite o casarão dormita
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,
Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.
Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço
E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...
(sem data)
Nota
Acabo encontrar na Arca mais esta homenagem à nossa querida Matilde. Só não concordo com a Alma chamar nossa família de esquisita (risos). Vou em seguida postar em definitivo este soneto um tanto sinistro no blog Sonetos de Mistérios da Alma.(Lucia Welt)
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,
Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.
Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço
E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...
(sem data)
Nota
Acabo encontrar na Arca mais esta homenagem à nossa querida Matilde. Só não concordo com a Alma chamar nossa família de esquisita (risos). Vou em seguida postar em definitivo este soneto um tanto sinistro no blog Sonetos de Mistérios da Alma.(Lucia Welt)
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Sobreviveremos (de Alma Welt)
Sobreviveremos, Rodo, meu amor
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,
Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos
Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados
Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...
15/01/2007
Nota
Mais um tocante soneto de amor, que acabo de descobrir, inédito, na Arca da Alma.
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,
Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos
Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados
Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...
15/01/2007
Nota
Mais um tocante soneto de amor, que acabo de descobrir, inédito, na Arca da Alma.
domingo, 30 de agosto de 2009
De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)
Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.
Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.
Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!
Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.
Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.
Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!
Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)
sábado, 29 de agosto de 2009
Ulisses (de Alma Welt)
Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)
Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Cai o Pano (de Alma Welt)
Suspeito que após a minha morte
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem
Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.
Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas
A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...
16/01/2007
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem
Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.
Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas
A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...
16/01/2007
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Vida em verso (de Alma Welt)
Constato que possuo dupla vida
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa, e que postarei em seguida nos Metafísicos da Alma. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa, e que postarei em seguida nos Metafísicos da Alma. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
domingo, 23 de agosto de 2009
As perguntas... (de Alma Welt)
Longas vigílias, sofridas, da razão,
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que percebi ser inédito, e me apressei em postá-lo no blog dos Metafísicos da Alma. O espectro próximo da Morte encontrava ressonâncias no espírito filosófico agnóstico da Poetisa. Entretanto, ela, como poeta, era consciente de não ter respostas, somente perguntas... (Lucia Welt)
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que percebi ser inédito, e me apressei em postá-lo no blog dos Metafísicos da Alma. O espectro próximo da Morte encontrava ressonâncias no espírito filosófico agnóstico da Poetisa. Entretanto, ela, como poeta, era consciente de não ter respostas, somente perguntas... (Lucia Welt)
Soneto de boêmia (de Alma Welt)
Encontrei o meu amor pelas estradas
E o fiz entrar no meu jardim.
Plantei-o entre as flores mais amadas
E esperei ele florir como o jasmim
Que de noite faz sentir o seu perfume
E me faz descer da minha mansarda
Atravessando o casarão quase sem lume
Pra não despertar a quem me guarda.
E assim, à luz da lua alcoviteira,
Que delícias me são oferecidas!
Outras tantas perscruto sorrateira...
Então, ó sol, eu peço: não me peças
Abandonar as minhas noites proibidas
Onde o meu jasmim reina às avessas...
05/11/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca da Alma este encantador soneto de sabor quase popular, com um declarado tom de malícia ingênua, e como sempre, com velada conotação alegórica relativa ao amor proibido da Alma pelo nosso irmão Rodo, com quem ela se encontrava de noite, no jardim, no verão, descendo da mansarda que era o quarto dele, na época mais proibida e vigiada desse amor, quando nossa mãe (a guarda) era viva.(Lucia Welt)
E o fiz entrar no meu jardim.
Plantei-o entre as flores mais amadas
E esperei ele florir como o jasmim
Que de noite faz sentir o seu perfume
E me faz descer da minha mansarda
Atravessando o casarão quase sem lume
Pra não despertar a quem me guarda.
E assim, à luz da lua alcoviteira,
Que delícias me são oferecidas!
Outras tantas perscruto sorrateira...
Então, ó sol, eu peço: não me peças
Abandonar as minhas noites proibidas
Onde o meu jasmim reina às avessas...
