Sim, preciso afinal me confessar:
Estou mesma viciada no soneto,
E como em consultório não me meto,
Esse vício vai por certo me matar.
Pois já ando com lápis e bloquinho,
E até com o toco atrás da orelha,
Como o da padaria, lá, do Minho,
Pro verso que me dará na telha,
Pulando um riacho ou na campina,
A brincar com os infantes no jardim,
Até no leito, que não mais de menina,
Onde em ondas de múltiplos orgasmos
Vejo fechos e tercetos dentro em mim,
E me pego a contar sílabas e espasmos...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me divertiu muito, e vou imediatamente postar no blog dos Humorísticos da Alma . (Lucia Welt)
sábado, 7 de novembro de 2009
Anita, eu e as visitas (de Alma Welt)
Meus verões de guria na fazenda
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes
Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.
E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,
Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...
05/08/2001
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes
Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.
E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,
Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...
05/08/2001
O Sonho do casarão (de Alma Welt)
À meia-noite o sonho começava
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira
Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão
Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas
Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.
(sem data)
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira
Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão
Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas
Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.
(sem data)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A vida (de Alma Welt)
A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.
Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.
Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça
Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto inédito na Arca da Alma, que muito me fez rir, e que vou imediatamente postar no blog específico dessa vertente da Poetisa: o dos Sonetos Humorísticos da Alma. (Lucia Welt)
Babilônia (de Alma Welt)

A Torre de Babel- de Pieter Bruegel, 1563
Babilônia (de Alma Welt)
No mundo não há refúgio ou paz
A não ser na sua própria mente
Quem a tiver em paz, naturalmente,
Ou quem de altos vôos for capaz.
Não vêem os ingênuos ou incultos
Que o mundo foi sempre a Babilônia,
E não houve um só entre mil cultos
Que evitasse a falsa rima para esbórnia?
O segredo do mundo é a senda oculta
Que percorre o inferno nesta terra
Em meio a confusão da turbamulta
Da qual fazemos parte até o dia
Da recusa de uma tal de “mais valia”:
A solidão primordial que nos desterra.
09/10/2006
O Coro (de Alma Welt)
O canto da planície eu apreendi,
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O sentido da Vida (de Alma Welt)
Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.
Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,
É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.
Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...
28/07/2005
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto na Arca, e que logo postarei no blog dos humorísticos da Alma. A poetisa, por ser demasiado inteligente, sabia que a questão do "sentido da vida" só pode ser respondida com humor ... e em favor da beleza. (Lucia Welt)
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.
Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,
É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.
Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...
28/07/2005
Nota
Acabo de descobrir este notável soneto na Arca, e que logo postarei no blog dos humorísticos da Alma. A poetisa, por ser demasiado inteligente, sabia que a questão do "sentido da vida" só pode ser respondida com humor ... e em favor da beleza. (Lucia Welt)
Amor, amores (de Alma Welt)
Coleciono amores com carinho
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O gaucho* (de Alma Welt)
O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.
Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual
Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.
Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.
06/05/2004
Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.
El gaucho (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
En la Pampa no hay flecos ni limite
Y se extiende mucho allá del horizonte
Donde el gaucho vive y sin desmonte
El Martín Fierro en sí él admite.
En la ondeada llanura de estos pagos
Como manta de un charqui visceral
Los peones son profetas y son magos
De una oculta cofradía de bagual
Cuyo honor o altivez alardeada
Del ser, es sin embargo confundida
Con la provocación o la machada.
Si todavía recusares un convite
A una rodada más de la bebida,
Saca luego tu fierro… y no hesite.
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.
Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual
Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.
Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.
06/05/2004
Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.
El gaucho (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
En la Pampa no hay flecos ni limite
Y se extiende mucho allá del horizonte
Donde el gaucho vive y sin desmonte
El Martín Fierro en sí él admite.
En la ondeada llanura de estos pagos
Como manta de un charqui visceral
Los peones son profetas y son magos
De una oculta cofradía de bagual
Cuyo honor o altivez alardeada
Del ser, es sin embargo confundida
Con la provocación o la machada.
Si todavía recusares un convite
A una rodada más de la bebida,
Saca luego tu fierro… y no hesite.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
A música dos versos (de Alma Welt)
Cedo eu encontrei o diapasão
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia
Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.
Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante
Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...
(sem data)
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia
Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.
Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante
Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...
(sem data)
A última primavera (de Alma Welt)

Ofélia- óleo s/ tela de Guilherme de Faria
A Última Primavera (de Alma Welt)
O que me guardará a primavera
Que é com certeza a derradeira
Já que a carta revelada, tão sincera
Me diz que não está pra brincadeira?
O meu jardim florido está deserto
Com as lindas crianças já crescidas,
Que já não as tenho tão por perto,
Que revoam, batem asas estendidas...
E se o meu perfil ainda comove
Por certo é a mim mesma que o faz
Se no espelhado lago ele se move.
Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,
A me dizer que o espelho sempre traz
Sobre a face liquefeita uma camélia...
20/10/2006
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Contratempo (de Alma Welt)
Eu pedi ao Tempo o beneplácito
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:
O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue
Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,
Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...
12/19/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me comoveu por nele Alma mais uma vez evidenciar que sabia que seu tempo estava acabando, e que ela se sentia numa espécie de prorrogação por causa de seu amor por Rodo, nosso irmão, que desde a infância lhe custara uma perda tão grande: o amor da "Açoriana", nossa mãe, segundo ela acreditava, já que Ana Morgado fora tão dura com sua filha até a sua morte quando Alma tinha 19 anos. Um grande número de sonetos da Alma trata desse problema, confiram. (Lucia Welt)
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:
O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue
Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,
Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...
12/19/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que me comoveu por nele Alma mais uma vez evidenciar que sabia que seu tempo estava acabando, e que ela se sentia numa espécie de prorrogação por causa de seu amor por Rodo, nosso irmão, que desde a infância lhe custara uma perda tão grande: o amor da "Açoriana", nossa mãe, segundo ela acreditava, já que Ana Morgado fora tão dura com sua filha até a sua morte quando Alma tinha 19 anos. Um grande número de sonetos da Alma trata desse problema, confiram. (Lucia Welt)
domingo, 1 de novembro de 2009
Poema perplexo (de Alma Welt)
O melhor de mim
é a certeza
de minha perplexidade
inominável
diante da vida
erigida em religião
de mistérios
e de assombros.
E o amor...
por quase tudo
menos pela moscas
que essas seriam
mesmo
do diabo
como mosquitos
e algumas larvas
Mas o sol
e o seu pôr,
o sol...
só pode ser Deus,
se Deus houvesse.
Ando
pela campina
ainda a colher flores
privilégio que veio
a mim
de outras eras
E ao imaginar-me
e mesmo
avistar-me
com longínquo olho
me comovo
comigo
e abano a cabeça
conformada.
Romântica ?
Talvez...
por pura
estética...
17/08/2006
é a certeza
de minha perplexidade
inominável
diante da vida
erigida em religião
de mistérios
e de assombros.
E o amor...
por quase tudo
menos pela moscas
que essas seriam
mesmo
do diabo
como mosquitos
e algumas larvas
Mas o sol
e o seu pôr,
o sol...
só pode ser Deus,
se Deus houvesse.
Ando
pela campina
ainda a colher flores
privilégio que veio
a mim
de outras eras
E ao imaginar-me
e mesmo
avistar-me
com longínquo olho
me comovo
comigo
e abano a cabeça
conformada.
Romântica ?
Talvez...
por pura
estética...
17/08/2006
A cepa da videira (de Alma Welt)
Eu fui a este mundo transplantada
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo
Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.
E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,
Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.
(sem data)
Nota
Para o leitor neófito da Alma entender melhor este soneto (que acabo de descobrir na Arca da Poetisa) republico aqui estas estrofes do poema entitulado Meu perfil, que narra em seu início as circunstâncias excepcionais do nascimento da Musa, numa estrada, nossos pais vindos do Vale do Itajaí(SC) a caminho de Novo Hamburgo:
MEU PERFIL
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
...........................
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo
Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.
E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,
Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.
(sem data)
Nota
Para o leitor neófito da Alma entender melhor este soneto (que acabo de descobrir na Arca da Poetisa) republico aqui estas estrofes do poema entitulado Meu perfil, que narra em seu início as circunstâncias excepcionais do nascimento da Musa, numa estrada, nossos pais vindos do Vale do Itajaí(SC) a caminho de Novo Hamburgo:
MEU PERFIL
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
...........................
sábado, 31 de outubro de 2009
O início (de Alma Welt)
Nunca esquecerei meu próprio olhar
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.
O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.
Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.
Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...
08/05/2004
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.
O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.
Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.
Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...
08/05/2004
Finitude (de Alma Welt)
Estar-se consciente é a tragédia,
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.
A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.
Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.
Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...
Finitud (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Estarse conciente es la tragedia
De ser y estarse ante la muerte
Si eso entre nosotros, raro en media,
No lograr darnos así ningún suporte.
La finitud de todo es soportable
Cuando avistada en la Natura,
Pues la transformación es inefable
Y produce fruta verde y la madura.
Así como agua sube y pura cae
Nada se cría, tampoco no es nada,
Al polvo torna el cuerpo y se desvaye.
Pero sospecho que el Ego y su misterio
Completa imagen en vida conquistada
Se perderá en un otro cementerio…
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.
A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.
Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.
Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...
Finitud (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Estarse conciente es la tragedia
De ser y estarse ante la muerte
Si eso entre nosotros, raro en media,
No lograr darnos así ningún suporte.
La finitud de todo es soportable
Cuando avistada en la Natura,
Pues la transformación es inefable
Y produce fruta verde y la madura.
Así como agua sube y pura cae
Nada se cría, tampoco no es nada,
Al polvo torna el cuerpo y se desvaye.
Pero sospecho que el Ego y su misterio
Completa imagen en vida conquistada
Se perderá en un otro cementerio…
A nascente (de Alma Welt)
Meu despertar diário em Poesia
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto
Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão
De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...
Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...
(sem data)
El Naciente (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Mi despertar diario en poesía
Es un riachuelo que presiento
Y con un vislumbre todavía,
Que al localizarlo no desmiento
Que el soneto así nace mejor,
En el café en la mesa matinal,
Con chiquillería en derredor
Y en mi mano el toque digital
De Rodo, mi hermano, que escogía
El póquer por minar nuestro pasado,
Y que es otro misterio o ironía…
Pues creo que el naciente que destilo
Y de equilibrio ambiental tan delicado
Empieza siempre con un cristalino hilo.
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto
Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão
De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...
Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...
(sem data)
El Naciente (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Mi despertar diario en poesía
Es un riachuelo que presiento
Y con un vislumbre todavía,
Que al localizarlo no desmiento
Que el soneto así nace mejor,
En el café en la mesa matinal,
Con chiquillería en derredor
Y en mi mano el toque digital
De Rodo, mi hermano, que escogía
El póquer por minar nuestro pasado,
Y que es otro misterio o ironía…
Pues creo que el naciente que destilo
Y de equilibrio ambiental tan delicado
Empieza siempre con un cristalino hilo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Análise sucinta do tumulto a propósito de uma mini-saia, numa universidade de São Paulo (por Lucia Welt).
O tumulto ocorrido numa universidade de São Paulo causado pela mini-saia de uma moça, deveria ser analisado à luz da psicologia das massas, disciplina praticamente inexistente hoje em dia e que tentarei configurar em um de seus aspectos básicos.
Houve um enorme retrocesso no processo de emancipação feminina a partir do advento da AIDS no começo dos anos oitenta. Uma série de conquistas das mulheres, decorrentes do movimento feminista a partir dos anos sessenta, foram renegadas e retroagiram. O momento é de uma grande obscuridade social, e talvez mesmo cultural, com a cultura tendo sido atrelada ao consumo, produzindo a chamada “cultura de massas”.
A verdade é que o jovem de hoje é de uma lamentável incultura e conseqüentemente de uma espantosa mediocridade pessoal, existencial. Individualmente é um ignorante, em que pese o seu acesso à informação através da Internet. O jovem típico de hoje, é o contrário do ser "individuado", na concepção junguiana do termo. Fruto da sociedade de consumo, não tem consciência histórica referencial, não tem pensamentos próprios e vive sob o domínio das palavras de ordem do momento e dos modismos quer de linguagem, quer de gostos e padrões de comportamento. É escravo das modas, manipulado pelos chamados "formadores de opinião", os manipuladores das mentes através das mídias: escrita, televisiva e digital. Seres assim, isolados raramente são perigosos, mas quando em ajuntamento constituem um organismo imprevisível como uma manada passível de estouro a qualquer momento, bastando para isso um elemento catalizador do inconsciente de cada membro amalgamando-os para formar o que poderíamos chamar de inconsciente coletivo primal: uma força conjunta primitiva, de natureza violenta e negativa.
Uma multidão de jovens assim, mesmo no ambiente de uma faculdade, é a coisa mais parecida com o fenômeno das massas acéfalas clássicas mobilizadas pelos "senhores da guerra", e basta uma faísca, uma provocação ou uma liderança cega eventual para produzir o mesmo movimento, por exemplo, de um linchamento: a irrupção do inconsciente coletivo no seu componente mais bárbaro, primitivo, violento e sanguinário. Ou, no caso, com raízes na discriminação milenar da sexualidade feminina, que na antiguidade produzia até mesmo a lapidação das adúlteras, ou, mais tarde, a queima das bruxas.
Os meios de comunicação, suspeitos por natureza (já que estão na base do fenômeno) no caso dos jornais televisivos através de seus jornalistas locutores, se encontram obviamente despreparados para uma abordagem em profundidade, e manifestam perplexidade ou atribuem o fato tão somente a uma "atitude preconceituosa”, sem meios ou tempo de irem mais fundo numa análise que, na verdade resultaria desoladora. Estamos novamente em tempos de trevas. E brevemente veremos as massas, constituídas em maioria pelos jovens, gritando algo equivalente ao “Aos leões!...” da plebe romana. E salve-se quem puder....
Lucia Welt
Houve um enorme retrocesso no processo de emancipação feminina a partir do advento da AIDS no começo dos anos oitenta. Uma série de conquistas das mulheres, decorrentes do movimento feminista a partir dos anos sessenta, foram renegadas e retroagiram. O momento é de uma grande obscuridade social, e talvez mesmo cultural, com a cultura tendo sido atrelada ao consumo, produzindo a chamada “cultura de massas”.
A verdade é que o jovem de hoje é de uma lamentável incultura e conseqüentemente de uma espantosa mediocridade pessoal, existencial. Individualmente é um ignorante, em que pese o seu acesso à informação através da Internet. O jovem típico de hoje, é o contrário do ser "individuado", na concepção junguiana do termo. Fruto da sociedade de consumo, não tem consciência histórica referencial, não tem pensamentos próprios e vive sob o domínio das palavras de ordem do momento e dos modismos quer de linguagem, quer de gostos e padrões de comportamento. É escravo das modas, manipulado pelos chamados "formadores de opinião", os manipuladores das mentes através das mídias: escrita, televisiva e digital. Seres assim, isolados raramente são perigosos, mas quando em ajuntamento constituem um organismo imprevisível como uma manada passível de estouro a qualquer momento, bastando para isso um elemento catalizador do inconsciente de cada membro amalgamando-os para formar o que poderíamos chamar de inconsciente coletivo primal: uma força conjunta primitiva, de natureza violenta e negativa.
Uma multidão de jovens assim, mesmo no ambiente de uma faculdade, é a coisa mais parecida com o fenômeno das massas acéfalas clássicas mobilizadas pelos "senhores da guerra", e basta uma faísca, uma provocação ou uma liderança cega eventual para produzir o mesmo movimento, por exemplo, de um linchamento: a irrupção do inconsciente coletivo no seu componente mais bárbaro, primitivo, violento e sanguinário. Ou, no caso, com raízes na discriminação milenar da sexualidade feminina, que na antiguidade produzia até mesmo a lapidação das adúlteras, ou, mais tarde, a queima das bruxas.
Os meios de comunicação, suspeitos por natureza (já que estão na base do fenômeno) no caso dos jornais televisivos através de seus jornalistas locutores, se encontram obviamente despreparados para uma abordagem em profundidade, e manifestam perplexidade ou atribuem o fato tão somente a uma "atitude preconceituosa”, sem meios ou tempo de irem mais fundo numa análise que, na verdade resultaria desoladora. Estamos novamente em tempos de trevas. E brevemente veremos as massas, constituídas em maioria pelos jovens, gritando algo equivalente ao “Aos leões!...” da plebe romana. E salve-se quem puder....
Lucia Welt
Ritual (de Alma Welt)
Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.
O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.
Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.
Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...
(sem data)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)
É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...
(21/08/2005)
El Laberinto de Dioniso (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Es posible un ser el otro conocer ?
Podremos penetrarle el corazón ?
En la bodega aquí del caserón
El alma quiere huir o trascender?
El griego antiguo está engañado:
Como Ícaro de plumas y de penas,
En el cuerpo de un Titán, encarcelado,
Dioniso solo hay alas de falenas…
Y miedoso, sumiso, acobardado,
Quisiera aquí quedarse eternamente
Pues teme lo que habrá de otro lado.
Y el techo azul, solar, del laberinto
(no se trata de bodega, yo lo siento)
Es consuelo y ledo engaño suficiente.
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?
Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...
E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,
Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...
(21/08/2005)
El Laberinto de Dioniso (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Es posible un ser el otro conocer ?
Podremos penetrarle el corazón ?
En la bodega aquí del caserón
El alma quiere huir o trascender?
El griego antiguo está engañado:
Como Ícaro de plumas y de penas,
En el cuerpo de un Titán, encarcelado,
Dioniso solo hay alas de falenas…
Y miedoso, sumiso, acobardado,
Quisiera aquí quedarse eternamente
Pues teme lo que habrá de otro lado.
Y el techo azul, solar, del laberinto
(no se trata de bodega, yo lo siento)
Es consuelo y ledo engaño suficiente.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O Pacto (de Alma Welt)
A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.
Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.
E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles
E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)
Imediatamente o verti para o castelhano:
El Acuerdo (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
La vida, mi amigo, no perdona
Un engaño, errores o desliz,
Y ha de cobrar en tu persona,
Sea aquí, en Belize o en Paris.
No podrás huir a Patagonia
Si en la hora misma de conquista
Cambiares una rosa por begonia
O otra flor que esté fuera de su lista.
Y si la atracción mutua de sus lutos
Te hace casar con un ser incompatible,
Acuerdo que no puedes cambiar
Y que el Tiempo, lento, ha de cobrar,
Verás que un orgasmo de minutos
Se ha tornado esa tu vida, tan horrible…
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.
Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.
E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles
E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)
Imediatamente o verti para o castelhano:
El Acuerdo (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
La vida, mi amigo, no perdona
Un engaño, errores o desliz,
Y ha de cobrar en tu persona,
Sea aquí, en Belize o en Paris.
No podrás huir a Patagonia
Si en la hora misma de conquista
Cambiares una rosa por begonia
O otra flor que esté fuera de su lista.
Y si la atracción mutua de sus lutos
Te hace casar con un ser incompatible,
Acuerdo que no puedes cambiar
Y que el Tiempo, lento, ha de cobrar,
Verás que un orgasmo de minutos
Se ha tornado esa tu vida, tan horrible…
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
A Dama do Lago (de Alma Welt)
Dediquei-me à tarefa de sonhar
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho
Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre
Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,
No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.
08/01/2007
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho
Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre
Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,
No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.
08/01/2007
Angústia (de Alma Welt)
É difícil desfrutar da juventude
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,
Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.
Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,
Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...
(sem data)
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,
Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.
Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,
Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...
(sem data)
sábado, 24 de outubro de 2009
O Ser e a Poesia (de Alma Welt)
Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.
"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.
Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.
Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...
29/12/2005
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Meta-física (de Alma Welt)
Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.
Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.
No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.
E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...
(sem data)
Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)
Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)

O eterno retorno- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, déc, 70, 60x80cm, (paradeiro desconhecido)
Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
08/01/2007
El Eterno Retorno (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
No digo adiós a las cosas tan amadas
Que me acompañaran en esta vida,
De las aves el canto en las ramadas
O los colores que yo veo embebecida
De los ponientes que más allá nos ponen
Y la gloria hacen ver y lo que habemos
Cuando ya no decimos aquel amén
Pero somos entonces lo que vemos
Integrados en el Mundo y el Porvenir,
Soles, espacio-tiempo, muerte fría
O tan solo un cometa en nostalgia
En el viaje solitario, extremo en sí,
Durante la jornada a desvaír
Para tornar al lar, que es mismo aquí…
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Stradivarius (de Alma Welt)
Conquanto nascida pra escrever,
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.
Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão
Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,
Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...
14/01/2007
Stradivarius (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Con cuanto yo he nacida para escribir
Yo sé que no seré bien comprendida
Pues que sonetos solo a exhibir
No ha sido mi propósito en la vida.