05/11/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca da Alma este encantador soneto de sabor quase popular, com um declarado tom de malícia ingênua, e como sempre, com velada conotação alegórica relativa ao amor proibido da Alma pelo nosso irmão Rodo, com quem ela se encontrava de noite, no jardim, no verão, descendo da mansarda que era o quarto dele, na época mais proibida e vigiada desse amor, quando nossa mãe (a guarda) era viva.(Lucia Welt)
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Post Mortem (de Alma Welt)
Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
Nota
Encontrei recentemente na Arca da Alma este soneto esotérico em que a Poetisa parece falar no seu "Post Mortem", isto é, falando do além. Comoveu-me ela lembrar desta maneira os nossos queridos Galdério e Matilde, que são uruguaios de nascimento e trabalham conosco aqui na estância desde 1970. Mostrei o soneto para eles, e Matilde, que foi babá da Alma, caiu em prantos, enquanto Galdério disfarçava as lágrimas.(Lucia Welt)
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
Nota
Encontrei recentemente na Arca da Alma este soneto esotérico em que a Poetisa parece falar no seu "Post Mortem", isto é, falando do além. Comoveu-me ela lembrar desta maneira os nossos queridos Galdério e Matilde, que são uruguaios de nascimento e trabalham conosco aqui na estância desde 1970. Mostrei o soneto para eles, e Matilde, que foi babá da Alma, caiu em prantos, enquanto Galdério disfarçava as lágrimas.(Lucia Welt)
A lição do guarani (de Alma Welt)
Permanecer fiel à vida e aceitar
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O mestre (de Alma Welt)
As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos
Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão
Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza:
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.
No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota...
Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos
Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão
Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza:
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.
No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota...
Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)
terça-feira, 28 de julho de 2009
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
Republico aqui, por encontrá-lo e com satisfação poder reafirmá-lo, o poema que escrevi no dia 01/08/2007, em homenagem ao poeta mineiro Claudio Bento, grande Vate do Vale do Jequitinhonha, que por um período me fez a honra de declarar-me sua "musa" e me dedicar uma série de poemas do seu magnífico Vale. Aqui está o meu primeiro poema a ele:
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
(Para Claudio Bento, poeta do Jequitinhonha)
Desde este longínquo sul te envio o pensamento
que atravessa o meu pampa rumo norte
para cortando planícies, montes e chapadas,
atrás das montanhas de tua Minas, encontrar-te no teu vale encantado.
Tu, poeta do rio sinuoso, dos canoeiros, pescadores
e suas praias ribeirinhas de brancas areias,
tu, poeta das canções dos quilombolas
que ecoam de teu sangue ancestral, quente
desde África e seus leões, seus orixás,
tu, poeta bento, que tomaste o cálice
do sangue de tua terra mineira e que te soube tão doce
que o cantaste com leveza e gratidão; que te encantas
com teu vale e o levas encantado, do virtual teclado
ao quatro ventos da Pátria, com que ternura e força
evocas tua infância no rincão que tornas universal na nossa mente!
Vai, Bento poeta, com teu estandarte da terra
em "negro mastro" colorindo a noite e seu lácteo rio
e trazendo-nos sonhos das Minas, seu ouro,
seu cortejo de lendas e mistérios, suas inconfidências
sussurradas entre atentas paredes traidoras...
Diante de nós desfilam os encantos das Gerais
que um dia celebrarão o seu poeta do vale entre os maiores.
Vai, poeta bento, do festivo vale para o belo horizonte
e desde lá para estas pastagens onde corre o frio e sibilante minuano
e onde nossa Alma galopa soluçando ou cantando
consoante as estações e seus pendores.
Escreve, também o pampa receberá teus versos, tu que descobrindo a Alma
te tornaste seu parceiro de um pastoreio de estrelas,
Lança teus versos, poeta, que unindo o verde vale
do teu coração ao pampa do meu, me fizeste grande honra
e tua Musa surpresa e agradecida...
Lucia Welt
01/08/2007
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
(Para Claudio Bento, poeta do Jequitinhonha)
Desde este longínquo sul te envio o pensamento
que atravessa o meu pampa rumo norte
para cortando planícies, montes e chapadas,
atrás das montanhas de tua Minas, encontrar-te no teu vale encantado.
Tu, poeta do rio sinuoso, dos canoeiros, pescadores
e suas praias ribeirinhas de brancas areias,
tu, poeta das canções dos quilombolas
que ecoam de teu sangue ancestral, quente
desde África e seus leões, seus orixás,
tu, poeta bento, que tomaste o cálice
do sangue de tua terra mineira e que te soube tão doce
que o cantaste com leveza e gratidão; que te encantas
com teu vale e o levas encantado, do virtual teclado
ao quatro ventos da Pátria, com que ternura e força
evocas tua infância no rincão que tornas universal na nossa mente!