Pero subir bien alto en pensamiento,
Entregarme a la pasión que me disuelve
Por todo lo que es vivo en andamiento
Sabedora de que todo al polvo vuelve,
Como simiente de un sueño conmovido,
Hondas raíces lanzando en la memoria,
Luchando en las tinieblas y el olvido,
Esta es mi meta objetiva, mi destino,
Más que un soprano, un violín muy fino,
Stradivarius de mi misma y de mi gloria.
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.
Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão
Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,
Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...
14/01/2007
Stradivarius (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Con cuanto yo he nacida para escribir
Yo sé que no seré bien comprendida
Pues que sonetos solo a exhibir
No ha sido mi propósito en la vida.
Pero subir bien alto en pensamiento,
Entregarme a la pasión que me disuelve
Por todo lo que es vivo en andamiento
Sabedora de que todo al polvo vuelve,
Como simiente de un sueño conmovido,
Hondas raíces lanzando en la memoria,
Luchando en las tinieblas y el olvido,
Esta es mi meta objetiva, mi destino,
Más que un soprano, un violín muy fino,
Stradivarius de mi misma y de mi gloria.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
“O tempo e o vento” (soneto de Alma Welt para Érico Veríssimo)

Alma e o vento- pintura de Guilherme de Faria
(para Érico Veríssimo, in memoriam)
Para expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...
Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.
Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.
E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória...
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e maravilhada com essa bela homenagem ao grande Érico, imediatamente verti-o (ou transliterei-o) para o castelhano:
El Tempo y el Viento
(de Alma Welt para Érico Veríssimo, in memoriam)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para cantar la Pampa, que es mi hado,
Raíces hondas yo lancé, de umbu-pampero,
Aquél grande en la colina, elevado,
(que nada ha de segarme por entero)...
La tierra y yo tenemos lazos, somos un,
Y la llanura se refleja en mi mirada
A buscar el horizonte como un zoon
Y la razón de ser poeta y desvariada.
Pero todo a cercarme está lanzado
En un libro de registros inmanente
De sonetos como flores de mi prado.
Y cuando llegue un tiempo sin memoria,
Sin embargo amplia y llana en mi mente,
El viento ha de narrar mi propia historia.
A Usurpadora (de Alma Welt)

Da série Dança Macabra- xilogravura de Rethel
Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.
De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
Da Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...
A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,
Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...
10/06/2005
La Usurpadora (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Aunque caída yo retorno al caserón,
Yo que anduve por el mundo, peregrina
En busca de algo en una esquina,
Sin embargo estaba aquí su apelación.
De mi feudo la muerte me expulsara,
No me quería ella y sí mi Vati.
De la infanta destronada se librara,
Que me tornara amarga como el mate.
La Usurpadora no quiere llanto ver,
Un pie allá, otro en la vida, como anfíbia,
En la macabra fiesta es solo una mujer,
Libertina, siniestra y falsa amable.
Y yo escuché su violín en una tibia
En la sala del difunto inigualable.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A queda livre (de Alma Welt)
A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
O Sangue do Poeta (de Alma Welt)
Quando guria um tonel eu vi jorrar
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
Nota
Acabei de descobrir este soneto na Arca da Alma e logo o verti para o idioma castelhano para postá-lo nas páginas da Poetisa no portal LA VOZ DE LA PALABRA ESCRITA-INTERNACIONAL, também no ES DELETRAS e no RED DE ESCRITORES DE COQUIMBO:
La sangre del Poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Yo era niña y he visto chorrear
El vino por la hierba en borbollón
De un tonel por el hacha de un peón
Que lo rajó así, siempre a gritar:
“ He aquí la sangre de la tierra!
Y luego el de mi mismo, lo verán!
Pero verteré de uno que aberra
Y no merece el amargo* que le dan!”
En la tarde ha ocurrido el embate
En la sinistra Colina del Ahorcado
De la sangre más regada que del mate.
Y yo que todo en cerca absorbía
Juré verter por cuenta de mi hado
Mi sangre por la vida y la Poesía…
Nota
* amargo- el mate (sorbido en una calabaza, el "chimarrão") referido así por los peones de la Pampa.
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
Nota
Acabei de descobrir este soneto na Arca da Alma e logo o verti para o idioma castelhano para postá-lo nas páginas da Poetisa no portal LA VOZ DE LA PALABRA ESCRITA-INTERNACIONAL, também no ES DELETRAS e no RED DE ESCRITORES DE COQUIMBO:
La sangre del Poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Yo era niña y he visto chorrear
El vino por la hierba en borbollón
De un tonel por el hacha de un peón
Que lo rajó así, siempre a gritar:
“ He aquí la sangre de la tierra!
Y luego el de mi mismo, lo verán!
Pero verteré de uno que aberra
Y no merece el amargo* que le dan!”
En la tarde ha ocurrido el embate
En la sinistra Colina del Ahorcado
De la sangre más regada que del mate.
Y yo que todo en cerca absorbía
Juré verter por cuenta de mi hado
Mi sangre por la vida y la Poesía…
Nota
* amargo- el mate (sorbido en una calabaza, el "chimarrão") referido así por los peones de la Pampa.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Penélope do Pampa (de Alma Welt)
Nos meus olhos lágrimas faltando,
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória
Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.
E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo
Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...
Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)
Como exemplo da recorrência deste tema na obra da Alma republico aqui este outro (n°221, dos Sonetos Pampianos):
Penélope (de Alma Welt)
Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.
Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna
Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,
E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.
29/12/2006
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória
Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.
E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo
Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...
Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)
Como exemplo da recorrência deste tema na obra da Alma republico aqui este outro (n°221, dos Sonetos Pampianos):
Penélope (de Alma Welt)
Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.
Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna
Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,
E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.
29/12/2006
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Estaremos (de Alma Welt)
Estaremos por aqui na derrocada,
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão
Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...
Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.
E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, inédito embora de tema bastante recorrente na obra da poetisa. Republico aqui, como exemplo, este outro (n° 163 dos Pampianos da Alma) de tema análogo:
A Abantesma (de Alma Welt)
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão
Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...
Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.
E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, inédito embora de tema bastante recorrente na obra da poetisa. Republico aqui, como exemplo, este outro (n° 163 dos Pampianos da Alma) de tema análogo:
A Abantesma (de Alma Welt)
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)
domingo, 11 de outubro de 2009
A Verdade (de Alma Welt)
A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?
Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.
A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.
A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...
(sem data)
A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)
Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados
Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho
Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...
Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!
21/11/2005
sábado, 10 de outubro de 2009
Nostalgia (de Alma Welt)
À noite na varanda ante a planície
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim
Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.
Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,
Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...
(sem data)
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim
Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.
Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,
Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...
(sem data)
O poeta (de Alma Welt)
O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.
Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos
Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua
Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...
(sem data)
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O Vale (de Alma Welt)
Já se vão os irradiantes dias
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.
Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!
Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...
E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...
29/12/2006
El Valle (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Ya se van los radiantes bellos días
Y yo tengo de rendirme a evidencias
De un futuro quizá de penitencias
Por los tiempos de cigarra y alegrías.
Nuestra madre a nosotros prevenía:
De lágrimas, valle no hay que no se crie
Y que ella misma jamás se iludía
Pues el llanto es el premio de quien rie.
Se fueran ella y los yernos de este llano
Y Solange que miraba como abrojos
La risa siempre y el brillo de mis ojos
Y las velas de Matilde y su homilía
Que hacia reírse nuestro hermano,
Aunque, sin muebles, ya la casa desvaía…
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.
Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!
Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...
E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...
29/12/2006
El Valle (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Ya se van los radiantes bellos días
Y yo tengo de rendirme a evidencias
De un futuro quizá de penitencias
Por los tiempos de cigarra y alegrías.
Nuestra madre a nosotros prevenía:
De lágrimas, valle no hay que no se crie
Y que ella misma jamás se iludía
Pues el llanto es el premio de quien rie.
Se fueran ella y los yernos de este llano
Y Solange que miraba como abrojos
La risa siempre y el brillo de mis ojos
Y las velas de Matilde y su homilía
Que hacia reírse nuestro hermano,
Aunque, sin muebles, ya la casa desvaía…
"A Louca de Albano" do Pampa (de Alma Welt)

(detalhe de uma famosa pintura húngara de Jenö Gyárfás)
Noites do meu pampa, estrelas nuas
Que me vêem como sonâmbula vagar
Esperando me elevar à luz da lua
Pequena e branca gôndola no ar!
Me conhecem os peões e suas prendas,
Esta “louca de Albano” desvairada,*
Que sai de sua cama toda em rendas
Para andar no jardim, de madrugada,
Pois que não resisto aos seus apelos,
Noites e luas sedutoras da planura,
Que me puxam no leito os cabelos
E que, antigos, meus delírios alimentam
(sou eu a lenda viva que comentam)
Na sutil voragem branca de loucura...
27/02/2004
Nota
*...louca de Albano- Nossa mãe, Ana Morgado, catarinense neta de açorianos, nos contou esta estória antiga, portuguesa, em versos, apreendida com seus avós, e costumava chamar a Alma de Louca de Albano como censura quando ouvia contar que ela vagara nua, de noite, pelo jardim ou pela pradaria, ou outra aventura bizarra de minha irmã. Por curiosidade transcrevo-a aqui:
A Louca de Albano
Anda cá, meu filho, escuta:
És amigo de sua mãe?
Oh, minha mãe, que pergunta?
Basta, meu Paulo, pois bem.
Vai ver a velha Vicenza
o amor que o filho lhe tem.
Faz hoje 20 anos
que teu pai morreu
a golpe deste ferro,
para meu mal e eu,
a vir vingá-lo,
fiz uma jura fatal...
Uma jura? Mãe santíssima!
Oh, minha mãe, o que jurou?
Eu jurei por este sangue,
que em ferrugem se tornou,
que tu Paulo matarias,
quem teu pai matou.
E matas, meu filho?
Mato.
Matas, seja quem for?
Ainda que esta vingança
lhe roube do seio o amor?
Mato.
Tome este ferro, é Ricardo o matador.
Ricardo, o pai de Maria?
Oh, minha mãe, perdoai...
Pela amante o pai esquece,
filho ingrato, parte e vai,
cumpre a jura ou sê maldito
se não vingares a teu pai.
Nesta noite, tinto em sangue,
com os cabelos no ar,
o assassino de Ricardo,
foi aos pés da mãe prostar
o punhal com que jurara,
do pai a morte vingar.
Riu-se a velha de contente
e abraçou o vingador,
mas que de súbito aparece
na porta uma estátua de dor:
Paulo, meu Paulo, perdi meu pai, não vês?