Vai, Bento poeta, com teu estandarte da terra
em "negro mastro" colorindo a noite e seu lácteo rio
e trazendo-nos sonhos das Minas, seu ouro,
seu cortejo de lendas e mistérios, suas inconfidências
sussurradas entre atentas paredes traidoras...
Diante de nós desfilam os encantos das Gerais
que um dia celebrarão o seu poeta do vale entre os maiores.
Vai, poeta bento, do festivo vale para o belo horizonte
e desde lá para estas pastagens onde corre o frio e sibilante minuano
e onde nossa Alma galopa soluçando ou cantando
consoante as estações e seus pendores.
Escreve, também o pampa receberá teus versos, tu que descobrindo a Alma
te tornaste seu parceiro de um pastoreio de estrelas,
Lança teus versos, poeta, que unindo o verde vale
do teu coração ao pampa do meu, me fizeste grande honra
e tua Musa surpresa e agradecida...
Lucia Welt
01/08/2007
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Aos forasteiros (de Alma Welt)
Na Santa Gertrudes, velha estância,
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
Chorem fontes (de Alma Welt)
Chorem fontes, liberem seus soluços,
Deste dia não verei o entardecer!
Quem como eu e sem rebuços
Soube cantar a vida e então morrer?
Venha, ó vento, estale o casarão!
Galdério, sele a égua, ou melhor, não!
Montarei em pelo eu também nua
Que tanto assim vaguei à luz da lua.
Quero correr o prado assim, aos gritos,
Para a alegre passarada me saudar
(ainda que ouça da Matilde novos pitos)
Em seguida irei ao poço da cascata
Para nuinha meu mergulho praticar
Como outrora, com meu Rodo, por bravata...
17/01/2007
Nota
!!!!!!!!!
Deste dia não verei o entardecer!
Quem como eu e sem rebuços
Soube cantar a vida e então morrer?
Venha, ó vento, estale o casarão!
Galdério, sele a égua, ou melhor, não!
Montarei em pelo eu também nua
Que tanto assim vaguei à luz da lua.
Quero correr o prado assim, aos gritos,
Para a alegre passarada me saudar
(ainda que ouça da Matilde novos pitos)
Em seguida irei ao poço da cascata
Para nuinha meu mergulho praticar
Como outrora, com meu Rodo, por bravata...
17/01/2007
Nota
!!!!!!!!!
O Último Verão (de Alma Welt)
Este é o verão da despedida,
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,
E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...
Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão
A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...
10/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este dramático soneto inédito, dos últimos dias da Alma, na sua Arca do sótão. É difícil conter as lágrimas... (Lucia Welt)
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,
E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...
Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão
A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...
10/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este dramático soneto inédito, dos últimos dias da Alma, na sua Arca do sótão. É difícil conter as lágrimas... (Lucia Welt)
domingo, 19 de julho de 2009
Existencial (de Alma Welt)
Guria eu vivia em sintonia
Com o amor que eu via à minha volta
Desde os talos de capim da pradaria
Até os peões em minha escolta
Quando cavalgava além da cerca
Que devia isolar o grande touro
Que por sua vez era um agouro
De que a vida e assim amor se perca.
Mas confesso não mais logro conciliar
Consolos e ameaças do destino
E as vãs contradições harmonizar
Entre amor e medo, vida e morte
Que mantêm o limite muito fino
Onde se situa a nossa sorte...
(sem data)
Com o amor que eu via à minha volta
Desde os talos de capim da pradaria
Até os peões em minha escolta
Quando cavalgava além da cerca
Que devia isolar o grande touro
Que por sua vez era um agouro
De que a vida e assim amor se perca.
Mas confesso não mais logro conciliar
Consolos e ameaças do destino
E as vãs contradições harmonizar
Entre amor e medo, vida e morte
Que mantêm o limite muito fino
Onde se situa a nossa sorte...
(sem data)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Eternidade (de Alma Welt)
Haverá outra vida?
Não há como ter certeza...
Toda fé não é senão ingenuidade,
doce candura das almas.
Suspeito e temo que a morte seja o Nada
e por isso apavorante.
Todavia creio na perenidade da Poesia,
da palavra do poeta,
na imortalidade entre os homens.
Esta só me basta... enquanto idéia.
Que mais se pode querer?
É pouco restar entre os homens
como seu igual
e como intérprete
de suas alegrias e dores,
como seu bardo?
Não, por certo não é pouco...
E vós que almejais a vida eterna
deveríeis começar por plantar robustas árvores
que lancem poderosas raízes
e frutifiquem...
Como os bons poetas
e os artistas em geral
o fazem
cheios de fé...
15/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)
Não há como ter certeza...
Toda fé não é senão ingenuidade,
doce candura das almas.
Suspeito e temo que a morte seja o Nada
e por isso apavorante.
Todavia creio na perenidade da Poesia,
da palavra do poeta,
na imortalidade entre os homens.
Esta só me basta... enquanto idéia.
Que mais se pode querer?
É pouco restar entre os homens
como seu igual
e como intérprete
de suas alegrias e dores,
como seu bardo?
Não, por certo não é pouco...
E vós que almejais a vida eterna
deveríeis começar por plantar robustas árvores
que lancem poderosas raízes
e frutifiquem...
Como os bons poetas
e os artistas em geral
o fazem
cheios de fé...
15/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Michael se submetia a plásticas para enfeiar, não para embelezar. (por Lucia Welt)
Michael se submetia a plásticas para enfeiar, não para embelezar. (por Lucia Welt)
Uma coisa que me parece óbvia, embora absolutamente ninguém tenha abordado a questão por esse ângulo, é que o astro Michael Jackson buscava de maneira provavelmente inconsciente, mas ainda assim deliberada, a feiúra suprema, não a beleza. Esta, a beleza, ele já tinha passado por ela nos anos 80, até 90. E não digo sequer que ele não a reconhecesse e por isso tenha passado do ponto. Não! Ele deve ter reconhecido ter atingido a beleza e a brancura que almejou como um estágio, a fim de mostrá-la ao seu pai e carrasco de seu ego, como se dissesse : “ Vê, eu sou belo, afinal, como tu não reconhecias e tanto querias. Agora verás onde eu mesmo quero chegar!” E prosseguiu se mutilando e deformando em direção àquela caveira dançante em que se metamorfosearia em desafio ao burguês típico e barrigudo que o rejeitara, num clip famoso que todos conhecem, em que ele faz esse burguês literalmente engoli-lo como "monstro" em que ele se revela.
A procura da feiúra, em Michael Jackson, esta sim, é uma tragédia, que reflete a imensa revolta contra a rejeição paterna e as surras que levava desse indivíduo desclassificado que foi o seu pai. Michael, já em “Triller” se apresentava como um cadáver dançante em meio a mortos vivos ("zombies"), demonstrando a sua atração mórbida pelo macabro e pelo terror. Era a sua suprema bravata. Ele elegia a estética do grotesco como um desafio aos que lhe cobraram ser branco, macho ou belo, tudo o que disseram que ele não era por nascimento, mas que haveria de poder comprar, pela força de seu sucesso heróico e conseqüentemente de sua fortuna.
Não, Michael jamais quis ser belo... Quem lhe cobrava isso eram outros, era o seu superego torturante, era uma sociedade idólatra da beleza, do sucesso e da fama. Uma sociedade na verdade antiga nessa idolatria, que já produzira a mais famosa guerra da humanidade, travada em disputa da mulher mais bela do mundo daquela época: Helena de Tróia, cujo rosto “lançou ao mar mil navios”.
Pobre Helena... quanto deve ter sofrido!
Pobre Michael!...
Uma coisa que me parece óbvia, embora absolutamente ninguém tenha abordado a questão por esse ângulo, é que o astro Michael Jackson buscava de maneira provavelmente inconsciente, mas ainda assim deliberada, a feiúra suprema, não a beleza. Esta, a beleza, ele já tinha passado por ela nos anos 80, até 90. E não digo sequer que ele não a reconhecesse e por isso tenha passado do ponto. Não! Ele deve ter reconhecido ter atingido a beleza e a brancura que almejou como um estágio, a fim de mostrá-la ao seu pai e carrasco de seu ego, como se dissesse : “ Vê, eu sou belo, afinal, como tu não reconhecias e tanto querias. Agora verás onde eu mesmo quero chegar!” E prosseguiu se mutilando e deformando em direção àquela caveira dançante em que se metamorfosearia em desafio ao burguês típico e barrigudo que o rejeitara, num clip famoso que todos conhecem, em que ele faz esse burguês literalmente engoli-lo como "monstro" em que ele se revela.