As lágrimas que aqui derramo
assistiram ao triste fim.
Quis falar-me e já não pode,
com os olhos fixos em mim,
expirou... "Vingança eterna".
Tu vingas, meu Paulo, sim?
Vingo, Maria, sossega,
eu sei quem teu pai matou,
vai morrer com o mesmo ferro
que a pouco o transpassou.
Assim disse e a punhalada
no próprio peito cravou...
Foge a moça espavorida,
deixa Albano sem parar,
chega a Roma no outro dia,
por toda parte a gritar:
"Quem me mata por piedade,
quem me acaba de matar?"
E assim vagou três dias,
e no quarto enlouqueceu,
quando passa o viajante,
quando passa o Coliseu,
vê a triste às gargalhadas,
vingança pedindo a Deus...
Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha...
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Meu lobo-guará (de Alma Welt

Alma e o Lobo- óleo s/ tela, 15ox150cm de Guilherme de Faria- coleção Flávio Pacheco, São Paulo, Brasil
Alma e o Lobo (de Alma Welt)
Um lobo é meu amigo, isto é sério!
Isso afirmei quando ainda era guria
E não fui acreditada em meu mistério,
Lobo-guará como esse não havia...
“Esse animal é tímido, covarde”,
Diziam Galdério e mesmo o Rodo.
“O sonho que em ti por certo arde
Te faz crer amigo o mundo todo”.
Mas eles não sabem e não podem
Saber que para atraí-lo eu me desnudo
Que assim o meu guará aceita a ordem
Natural de nossa pele e do meu cheiro
Pois eu creio que assim medo transmudo
Em instinto de amor ao mundo inteiro...
(sem data)
Versejando (de Alma Welt)
Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:
“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.
“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.
Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”
(sem data)
O Pampa, eu, e o Maestro (de Alma Welt)
Quando estou a vagar na pradaria
Por entre brisas, vôos e zumbidos,
Aguçados os meus olhos e os ouvidos,
Posso sentir a deferência e honraria
De ser do Pampa aceita pelo povo,
Eu, nascida à beira de uma estrada,
Arrancada do ventre, ensangüentada,
Pelo cirurgião de Hamburgo Novo.
Também seria o pampa assimilado
Por ele, o Maestro, de bombachas,
Com notável respeito e até agrado.
E sinto ainda, ele no solo e eu vagando
Nas sendas que são gaudérias faixas,
O punhal o meu cordão ainda cortando...
A candeia (de Alma Welt)
Sob a luz aconchegante da candeia
Que tremula viva qual carícia,
Sou como a aranha em minha teia
Embora espere idéias sem malícia,
E nunca como presas, sem piedade,
Mas aquelas que vierem por encanto
Que é como nascem de verdade
Os poemas, o riso e mesmo o pranto.
E começo por pensar a natureza
Dessa luz tão doce e aliciante
Que aqui no casarão é ainda acesa.
E se, poeta, queimo velas e pestanas
É que percebo que a chama leva adiante
A vigília do Tempo em filigranas...
19/08/2005
A estirpe dos Sonhos (de Alma Welt)
Os seres que povoam nossos sonhos
Pertencem a estirpes muito antigas.
Não sabemos o que os põe tristonhos
E o que os alegra em risos e cantigas.
Em mim os vejo sempre em algo misto
De uma Arcádia bucólica e um Walhalla
Onde ali no bosque ou cá na sala
Erguem brindes de honra ao mais bem-quisto.
Mas sei que o festejado é Dioniso
E não um guerreiro, e meu espanto
É que Orfeu ao lado jaz e eu o diviso
Na forma de um cisne apaixonado
Que no último momento lança um canto
E trai em arte seu amor desesperado.
O poeta e o Logos (de Alma Welt)
Estaremos todos juntos no final?
A humanidade é só uma alma mesma?
Estilhaçada como vidro no quintal,
Espera que um “rewind” a torne ilesa?
Tudo é um mistério sobre a terra,
Se somos sozinhos tudo é inútil,
E o medo persiste e nos aterra,
Fazendo do viver algo bem fútil.
Mas se somos parte do Indizível
O poeta é que teima em decliná-lo
Com frações daquele logos irascível,
Os versos a juntar cada pedaço
Da triste humanidade para amá-Lo
E sentir-se um pouco em Seu regaço...
Os ciganos (de Alma Welt)
Os ciganos chegaram novamente
E sou eu a defendê-los e hospedá-los.
Desde o tempo do Maestro entre a gente
Vou à orla do bosque encontrá-los.
O Vati, que era sábio e tolerante,
Ensinou-me a respeitar e até amar
Aqueles que desfrutam cada instante
E assim parecem nunca trabalhar.
E qual Dalí, grão-mestre surreal,
Direi que, embora um ente laborioso,
Defenderei até a morte o ocioso.
Então percebo que, poeta, sofro igual,
Pois sou vista como ovelha desgarrada
Que se afastou a esmo e... por nada.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Antípodas (de Alma Welt)
Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
Antípodas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para ser Alma, yo misma, que me cabe,
Debo cantar solamente, y rimar
Acordarme en ser y éxtasis de amar
Para vivir como jamás nada se acabe.
Todavía aquél espectro soturno
Insiste en seguirme y acompañar
Aunque sea día y no su turno,
Que la noche es de facto su lugar.
Pero yo sé que los polos se entrelazan
Y para uno ser el otro opongo
Pues que hacen dolor y amenazan.
Pero el misterio en esto acá consiste:
Si en el mundo mi propio sueño pongo,
Sé que es bello, sin embargo ni existe.
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
Antípodas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Para ser Alma, yo misma, que me cabe,
Debo cantar solamente, y rimar
Acordarme en ser y éxtasis de amar
Para vivir como jamás nada se acabe.
Todavía aquél espectro soturno
Insiste en seguirme y acompañar
Aunque sea día y no su turno,
Que la noche es de facto su lugar.
Pero yo sé que los polos se entrelazan
Y para uno ser el otro opongo
Pues que hacen dolor y amenazan.
Pero el misterio en esto acá consiste:
Si en el mundo mi propio sueño pongo,
Sé que es bello, sin embargo ni existe.
Espelhos (de Alma Welt)
Como branca nau entre as ervinhas,
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”
Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.
Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.
E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...
(sem data)
Espejos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Como blanca nave entre las hierbas,
Singlando leve, sin verga y sin lastro,
Yo pienso en ti, oh bella Inês de Castro.
Y el nombre que en el pecho escrito llevas.
Ah! quisiera ser mi misma, toda en mí,
Y ninguna imagen santa respaldar,
Para ver mi propia aura irradiar,
Ser yo misma y sola, esta Alma, así.
Sin embargo la flor cojo a mi alcance,
Y la imagen de Florbela, tan amada,
Me lanza en otro tiempo, en otro lance.
Y yo vagueo entre flores y tubérculos
Haciendo del Tiempo mi morada
En este juego de almas y de espéculos.
_____________________________
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”
Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.
Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.
E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...
(sem data)
Espejos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Como blanca nave entre las hierbas,
Singlando leve, sin verga y sin lastro,
Yo pienso en ti, oh bella Inês de Castro.
Y el nombre que en el pecho escrito llevas.
Ah! quisiera ser mi misma, toda en mí,
Y ninguna imagen santa respaldar,
Para ver mi propia aura irradiar,
Ser yo misma y sola, esta Alma, así.
Sin embargo la flor cojo a mi alcance,
Y la imagen de Florbela, tan amada,
Me lanza en otro tiempo, en otro lance.
Y yo vagueo entre flores y tubérculos
Haciendo del Tiempo mi morada
En este juego de almas y de espéculos.
_____________________________
domingo, 4 de outubro de 2009
Anti-receita do poeta (de Alma Welt)
O poeta não vive o “dia a dia”,
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.
Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.
Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.
E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...
(sem data)
Contra-receta del poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
El poeta no vive el “día a día”
La rutina, el hastío, se tu quieres.
Bajo el signo de la atroz melancolía
Todavía no deshoja “mal-me-quieres”
No ora o pontifica y hace reparos,
Alejándose de reglas y de códigos
El poeta hace cuña entre los raros
Y se alza mejor en medio a pródigos.
Evita sermones de costumbres
O causas y misiones a abrazar…
No pretende a nadie llevar lumes
Y si el poema nace, que sorpresa !
(jamás sale lo que está a esperar)
Nueva mirada a la faz de la belesa…
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.
Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.
Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.
E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...
(sem data)
Contra-receta del poeta (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
El poeta no vive el “día a día”
La rutina, el hastío, se tu quieres.
Bajo el signo de la atroz melancolía
Todavía no deshoja “mal-me-quieres”
No ora o pontifica y hace reparos,
Alejándose de reglas y de códigos
El poeta hace cuña entre los raros
Y se alza mejor en medio a pródigos.
Evita sermones de costumbres
O causas y misiones a abrazar…
No pretende a nadie llevar lumes
Y si el poema nace, que sorpresa !
(jamás sale lo que está a esperar)
Nueva mirada a la faz de la belesa…
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Amor e Arte (de Alma Welt)

Alma- desenho a pincel de Guilherme de Faria
Amor e Arte (de Alma Welt)
Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.
Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho
É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.
Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.
(sem data)
Amor y Arte (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Del divino los nombres muchos son,
Todavía el Amor es el primero
Con el arte, un violín de bello ton,
El poético real y verdadero.
Pasar por la vida como un canto
Un poema, un dibujo, un trazo ileso
Que tengan del amor el mismo encanto
Y se quiera rastrear como un sabueso
Es marca antigua del artista, distintiva
Por la cual él paga un alto precio,
Es don que trae de Dios la nota viva.
Entonces canta el alma y sus trazos,
La palabra recupera su aprecio,
Y de pronto vida y muerte dan abrazos.
Abramos as janelas (de Alma Welt)
Abramos as janelas, meu irmão!
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.
Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.
Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.
A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e imediatamente o verti para o idioma castelhano:
Abramos las ventanas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Abramos las ventanas, mi hermano!
La vida no requiere esa penumbra.
Los muertos agitaran ya su mano
Y ahora están bien bajo la tundra.
Nuestro padre era alegre, bonachón,
Y no un melancólico cualquiera.
Nuestra madre, lo sabes, una fiera,
Pero ahora él ya no acepta su tacón.
Nuestra índole es clara, luminosa
No hemos sido hechos para el llanto
Ni culpas ni tampoco simple glosa.
La verdad estaba allí en nuestro prado:
La tierra los cubría con su manto
Y yo sentía tus caricias, disfrazado…
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.
Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.
Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.
A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e imediatamente o verti para o idioma castelhano:
Abramos las ventanas (de Alma Welt)
(versión en castellano de Lucia Welt)
Abramos las ventanas, mi hermano!
La vida no requiere esa penumbra.
Los muertos agitaran ya su mano
Y ahora están bien bajo la tundra.
Nuestro padre era alegre, bonachón,
Y no un melancólico cualquiera.
Nuestra madre, lo sabes, una fiera,
Pero ahora él ya no acepta su tacón.
Nuestra índole es clara, luminosa
No hemos sido hechos para el llanto
Ni culpas ni tampoco simple glosa.
La verdad estaba allí en nuestro prado:
La tierra los cubría con su manto
Y yo sentía tus caricias, disfrazado…
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A Arca insensata (de Alma Welt)
Construir minha Arca de poesia
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.
Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.
Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?
Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...
(sem data)
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.
Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.
Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?
Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...
(sem data)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O Turbilhão (de Alma Welt)
Tem dias que me vê a pradaria
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,
Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...
Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?
Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...
02/10/2005
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,
Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...
Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?
Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...
02/10/2005
Balanço final (de Alma Welt)
Quão colhemos nós dourados pomos
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude
Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.
Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,
Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...
(sem data)
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude
Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.
Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,
Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...
(sem data)
Noites retornadas (de Alma Welt)
Noites retornadas na memória!
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão
Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida
E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas
Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...
(sem data)
Nota
Descobri esta madrugada este soneto inédito na Arca da Alma, importante no sentido de evocação das lutas internas que ocorreram no seio da família Welt pela herança da estância, o casarão e o vinhedo, depois da morte do Vati, como chamávamos o nosso pai. Quem quiser conhecer esta nova saga, a dos Welt, neste Pampa a que viemos, e a luta pela herança do nosso avô, recomendo que leia o romance A Herança , que publiquei inteiro num dos 36 blogs da Alma (ver link O romance a Herança de Alma Welt)(Lucia Welt)
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão
Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida
E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas
Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...
(sem data)
Nota
Descobri esta madrugada este soneto inédito na Arca da Alma, importante no sentido de evocação das lutas internas que ocorreram no seio da família Welt pela herança da estância, o casarão e o vinhedo, depois da morte do Vati, como chamávamos o nosso pai. Quem quiser conhecer esta nova saga, a dos Welt, neste Pampa a que viemos, e a luta pela herança do nosso avô, recomendo que leia o romance A Herança , que publiquei inteiro num dos 36 blogs da Alma (ver link O romance a Herança de Alma Welt)(Lucia Welt)
domingo, 27 de setembro de 2009
O amor guardado (de Alma Welt)
O primeiro amor, eternizado
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).
Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).
Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
Meu mastim (de Alma Welt)
Longe ladra o mastim fiel da casa
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.
Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,
Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,
E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.
(sem data)
Nota
Descobri agora de manhã este curioso e encantador soneto na Arca da Alma. Minha irmã amava os animais: seus cães, seus cavalos e toda a fauna destes prados e do mundo. E naturalmente os animais lhe correspondiam, de maneira nítida e comovente de se ver. (Lucia Welt)
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.
Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,
Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,
E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.
(sem data)
Nota
Descobri agora de manhã este curioso e encantador soneto na Arca da Alma. Minha irmã amava os animais: seus cães, seus cavalos e toda a fauna destes prados e do mundo. E naturalmente os animais lhe correspondiam, de maneira nítida e comovente de se ver. (Lucia Welt)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Revelações (de Alma Welt)
O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.
A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.
Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino
Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.
(sem data)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O cavaleiro (de Alma Welt)
Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Nieblas ( de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
La niebla que planea en la estancia
La revela por su falso letargo,
Dos siglos de espera y de constancia
La hicieran firme, siempre, al largo.
¿Quien llega al caserón y sus soleras,
Qué espuelas ya retiñen en la baranda,
Qué dulces ojos de casadas y solteras,
Bajan como uno a veces manda?
La niebla revive áureos tiempos,
Las risas y esperanzas se renuevan,
Todavía no habían contratiempos.
Garibaldi en la sala entra con Anita,
Quizá a la familia ambos conmuevan,
La pareja no será acá maldita.
Névoas (original de Alma Welt)
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
La niebla que planea en la estancia
La revela por su falso letargo,
Dos siglos de espera y de constancia
La hicieran firme, siempre, al largo.
¿Quien llega al caserón y sus soleras,
Qué espuelas ya retiñen en la baranda,
Qué dulces ojos de casadas y solteras,
Bajan como uno a veces manda?
La niebla revive áureos tiempos,
Las risas y esperanzas se renuevan,
Todavía no habían contratiempos.
Garibaldi en la sala entra con Anita,
Quizá a la familia ambos conmuevan,
La pareja no será acá maldita.
Névoas (original de Alma Welt)
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
Seis Sonetos gaúchos de Alma Welt
Acabo de descobrir estes seis sonetos da Alma, inéditos, manuscritos num pequeno bloco. Vou em seguida publicá-los no blog dos "Gauchescos da Alma" (vide link).
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
terça-feira, 22 de setembro de 2009
O Jogral (de Alma Welt)

O Jogral (de Alma Welt)
Para prosseguir minha jornada
Abro mão de certos artifícios,
Como os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,
Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira,
Eis a maior vaidade! -vós direis-
Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis.
Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.
(sem data)
Nota
No tesouro da inesgotável Arca da Alma, descobri esta manhã este soneto inédito, que estou persuadida de tratar-se de uma obra-prima, e logo o verti para o castelhano:
El Juglar (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
Para proseguir en mi jornada
Abro mano de unos artificios,
Los de la vanidad declarada,
Los cuales demandan sacrificios.
Pero sigo plantando en el ahora,
Frutos del porvenir, el manzano
Dorado, sin embargo, de una aurora
Vislumbrada por mi, bajo mi mano,
Esto es la vanidad! –ustedes dirán-
Todo es vano, la muerte va matando
Hasta el poder del rey y del sultán.
Pero yo, aunque niña, he constatado
Que el juglar del rey sigue cantando
Y su poder jamás ha terminado.
Ilustração:O Jogral- aquarela de Guilherme de Faria
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Nove Sonetos recém-descobertos da Alma
Prece (de Alma Welt)
Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...
Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais
De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos
E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!
A jornada de outono (de Alma Welt)
Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,
De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.
Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...
Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...
14/01/2007
Da Saudade (Alma Welt)
“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,
A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.
Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...
Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.
Iniciação (de Alma Welt)
À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque
Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:
A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.
Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.
(sem data)
Perdidos Amores (de Alma Welt)
Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,
Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...
Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!
E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!
O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser
E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.
Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal
Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...
(sem data)
Revelação (de Alma Welt)
Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação
Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.
Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.
Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...
Sonetos (de Alma Welt)
Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.
Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.
"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"
Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.
O ananque das coisas (de Alma Welt)
A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.
Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.
Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.
O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...
Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...
Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais
De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos
E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!
A jornada de outono (de Alma Welt)
Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,
De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.
Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...
Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...
14/01/2007
Da Saudade (Alma Welt)
“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,
A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.
Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...
Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.
Iniciação (de Alma Welt)
À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque
Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:
A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.
Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.
(sem data)
Perdidos Amores (de Alma Welt)
Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,
Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...
Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!
E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!
O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser
E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.
Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal
Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...
(sem data)
Revelação (de Alma Welt)
Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação
Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.
Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.
Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...
Sonetos (de Alma Welt)
Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.
Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.
"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"
Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.
O ananque das coisas (de Alma Welt)
A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.
Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.
Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.
O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cabra-Cega (de Alma Welt)
A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.
(sem data)
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.
(sem data)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O Nascimento de Vênus (de Alma Welt)
.jpg)
O Nascimento de Vênus - óleo s/tela do mestre Guilherme de Faria, de 150x150cm inspirado pela visão da Alma no poço da cascata.
Convidei o grande artista, velho mestre,
Pra acompanhar-me ao poço da cascata
Onde após deambulação breve e eqüestre
Já planejo banhar nua, por bravata...
E chegando nesse sítio dos meus deuses,
Na praínha de cascalho me desnudo
Ao deixar cair meus panos como adeuses
E emergindo branca e pura disso tudo,
Entro assim nas águas tépidas, a vau,
Até a linha do meu púbis depilado,
Como nostálgica, leve e alva nau.
Então, nesse momento comovido
Julguei ter o pintor isto exclamado:
“O Nascimento de Vênus revivido!”
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto cujo episódio narrado presumi ter sido o que inspirou o quadro do mestre pintor paulistano Guilherme de Faria, que foi amigo, descobridor, ilustrador e lançador da Alma, e a quem ela convidou para uma temporada aqui na estância no final do ano de 2001.(Lucia Welt)
O Diapasão (de Alma Welt)
Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
Nota
Mais um soneto inédito encontrado na fabulosa Arca da Alma, e que deve por certo pertencer aos "Pampianos da Alma". Acredito que os sonetos inéditos da Alma que se acham na Arca ainda por conferir e compilar, farão seu número passar de 1.500. Convenhamos: é prodigioso! Principalmente pela alta qualidade de cada um, formando um corpo de obra tão homogêneo e ao mesmo tempo tão diversicado de assuntos ou temáticas. Trata-se realmente de uma obra universal, apesar da sua raíz gaúcha e rural. (Lucia Welt)
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
Nota
Mais um soneto inédito encontrado na fabulosa Arca da Alma, e que deve por certo pertencer aos "Pampianos da Alma". Acredito que os sonetos inéditos da Alma que se acham na Arca ainda por conferir e compilar, farão seu número passar de 1.500. Convenhamos: é prodigioso! Principalmente pela alta qualidade de cada um, formando um corpo de obra tão homogêneo e ao mesmo tempo tão diversicado de assuntos ou temáticas. Trata-se realmente de uma obra universal, apesar da sua raíz gaúcha e rural. (Lucia Welt)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Vida e Arte (de Alma Welt)
Creio que uma vida é bem vivida
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.
Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...
Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.
Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!
12/01/2007
Nota
Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.
Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...
Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.
Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!
12/01/2007
Nota
Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)
Amante Póstumo- Soneto de E.M. à Alma
O excelente poeta E.M. acaba de me enviar por e.mail esta belíssima homenagem à Musa minha irmã. Creio que Alma estará feliz e gratificada com isso, onde ela estiver.
AMANTE PÓSTUMO
Deitado em minha cama com um tomo
De versos de Alma Welt sobre o colo
Reajo às sensações e me descolo
Da realidade e fauno ser assomo.
O pensamento, fera que não domo,
Excita-se e recorro ao consolo
Do delírio, possuindo sobre o solo
O corpo revivido, nem sei como.