A procura da feiúra, em Michael Jackson, esta sim, é uma tragédia, que reflete a imensa revolta contra a rejeição paterna e as surras que levava desse indivíduo desclassificado que foi o seu pai. Michael, já em “Triller” se apresentava como um cadáver dançante em meio a mortos vivos ("zombies"), demonstrando a sua atração mórbida pelo macabro e pelo terror. Era a sua suprema bravata. Ele elegia a estética do grotesco como um desafio aos que lhe cobraram ser branco, macho ou belo, tudo o que disseram que ele não era por nascimento, mas que haveria de poder comprar, pela força de seu sucesso heróico e conseqüentemente de sua fortuna.
Não, Michael jamais quis ser belo... Quem lhe cobrava isso eram outros, era o seu superego torturante, era uma sociedade idólatra da beleza, do sucesso e da fama. Uma sociedade na verdade antiga nessa idolatria, que já produzira a mais famosa guerra da humanidade, travada em disputa da mulher mais bela do mundo daquela época: Helena de Tróia, cujo rosto “lançou ao mar mil navios”.
Pobre Helena... quanto deve ter sofrido!
Pobre Michael!...
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Sobre o fenômeno da repercussão mundial da morte de Michael Jackson (por Lucia Welt)
Diante das proporções inimagináveis da repercussão da morte do cantor e dançarino “pop” Michael Jackson, arrisco a seguinte análise do fenômeno, começando com uma indagação:
Por quê o impacto emocional e a repercussão na mídia está sendo tão grande, tão desproporcional à própria qualidade do músico, compositor, cantor e dançarino, que ele era? Sim, pois que o Michael era um mero fruto específico de uma vertente da cultura popular norte americana, a meu ver altamente discutível e nem de longe uma arte de primeira classe. Um menino negro sofrido, sem dúvida, que por isso mesmo não queria crescer e que nunca aceitou ou assumiu a sua raça a ponto de querer ser branco e fazer um esforço imenso e patético, doloroso, para se tornar branco, de lábios e nariz finos e cabelo liso. Mas porque sendo um fruto de negação da realidade e portanto não de rebeldia legítima mas de doloroso conformismo, ele mobilizou e mobiliza tantos ainda, após a sua morte? Eu diria que por essa mesma recusa em crescer. Metade da humanidade se identifica com essa recusa, que décadas atrás ganhou o nome de “Síndrome de Peter Pan”. Diante dos horrores da nossa época, fruto da maldade, perversão e brutalidade do chamado “homem adulto e responsável”, devastador da natureza, criador de guerras, concentrador de riquezas e disseminador de miséria, uma imensa legião de homens e mulheres se identifica com esse sonho de permanecer criança, na suposta pureza e inocência desses pequenos seres que fomos, e em que Freud já havia, no entanto, detectado o embrião da violência e da crueldade negadas por nós em nossa mitificação dessa mesma infância.
Essa é, a meu ver, a verdadeira causa do fenômeno universal da repercussão da morte desse ídolo de pés de barro, que sintomática e simbolicamente queria andar para trás, a ponto de fazê-lo estilisticamente em sua dança.
A mídia internacional corrobora esse mito aumentando ou induzindo mesmo proporções universais, já que estamos na era da globalização e conseqüentemente também da banalização. Mas os meios de comunicação, como intermediários que são do inconsciente coletivo não logram auto-analisar-se e nem detectar a causa e a fonte dessa necessidade desesperada das pessoas de se identificarem, a ponto de sacralizarem um menino martirizado, um jovem doente e homem de 50 anos visivelmente deteriorado e trágico em sua recusa do amadurecimento e que cuja revolta se manifestava de maneira equivocada, com a afirmação de ser “bad” (mau), pertencer a gangs de meninos delinqüentes em recintos visivelmente subterrâneos, cantando e dançando com agressividade marginal, com ríctus de ódio no rosto e gestos sincopados, espasmódicos e agudos. Tudo o que afinal corrobora a era de ódios e preconceitos em que estamos mergulhados.
Triste mundo o que faz de um menino magoado o seu herói!...
(Lucia Welt)
Por quê o impacto emocional e a repercussão na mídia está sendo tão grande, tão desproporcional à própria qualidade do músico, compositor, cantor e dançarino, que ele era? Sim, pois que o Michael era um mero fruto específico de uma vertente da cultura popular norte americana, a meu ver altamente discutível e nem de longe uma arte de primeira classe. Um menino negro sofrido, sem dúvida, que por isso mesmo não queria crescer e que nunca aceitou ou assumiu a sua raça a ponto de querer ser branco e fazer um esforço imenso e patético, doloroso, para se tornar branco, de lábios e nariz finos e cabelo liso. Mas porque sendo um fruto de negação da realidade e portanto não de rebeldia legítima mas de doloroso conformismo, ele mobilizou e mobiliza tantos ainda, após a sua morte? Eu diria que por essa mesma recusa em crescer. Metade da humanidade se identifica com essa recusa, que décadas atrás ganhou o nome de “Síndrome de Peter Pan”. Diante dos horrores da nossa época, fruto da maldade, perversão e brutalidade do chamado “homem adulto e responsável”, devastador da natureza, criador de guerras, concentrador de riquezas e disseminador de miséria, uma imensa legião de homens e mulheres se identifica com esse sonho de permanecer criança, na suposta pureza e inocência desses pequenos seres que fomos, e em que Freud já havia, no entanto, detectado o embrião da violência e da crueldade negadas por nós em nossa mitificação dessa mesma infância.
Essa é, a meu ver, a verdadeira causa do fenômeno universal da repercussão da morte desse ídolo de pés de barro, que sintomática e simbolicamente queria andar para trás, a ponto de fazê-lo estilisticamente em sua dança.
A mídia internacional corrobora esse mito aumentando ou induzindo mesmo proporções universais, já que estamos na era da globalização e conseqüentemente também da banalização. Mas os meios de comunicação, como intermediários que são do inconsciente coletivo não logram auto-analisar-se e nem detectar a causa e a fonte dessa necessidade desesperada das pessoas de se identificarem, a ponto de sacralizarem um menino martirizado, um jovem doente e homem de 50 anos visivelmente deteriorado e trágico em sua recusa do amadurecimento e que cuja revolta se manifestava de maneira equivocada, com a afirmação de ser “bad” (mau), pertencer a gangs de meninos delinqüentes em recintos visivelmente subterrâneos, cantando e dançando com agressividade marginal, com ríctus de ódio no rosto e gestos sincopados, espasmódicos e agudos. Tudo o que afinal corrobora a era de ódios e preconceitos em que estamos mergulhados.
Triste mundo o que faz de um menino magoado o seu herói!...
(Lucia Welt)
quarta-feira, 24 de junho de 2009
As pequenas flores do riso ( de Alma Welt)
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho... não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
_________________________
22/08/2005
Nota
Como gosto especialmente deste texto exemplar da Alma, resolvi republicá-lo aqui, uma vez que ele se encontra publicado há muitos meses no blog Crônicas de Alma Welt.(Lucia Welt)
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho... não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
_________________________
22/08/2005
Nota
Como gosto especialmente deste texto exemplar da Alma, resolvi republicá-lo aqui, uma vez que ele se encontra publicado há muitos meses no blog Crônicas de Alma Welt.(Lucia Welt)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Bugigangas (de Alma Welt)
Quando chego de viagem ao casarão
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A casa vazia (de Alma Welt)
Minha casa imensa ora me assusta
Pois foram-se os amigos e parentes
Minha Mutti há muito não me susta
Prazeres que achava impertinentes.
Pois que ela também, há muito, foi-se
E Solange a seguiu, depois Alberto*.
Todos eles... mas a tal dama da foice
Deixou minha data ainda em aberto.
E Geraldo, não mais que um bandido
E de minha doce Lucia um mau marido
Que ousou muito abusar desta guria,
Esse não faz falta e ainda me assombra
Com espectros trazidos da coxia
Do palco que agora vive em sombra...
29/12/2006
Notas
Soneto recentemente encontrado na Arca da Alma.
* Solange - nossa irmã mais velha que foi inimiga da Alma a vida inteira (por ciúmes), mas que, na morte, nos braços da Alma, se perdoaram e se reconciliaram (vide o romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt)
*Alberto- O marido de Solange, alcoólatra, falecido em 2005, e a quem Alma tinha afeto, apesar de tudo, e também porque este lhe salvou a vida em episódio que está contado no romance A Herança.