E no êxtase puríssimo do sonho
Dentro de seus "poemas" eu me ponho,
Sem parar o delírio um só instante.
Não profano a memória de uma morta
Amando-a, se seu verso a razão corta,
E o leitor transforma em seu amante.
Às vezes, os poetas sequer imaginam o poder intemporal de suas obras e a influência que estas exercem nos leitores contemporâneos e futuros. Alma Welt ainda cumpre a missão de arrebatar pelas palavras. Se acreditarmos, como Guimarães Rosa, que as pessoas não morrem, se encantam, a guria dos pampas continua mais do que nunca viva, encantada, certamente, mas encantando seus tantos admiradores.
E.M.
Blumenau -SC
AMANTE PÓSTUMO
Deitado em minha cama com um tomo
De versos de Alma Welt sobre o colo
Reajo às sensações e me descolo
Da realidade e fauno ser assomo.
O pensamento, fera que não domo,
Excita-se e recorro ao consolo
Do delírio, possuindo sobre o solo
O corpo revivido, nem sei como.
E no êxtase puríssimo do sonho
Dentro de seus "poemas" eu me ponho,
Sem parar o delírio um só instante.
Não profano a memória de uma morta
Amando-a, se seu verso a razão corta,
E o leitor transforma em seu amante.
Às vezes, os poetas sequer imaginam o poder intemporal de suas obras e a influência que estas exercem nos leitores contemporâneos e futuros. Alma Welt ainda cumpre a missão de arrebatar pelas palavras. Se acreditarmos, como Guimarães Rosa, que as pessoas não morrem, se encantam, a guria dos pampas continua mais do que nunca viva, encantada, certamente, mas encantando seus tantos admiradores.
E.M.
Blumenau -SC
domingo, 13 de setembro de 2009
Como Florbela (de Alma Welt)
Não me perderás, ó meu irmão
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.
Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.
Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar
Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar nesta manhã de domingo este soneto na Arca da Alma, soneto este que contrasta no tom com o anteriormente postado (A Vindima). Por curiosidade devo revelar que o manuscrito estava rasurado no terceiro verso da primeira quadra. A primeira versão do verso, riscada, dava para ler e era assim: "Como dizia a Florbela em dramalhão".. Com sua sabedoria técnica, Alma percebeu que não deveria ironisar Florbela Espanca nem por graça, mesmo porque ela era grande admiradora da genial sonetista portuguesa. (Lucia Welt)
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.
Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.
Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar
Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar nesta manhã de domingo este soneto na Arca da Alma, soneto este que contrasta no tom com o anteriormente postado (A Vindima). Por curiosidade devo revelar que o manuscrito estava rasurado no terceiro verso da primeira quadra. A primeira versão do verso, riscada, dava para ler e era assim: "Como dizia a Florbela em dramalhão".. Com sua sabedoria técnica, Alma percebeu que não deveria ironisar Florbela Espanca nem por graça, mesmo porque ela era grande admiradora da genial sonetista portuguesa. (Lucia Welt)
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
A Vindima (de Alma Welt)
Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
03/08/2002
Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
03/08/2002
Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)
terça-feira, 8 de setembro de 2009
A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)
De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...
Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória
Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos
Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...
17/08/2006
De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...
Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória
Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos
Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...
17/08/2006
domingo, 6 de setembro de 2009
Amor guerreiro (de Alma Welt)
O amor triunfante que concebo
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,
Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.
Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência
Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,
Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.
Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência
Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)
sábado, 5 de setembro de 2009
Dupla Saga, ou Sonhos do casarão (de Alma Welt)
Quando à noite o casarão dormita
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,
Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.
Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço
E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...
(sem data)
Nota
Acabo encontrar na Arca mais esta homenagem à nossa querida Matilde. Só não concordo com a Alma chamar nossa família de esquisita (risos). Vou em seguida postar em definitivo este soneto um tanto sinistro no blog Sonetos de Mistérios da Alma.(Lucia Welt)
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,
Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.
Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço
E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...
(sem data)
Nota
Acabo encontrar na Arca mais esta homenagem à nossa querida Matilde. Só não concordo com a Alma chamar nossa família de esquisita (risos). Vou em seguida postar em definitivo este soneto um tanto sinistro no blog Sonetos de Mistérios da Alma.(Lucia Welt)
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Sobreviveremos (de Alma Welt)
Sobreviveremos, Rodo, meu amor
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,
Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos
Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados
Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...
15/01/2007
Nota
Mais um tocante soneto de amor, que acabo de descobrir, inédito, na Arca da Alma.
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,
Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos
Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados
Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...
15/01/2007
Nota
Mais um tocante soneto de amor, que acabo de descobrir, inédito, na Arca da Alma.
domingo, 30 de agosto de 2009
De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)
Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.
Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.
Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!
Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.
Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.
Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!
Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)
sábado, 29 de agosto de 2009
Ulisses (de Alma Welt)
Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência
De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,
Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.
Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...
05/01/2007
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)
Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras
Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme
Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)
Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Cai o Pano (de Alma Welt)
Suspeito que após a minha morte
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem
Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.
Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas
A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...
16/01/2007
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem
Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.
Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas
A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...
16/01/2007
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Vida em verso (de Alma Welt)
Constato que possuo dupla vida
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa, e que postarei em seguida nos Metafísicos da Alma. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Nota
Mais um um notável soneto recém-encontrado na Arca da poetisa, e que postarei em seguida nos Metafísicos da Alma. Alma reafirma mais uma vez, com a bela metáfora do mito de Narciso e da ninfa Eco, a sua fé na realidade da Poesia, na consistência de uma vivência em dimensão poética, como propunha Novalis.(Lucia Welt)
domingo, 23 de agosto de 2009
As perguntas... (de Alma Welt)
Longas vigílias, sofridas, da razão,
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que percebi ser inédito, e me apressei em postá-lo no blog dos Metafísicos da Alma. O espectro próximo da Morte encontrava ressonâncias no espírito filosófico agnóstico da Poetisa. Entretanto, ela, como poeta, era consciente de não ter respostas, somente perguntas... (Lucia Welt)
Em que a mente luta contra o fado,
O triste destino em comunhão
Do homem como ser desamparado.
Somos para a morte e por certo
É esse o grande laço que nos une
E talvez o segredo do deserto
Com que às vezes o coração nos pune.
No fatal desenlace somos unos
Ou, ao contrário, é a suprema solidão?
Quais os signos e momentos oportunos
Onde a revelação está, se nos escapa?
A resposta é uma cruz, uma canção,
Ou se encontra em nós sob uma capa?
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, que percebi ser inédito, e me apressei em postá-lo no blog dos Metafísicos da Alma. O espectro próximo da Morte encontrava ressonâncias no espírito filosófico agnóstico da Poetisa. Entretanto, ela, como poeta, era consciente de não ter respostas, somente perguntas... (Lucia Welt)
Soneto de boêmia (de Alma Welt)
Encontrei o meu amor pelas estradas
E o fiz entrar no meu jardim.
Plantei-o entre as flores mais amadas
E esperei ele florir como o jasmim
Que de noite faz sentir o seu perfume
E me faz descer da minha mansarda
Atravessando o casarão quase sem lume
Pra não despertar a quem me guarda.
E assim, à luz da lua alcoviteira,
Que delícias me são oferecidas!
Outras tantas perscruto sorrateira...
Então, ó sol, eu peço: não me peças
Abandonar as minhas noites proibidas
Onde o meu jasmim reina às avessas...
05/11/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca da Alma este encantador soneto de sabor quase popular, com um declarado tom de malícia ingênua, e como sempre, com velada conotação alegórica relativa ao amor proibido da Alma pelo nosso irmão Rodo, com quem ela se encontrava de noite, no jardim, no verão, descendo da mansarda que era o quarto dele, na época mais proibida e vigiada desse amor, quando nossa mãe (a guarda) era viva.(Lucia Welt)
E o fiz entrar no meu jardim.
Plantei-o entre as flores mais amadas
E esperei ele florir como o jasmim
Que de noite faz sentir o seu perfume
E me faz descer da minha mansarda
Atravessando o casarão quase sem lume
Pra não despertar a quem me guarda.
E assim, à luz da lua alcoviteira,
Que delícias me são oferecidas!
Outras tantas perscruto sorrateira...
Então, ó sol, eu peço: não me peças
Abandonar as minhas noites proibidas
Onde o meu jasmim reina às avessas...
05/11/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca da Alma este encantador soneto de sabor quase popular, com um declarado tom de malícia ingênua, e como sempre, com velada conotação alegórica relativa ao amor proibido da Alma pelo nosso irmão Rodo, com quem ela se encontrava de noite, no jardim, no verão, descendo da mansarda que era o quarto dele, na época mais proibida e vigiada desse amor, quando nossa mãe (a guarda) era viva.(Lucia Welt)
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Post Mortem (de Alma Welt)
Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
Nota
Encontrei recentemente na Arca da Alma este soneto esotérico em que a Poetisa parece falar no seu "Post Mortem", isto é, falando do além. Comoveu-me ela lembrar desta maneira os nossos queridos Galdério e Matilde, que são uruguaios de nascimento e trabalham conosco aqui na estância desde 1970. Mostrei o soneto para eles, e Matilde, que foi babá da Alma, caiu em prantos, enquanto Galdério disfarçava as lágrimas.(Lucia Welt)
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
Nota
Encontrei recentemente na Arca da Alma este soneto esotérico em que a Poetisa parece falar no seu "Post Mortem", isto é, falando do além. Comoveu-me ela lembrar desta maneira os nossos queridos Galdério e Matilde, que são uruguaios de nascimento e trabalham conosco aqui na estância desde 1970. Mostrei o soneto para eles, e Matilde, que foi babá da Alma, caiu em prantos, enquanto Galdério disfarçava as lágrimas.(Lucia Welt)
A lição do guarani (de Alma Welt)
Permanecer fiel à vida e aceitar
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O mestre (de Alma Welt)
As coisas não ocorridas
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos
Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão
Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza:
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.
No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota...
Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)
atravancam o caminho
Livre-se do ogro
do malogro
Assim dizia um mestre
que inventei
e que se dedicava a fazer nada
com solene inflexão
nos detalhes
Eu ria e ria
com meu mestre
que era a parte enternecida
do meu sonho
detestava não encontrar
o café pronto
e tinha pouca tolerância
com os tolos
Bah! Como dançávamos e ríamos
nos dias de verão no meu jardim
e nas noites também
antes de saber que ele me amava
e nisso consistia o seu saber,
que no mais era um amável
charlatão
Não precisei mandá-lo embora
o meu mestre
Ele se foi em noite conturbada
em que eu batia forte na janela
e não me atreveria a detê-lo
e menos seguí-lo
na tempestade
pois ele mesmo me ensinara
o comodismo
a não intervir na correnteza:
o sábio fluxo das coisas
que simplesmente são.