* Geraldo- meu ex-marido, falecido, que se revelou um verdadeiro bandido, fugiu com Matilde e a nossa herança (a safra de nossos avós), e o pior de tudo: violentou Alma, coisa que está contada de maneira explícita e terrível no romance A Herança. (Lucia Welt)
Pois foram-se os amigos e parentes
Minha Mutti há muito não me susta
Prazeres que achava impertinentes.
Pois que ela também, há muito, foi-se
E Solange a seguiu, depois Alberto*.
Todos eles... mas a tal dama da foice
Deixou minha data ainda em aberto.
E Geraldo, não mais que um bandido
E de minha doce Lucia um mau marido
Que ousou muito abusar desta guria,
Esse não faz falta e ainda me assombra
Com espectros trazidos da coxia
Do palco que agora vive em sombra...
29/12/2006
Notas
Soneto recentemente encontrado na Arca da Alma.
* Solange - nossa irmã mais velha que foi inimiga da Alma a vida inteira (por ciúmes), mas que, na morte, nos braços da Alma, se perdoaram e se reconciliaram (vide o romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt)
*Alberto- O marido de Solange, alcoólatra, falecido em 2005, e a quem Alma tinha afeto, apesar de tudo, e também porque este lhe salvou a vida em episódio que está contado no romance A Herança.
* Geraldo- meu ex-marido, falecido, que se revelou um verdadeiro bandido, fugiu com Matilde e a nossa herança (a safra de nossos avós), e o pior de tudo: violentou Alma, coisa que está contada de maneira explícita e terrível no romance A Herança. (Lucia Welt)
Colóquio (de Alma Welt)
Caminhemos como sempre, meu irmão,
Em nosso colóquio prazenteiro
Que nos faz exercitar não a razão
Mas o sonho que nos toma por inteiro,
Tu, do pôquer a narrar tuas façanhas
Em que a própria vida sempre arriscas
Com cartadas, blefes e outras manhas,
Cercado de umas chinas nada ariscas.
Enquanto eu me derramo em escutar-te
Recordando o gestual ilusionista
Que em guria fez por certo mais amar-te,
E em seguida arriscarei um improviso
Que cante nossas vidas e esta vista,
O horizonte que me acolhe ao teu sorriso...
(sem data)
Em nosso colóquio prazenteiro
Que nos faz exercitar não a razão
Mas o sonho que nos toma por inteiro,
Tu, do pôquer a narrar tuas façanhas
Em que a própria vida sempre arriscas
Com cartadas, blefes e outras manhas,
Cercado de umas chinas nada ariscas.
Enquanto eu me derramo em escutar-te
Recordando o gestual ilusionista
Que em guria fez por certo mais amar-te,
E em seguida arriscarei um improviso
Que cante nossas vidas e esta vista,
O horizonte que me acolhe ao teu sorriso...
(sem data)
O cavalo de fogo (de Alma Welt)
Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
terça-feira, 16 de junho de 2009
A figueira (de Alma Welt)
Plantei uma figueira no pomar
Que vejo lentamente erguer seu porte,
Mas não sei se a verei frutificar
Embora na verdade não importe
Pois o mesmo acontece com o verso
Que lanço no papel ou nessa rede
Como pólen de poesia, que disperso
Vai dar aos corações e sua sede.
Todavia não verei a passarada
Como essas figueiras já frondosas
De que venero a sombra projetada.
Mas sei que os frutos esparzidos
Deitam raízes nos solos escolhidos,
Não desabrocham logo como as rosas.
09/10/2006
Que vejo lentamente erguer seu porte,
Mas não sei se a verei frutificar
Embora na verdade não importe
Pois o mesmo acontece com o verso
Que lanço no papel ou nessa rede
Como pólen de poesia, que disperso
Vai dar aos corações e sua sede.
Todavia não verei a passarada
Como essas figueiras já frondosas
De que venero a sombra projetada.
Mas sei que os frutos esparzidos
Deitam raízes nos solos escolhidos,
Não desabrocham logo como as rosas.