No fundo
não perdi meu tempo
acalentando meu bizarro mestre
(que todos os mestres bem o são)
já que não podemos mesmo ensinar
e menos aprender
pois não sabemos ainda
o que é a Morte
e o misterioso porquê
disto tudo
enquanto a chuva cai
e a relva brota...
Nota
Acabo de encontrar este estranho poema na Arca da Alma, e que me pareceu humorístico. O humor da Alma tinha um toque verdadeiramente bizarro, mas não podemos chamá-lo de "nonsense", pois ela parecia saber bem o que queria dizer. Suas certezas eram muito fortes, apesar de tudo, de toda a perplexidade ante o mistério fundamental da existência. ( Lucia Welt)
terça-feira, 28 de julho de 2009
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
Republico aqui, por encontrá-lo e com satisfação poder reafirmá-lo, o poema que escrevi no dia 01/08/2007, em homenagem ao poeta mineiro Claudio Bento, grande Vate do Vale do Jequitinhonha, que por um período me fez a honra de declarar-me sua "musa" e me dedicar uma série de poemas do seu magnífico Vale. Aqui está o meu primeiro poema a ele:
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
(Para Claudio Bento, poeta do Jequitinhonha)
Desde este longínquo sul te envio o pensamento
que atravessa o meu pampa rumo norte
para cortando planícies, montes e chapadas,
atrás das montanhas de tua Minas, encontrar-te no teu vale encantado.
Tu, poeta do rio sinuoso, dos canoeiros, pescadores
e suas praias ribeirinhas de brancas areias,
tu, poeta das canções dos quilombolas
que ecoam de teu sangue ancestral, quente
desde África e seus leões, seus orixás,
tu, poeta bento, que tomaste o cálice
do sangue de tua terra mineira e que te soube tão doce
que o cantaste com leveza e gratidão; que te encantas
com teu vale e o levas encantado, do virtual teclado
ao quatro ventos da Pátria, com que ternura e força
evocas tua infância no rincão que tornas universal na nossa mente!
Vai, Bento poeta, com teu estandarte da terra
em "negro mastro" colorindo a noite e seu lácteo rio
e trazendo-nos sonhos das Minas, seu ouro,
seu cortejo de lendas e mistérios, suas inconfidências
sussurradas entre atentas paredes traidoras...
Diante de nós desfilam os encantos das Gerais
que um dia celebrarão o seu poeta do vale entre os maiores.
Vai, poeta bento, do festivo vale para o belo horizonte
e desde lá para estas pastagens onde corre o frio e sibilante minuano
e onde nossa Alma galopa soluçando ou cantando
consoante as estações e seus pendores.
Escreve, também o pampa receberá teus versos, tu que descobrindo a Alma
te tornaste seu parceiro de um pastoreio de estrelas,
Lança teus versos, poeta, que unindo o verde vale
do teu coração ao pampa do meu, me fizeste grande honra
e tua Musa surpresa e agradecida...
Lucia Welt
01/08/2007
AO POETA DO VALE ENCANTADO (de Lucia Welt)
(Para Claudio Bento, poeta do Jequitinhonha)
Desde este longínquo sul te envio o pensamento
que atravessa o meu pampa rumo norte
para cortando planícies, montes e chapadas,
atrás das montanhas de tua Minas, encontrar-te no teu vale encantado.
Tu, poeta do rio sinuoso, dos canoeiros, pescadores
e suas praias ribeirinhas de brancas areias,
tu, poeta das canções dos quilombolas
que ecoam de teu sangue ancestral, quente
desde África e seus leões, seus orixás,
tu, poeta bento, que tomaste o cálice
do sangue de tua terra mineira e que te soube tão doce
que o cantaste com leveza e gratidão; que te encantas
com teu vale e o levas encantado, do virtual teclado
ao quatro ventos da Pátria, com que ternura e força
evocas tua infância no rincão que tornas universal na nossa mente!
Vai, Bento poeta, com teu estandarte da terra
em "negro mastro" colorindo a noite e seu lácteo rio
e trazendo-nos sonhos das Minas, seu ouro,
seu cortejo de lendas e mistérios, suas inconfidências
sussurradas entre atentas paredes traidoras...
Diante de nós desfilam os encantos das Gerais
que um dia celebrarão o seu poeta do vale entre os maiores.
Vai, poeta bento, do festivo vale para o belo horizonte
e desde lá para estas pastagens onde corre o frio e sibilante minuano
e onde nossa Alma galopa soluçando ou cantando
consoante as estações e seus pendores.
Escreve, também o pampa receberá teus versos, tu que descobrindo a Alma
te tornaste seu parceiro de um pastoreio de estrelas,
Lança teus versos, poeta, que unindo o verde vale
do teu coração ao pampa do meu, me fizeste grande honra
e tua Musa surpresa e agradecida...
Lucia Welt
01/08/2007
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Aos forasteiros (de Alma Welt)
Na Santa Gertrudes, velha estância,
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,
Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,
Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*
Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...
08/09/2006
Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...
*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".
*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)
Chorem fontes (de Alma Welt)
Chorem fontes, liberem seus soluços,
Deste dia não verei o entardecer!
Quem como eu e sem rebuços
Soube cantar a vida e então morrer?
Venha, ó vento, estale o casarão!
Galdério, sele a égua, ou melhor, não!
Montarei em pelo eu também nua
Que tanto assim vaguei à luz da lua.
Quero correr o prado assim, aos gritos,
Para a alegre passarada me saudar
(ainda que ouça da Matilde novos pitos)
Em seguida irei ao poço da cascata
Para nuinha meu mergulho praticar
Como outrora, com meu Rodo, por bravata...
17/01/2007
Nota
!!!!!!!!!
Deste dia não verei o entardecer!
Quem como eu e sem rebuços
Soube cantar a vida e então morrer?
Venha, ó vento, estale o casarão!
Galdério, sele a égua, ou melhor, não!
Montarei em pelo eu também nua
Que tanto assim vaguei à luz da lua.
Quero correr o prado assim, aos gritos,
Para a alegre passarada me saudar
(ainda que ouça da Matilde novos pitos)
Em seguida irei ao poço da cascata
Para nuinha meu mergulho praticar
Como outrora, com meu Rodo, por bravata...
17/01/2007
Nota
!!!!!!!!!
O Último Verão (de Alma Welt)
Este é o verão da despedida,
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,
E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...
Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão
A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...
10/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este dramático soneto inédito, dos últimos dias da Alma, na sua Arca do sótão. É difícil conter as lágrimas... (Lucia Welt)
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,
E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...
Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão
A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...
10/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este dramático soneto inédito, dos últimos dias da Alma, na sua Arca do sótão. É difícil conter as lágrimas... (Lucia Welt)
domingo, 19 de julho de 2009
Existencial (de Alma Welt)
Guria eu vivia em sintonia
Com o amor que eu via à minha volta
Desde os talos de capim da pradaria
Até os peões em minha escolta
Quando cavalgava além da cerca
Que devia isolar o grande touro
Que por sua vez era um agouro
De que a vida e assim amor se perca.
Mas confesso não mais logro conciliar
Consolos e ameaças do destino
E as vãs contradições harmonizar
Entre amor e medo, vida e morte
Que mantêm o limite muito fino
Onde se situa a nossa sorte...
(sem data)
Com o amor que eu via à minha volta
Desde os talos de capim da pradaria
Até os peões em minha escolta
Quando cavalgava além da cerca
Que devia isolar o grande touro
Que por sua vez era um agouro
De que a vida e assim amor se perca.
Mas confesso não mais logro conciliar
Consolos e ameaças do destino
E as vãs contradições harmonizar
Entre amor e medo, vida e morte
Que mantêm o limite muito fino
Onde se situa a nossa sorte...
(sem data)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Eternidade (de Alma Welt)
Haverá outra vida?
Não há como ter certeza...
Toda fé não é senão ingenuidade,
doce candura das almas.
Suspeito e temo que a morte seja o Nada
e por isso apavorante.
Todavia creio na perenidade da Poesia,
da palavra do poeta,
na imortalidade entre os homens.
Esta só me basta... enquanto idéia.
Que mais se pode querer?
É pouco restar entre os homens
como seu igual
e como intérprete
de suas alegrias e dores,
como seu bardo?
Não, por certo não é pouco...
E vós que almejais a vida eterna
deveríeis começar por plantar robustas árvores
que lancem poderosas raízes
e frutifiquem...
Como os bons poetas
e os artistas em geral
o fazem
cheios de fé...
15/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)
Não há como ter certeza...
Toda fé não é senão ingenuidade,
doce candura das almas.
Suspeito e temo que a morte seja o Nada
e por isso apavorante.
Todavia creio na perenidade da Poesia,
da palavra do poeta,
na imortalidade entre os homens.
Esta só me basta... enquanto idéia.
Que mais se pode querer?
É pouco restar entre os homens
como seu igual
e como intérprete
de suas alegrias e dores,
como seu bardo?
Não, por certo não é pouco...
E vós que almejais a vida eterna
deveríeis começar por plantar robustas árvores
que lancem poderosas raízes
e frutifiquem...
Como os bons poetas
e os artistas em geral
o fazem
cheios de fé...
15/01/2007
Nota
Acabo de encontrar este poema inédito na Arca da Alma. Um importante depoimento, que expressa com clareza, de maneira quase coloquial, o pensamento da Alma sobre o tema, conquanto também sua perplexidade diante do enígma da Eternidade. Como era de se esperar, ela afirma aqui, mais uma vez, a sua poderosa "profissão de fé" na Poesia. (Lucia Welt)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Michael se submetia a plásticas para enfeiar, não para embelezar. (por Lucia Welt)
Michael se submetia a plásticas para enfeiar, não para embelezar. (por Lucia Welt)
Uma coisa que me parece óbvia, embora absolutamente ninguém tenha abordado a questão por esse ângulo, é que o astro Michael Jackson buscava de maneira provavelmente inconsciente, mas ainda assim deliberada, a feiúra suprema, não a beleza. Esta, a beleza, ele já tinha passado por ela nos anos 80, até 90. E não digo sequer que ele não a reconhecesse e por isso tenha passado do ponto. Não! Ele deve ter reconhecido ter atingido a beleza e a brancura que almejou como um estágio, a fim de mostrá-la ao seu pai e carrasco de seu ego, como se dissesse : “ Vê, eu sou belo, afinal, como tu não reconhecias e tanto querias. Agora verás onde eu mesmo quero chegar!” E prosseguiu se mutilando e deformando em direção àquela caveira dançante em que se metamorfosearia em desafio ao burguês típico e barrigudo que o rejeitara, num clip famoso que todos conhecem, em que ele faz esse burguês literalmente engoli-lo como "monstro" em que ele se revela.