09/10/2006
Inverno (de Alma Welt)
Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
Dias tristes (de Alma Welt)
Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
domingo, 14 de junho de 2009
Zen (de Alma Welt)
Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Soneto português de devoção (de Guilherme de Faria)
Para Alma Welt
Apesar de não gostar muito de guerra
Por Joana D’Arc tenho grande devoção,
Me perdoem os ingleses e a Inglaterra
Que queimaram esta guerreira em Ruão.
Por outro lado, detesto os alcagüetes
E tenho certa pena do infeliz
Do escolhido e pobre Iscariotes
Que não virou maldito porque quis.
Mas uma heroína que me encanta
É a Maria, a melhor das Madalenas
Que quando puta pra mim já era santa.
E entre todos os bons heróis covardes
Gosto mais de São Pedro e suas penas
De galos triplos, orelhas e quo vadis...
12/06/2009
Nota
Acabo de receber por e.mail este hilariante soneto que o Guilherme de Faria escreveu e dedicou à Alma, sua eterna musa. Guilherme, como muitos sabem, é o famoso artista plástico e cordelista que foi quem descobriu minha irmã em São Paulo,em 2001, quando ela aí estava morando estabelecida nos Jardins como pintora, e lançou sua obra, prefaciando-a e ilustrando-a com seus maravilhosos desenhos. Por um acordo entre eles, ele se tornou seu único retratista autorizado, em desenhos e pinturas, jamais em fotografias, que eles descartaram numa decisão polêmica e surpreendente. Por isso jamais publiquei fotos de minha irmã.
Creio que Alma, que tinha muito senso de humor adoraria este soneto, que a faria rolar de rir, como o fez a mim. (Lucia Welt)
Apesar de não gostar muito de guerra
Por Joana D’Arc tenho grande devoção,
Me perdoem os ingleses e a Inglaterra
Que queimaram esta guerreira em Ruão.
Por outro lado, detesto os alcagüetes
E tenho certa pena do infeliz
Do escolhido e pobre Iscariotes
Que não virou maldito porque quis.
Mas uma heroína que me encanta
É a Maria, a melhor das Madalenas
Que quando puta pra mim já era santa.
E entre todos os bons heróis covardes
Gosto mais de São Pedro e suas penas
De galos triplos, orelhas e quo vadis...
12/06/2009
Nota
Acabo de receber por e.mail este hilariante soneto que o Guilherme de Faria escreveu e dedicou à Alma, sua eterna musa. Guilherme, como muitos sabem, é o famoso artista plástico e cordelista que foi quem descobriu minha irmã em São Paulo,em 2001, quando ela aí estava morando estabelecida nos Jardins como pintora, e lançou sua obra, prefaciando-a e ilustrando-a com seus maravilhosos desenhos. Por um acordo entre eles, ele se tornou seu único retratista autorizado, em desenhos e pinturas, jamais em fotografias, que eles descartaram numa decisão polêmica e surpreendente. Por isso jamais publiquei fotos de minha irmã.
Creio que Alma, que tinha muito senso de humor adoraria este soneto, que a faria rolar de rir, como o fez a mim. (Lucia Welt)
Pássaros migrantes (de Alma Welt)

Pássaros migrantes- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x60cm, coleção Ricardo Meirelles de Faria, São Paulo, Brasil
Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho
De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...
Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”
Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...
(sem data)
A Canção do guarani (de Alma Welt)
Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
quinta-feira, 11 de junho de 2009
O embuçado (de Alma Welt)
Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
terça-feira, 9 de junho de 2009
O haragano e o minuano (de Alma Welt)
O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
segunda-feira, 8 de junho de 2009
O Edital (de Alma Welt)
Manhãs do meu sonho, esfuziantes,
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
domingo, 7 de junho de 2009
Coração infame (de Alma Welt)
Às vezes me surpreende estar no mundo
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias
De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.
Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga
A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...
(sem data)
Notas
...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.
Tornar-me o branco cisne- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias
De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.
Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga
A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...
(sem data)
Notas
...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.
Tornar-me o branco cisne- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)
sábado, 6 de junho de 2009
A quermesse (de Alma Welt)
Eu gostava da quermesse na cidade
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O dia e a noite (de Alma Welt)
Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
Memórias farroupilhas (de Alma Welt)
Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
Crepúsculo no Pampa de Alma Welt- óleo s/tela de Guilherme de Faria, coleção Giovanni Meirelles de Faria, São Paulo, SP, Brasil
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura
E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo
E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a descer o corrimão
De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...
(sem data)