A procura da feiúra, em Michael Jackson, esta sim, é uma tragédia, que reflete a imensa revolta contra a rejeição paterna e as surras que levava desse indivíduo desclassificado que foi o seu pai. Michael, já em “Triller” se apresentava como um cadáver dançante em meio a mortos vivos ("zombies"), demonstrando a sua atração mórbida pelo macabro e pelo terror. Era a sua suprema bravata. Ele elegia a estética do grotesco como um desafio aos que lhe cobraram ser branco, macho ou belo, tudo o que disseram que ele não era por nascimento, mas que haveria de poder comprar, pela força de seu sucesso heróico e conseqüentemente de sua fortuna.
Não, Michael jamais quis ser belo... Quem lhe cobrava isso eram outros, era o seu superego torturante, era uma sociedade idólatra da beleza, do sucesso e da fama. Uma sociedade na verdade antiga nessa idolatria, que já produzira a mais famosa guerra da humanidade, travada em disputa da mulher mais bela do mundo daquela época: Helena de Tróia, cujo rosto “lançou ao mar mil navios”.
Pobre Helena... quanto deve ter sofrido!
Pobre Michael!...
Uma coisa que me parece óbvia, embora absolutamente ninguém tenha abordado a questão por esse ângulo, é que o astro Michael Jackson buscava de maneira provavelmente inconsciente, mas ainda assim deliberada, a feiúra suprema, não a beleza. Esta, a beleza, ele já tinha passado por ela nos anos 80, até 90. E não digo sequer que ele não a reconhecesse e por isso tenha passado do ponto. Não! Ele deve ter reconhecido ter atingido a beleza e a brancura que almejou como um estágio, a fim de mostrá-la ao seu pai e carrasco de seu ego, como se dissesse : “ Vê, eu sou belo, afinal, como tu não reconhecias e tanto querias. Agora verás onde eu mesmo quero chegar!” E prosseguiu se mutilando e deformando em direção àquela caveira dançante em que se metamorfosearia em desafio ao burguês típico e barrigudo que o rejeitara, num clip famoso que todos conhecem, em que ele faz esse burguês literalmente engoli-lo como "monstro" em que ele se revela.
A procura da feiúra, em Michael Jackson, esta sim, é uma tragédia, que reflete a imensa revolta contra a rejeição paterna e as surras que levava desse indivíduo desclassificado que foi o seu pai. Michael, já em “Triller” se apresentava como um cadáver dançante em meio a mortos vivos ("zombies"), demonstrando a sua atração mórbida pelo macabro e pelo terror. Era a sua suprema bravata. Ele elegia a estética do grotesco como um desafio aos que lhe cobraram ser branco, macho ou belo, tudo o que disseram que ele não era por nascimento, mas que haveria de poder comprar, pela força de seu sucesso heróico e conseqüentemente de sua fortuna.
Não, Michael jamais quis ser belo... Quem lhe cobrava isso eram outros, era o seu superego torturante, era uma sociedade idólatra da beleza, do sucesso e da fama. Uma sociedade na verdade antiga nessa idolatria, que já produzira a mais famosa guerra da humanidade, travada em disputa da mulher mais bela do mundo daquela época: Helena de Tróia, cujo rosto “lançou ao mar mil navios”.
Pobre Helena... quanto deve ter sofrido!
Pobre Michael!...
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Sobre o fenômeno da repercussão mundial da morte de Michael Jackson (por Lucia Welt)
Diante das proporções inimagináveis da repercussão da morte do cantor e dançarino “pop” Michael Jackson, arrisco a seguinte análise do fenômeno, começando com uma indagação:
Por quê o impacto emocional e a repercussão na mídia está sendo tão grande, tão desproporcional à própria qualidade do músico, compositor, cantor e dançarino, que ele era? Sim, pois que o Michael era um mero fruto específico de uma vertente da cultura popular norte americana, a meu ver altamente discutível e nem de longe uma arte de primeira classe. Um menino negro sofrido, sem dúvida, que por isso mesmo não queria crescer e que nunca aceitou ou assumiu a sua raça a ponto de querer ser branco e fazer um esforço imenso e patético, doloroso, para se tornar branco, de lábios e nariz finos e cabelo liso. Mas porque sendo um fruto de negação da realidade e portanto não de rebeldia legítima mas de doloroso conformismo, ele mobilizou e mobiliza tantos ainda, após a sua morte? Eu diria que por essa mesma recusa em crescer. Metade da humanidade se identifica com essa recusa, que décadas atrás ganhou o nome de “Síndrome de Peter Pan”. Diante dos horrores da nossa época, fruto da maldade, perversão e brutalidade do chamado “homem adulto e responsável”, devastador da natureza, criador de guerras, concentrador de riquezas e disseminador de miséria, uma imensa legião de homens e mulheres se identifica com esse sonho de permanecer criança, na suposta pureza e inocência desses pequenos seres que fomos, e em que Freud já havia, no entanto, detectado o embrião da violência e da crueldade negadas por nós em nossa mitificação dessa mesma infância.
Essa é, a meu ver, a verdadeira causa do fenômeno universal da repercussão da morte desse ídolo de pés de barro, que sintomática e simbolicamente queria andar para trás, a ponto de fazê-lo estilisticamente em sua dança.
A mídia internacional corrobora esse mito aumentando ou induzindo mesmo proporções universais, já que estamos na era da globalização e conseqüentemente também da banalização. Mas os meios de comunicação, como intermediários que são do inconsciente coletivo não logram auto-analisar-se e nem detectar a causa e a fonte dessa necessidade desesperada das pessoas de se identificarem, a ponto de sacralizarem um menino martirizado, um jovem doente e homem de 50 anos visivelmente deteriorado e trágico em sua recusa do amadurecimento e que cuja revolta se manifestava de maneira equivocada, com a afirmação de ser “bad” (mau), pertencer a gangs de meninos delinqüentes em recintos visivelmente subterrâneos, cantando e dançando com agressividade marginal, com ríctus de ódio no rosto e gestos sincopados, espasmódicos e agudos. Tudo o que afinal corrobora a era de ódios e preconceitos em que estamos mergulhados.
Triste mundo o que faz de um menino magoado o seu herói!...
(Lucia Welt)
Por quê o impacto emocional e a repercussão na mídia está sendo tão grande, tão desproporcional à própria qualidade do músico, compositor, cantor e dançarino, que ele era? Sim, pois que o Michael era um mero fruto específico de uma vertente da cultura popular norte americana, a meu ver altamente discutível e nem de longe uma arte de primeira classe. Um menino negro sofrido, sem dúvida, que por isso mesmo não queria crescer e que nunca aceitou ou assumiu a sua raça a ponto de querer ser branco e fazer um esforço imenso e patético, doloroso, para se tornar branco, de lábios e nariz finos e cabelo liso. Mas porque sendo um fruto de negação da realidade e portanto não de rebeldia legítima mas de doloroso conformismo, ele mobilizou e mobiliza tantos ainda, após a sua morte? Eu diria que por essa mesma recusa em crescer. Metade da humanidade se identifica com essa recusa, que décadas atrás ganhou o nome de “Síndrome de Peter Pan”. Diante dos horrores da nossa época, fruto da maldade, perversão e brutalidade do chamado “homem adulto e responsável”, devastador da natureza, criador de guerras, concentrador de riquezas e disseminador de miséria, uma imensa legião de homens e mulheres se identifica com esse sonho de permanecer criança, na suposta pureza e inocência desses pequenos seres que fomos, e em que Freud já havia, no entanto, detectado o embrião da violência e da crueldade negadas por nós em nossa mitificação dessa mesma infância.
Essa é, a meu ver, a verdadeira causa do fenômeno universal da repercussão da morte desse ídolo de pés de barro, que sintomática e simbolicamente queria andar para trás, a ponto de fazê-lo estilisticamente em sua dança.
A mídia internacional corrobora esse mito aumentando ou induzindo mesmo proporções universais, já que estamos na era da globalização e conseqüentemente também da banalização. Mas os meios de comunicação, como intermediários que são do inconsciente coletivo não logram auto-analisar-se e nem detectar a causa e a fonte dessa necessidade desesperada das pessoas de se identificarem, a ponto de sacralizarem um menino martirizado, um jovem doente e homem de 50 anos visivelmente deteriorado e trágico em sua recusa do amadurecimento e que cuja revolta se manifestava de maneira equivocada, com a afirmação de ser “bad” (mau), pertencer a gangs de meninos delinqüentes em recintos visivelmente subterrâneos, cantando e dançando com agressividade marginal, com ríctus de ódio no rosto e gestos sincopados, espasmódicos e agudos. Tudo o que afinal corrobora a era de ódios e preconceitos em que estamos mergulhados.
Triste mundo o que faz de um menino magoado o seu herói!...
(Lucia Welt)
quarta-feira, 24 de junho de 2009
As pequenas flores do riso ( de Alma Welt)
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho... não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
_________________________
22/08/2005
Nota
Como gosto especialmente deste texto exemplar da Alma, resolvi republicá-lo aqui, uma vez que ele se encontra publicado há muitos meses no blog Crônicas de Alma Welt.(Lucia Welt)
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho... não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
_________________________
22/08/2005
Nota
Como gosto especialmente deste texto exemplar da Alma, resolvi republicá-lo aqui, uma vez que ele se encontra publicado há muitos meses no blog Crônicas de Alma Welt.(Lucia Welt)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Bugigangas (de Alma Welt)
Quando chego de viagem ao casarão
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
Trazendo na bagagem novo texto,
Que das bugigangas, só pretexto,
Trago poucas, pois lhes tenho aversão,
Sou mal compreendida por Matilde
E mais pela Solange e meu cunhado
Que vêem logo em mim algo de errado,
Qual seja: alienada ou falsa humilde.
Mas não é o que penso que lhes devo,
Frutos estéreis do vão mercantilismo,
Pois que herdei do meu Vati o idealismo...
É que a mim só interessam sentimentos
E as lembranças gratas dos momentos
De pura emoção, memória e enlevo.
15/12/1999
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A casa vazia (de Alma Welt)
Minha casa imensa ora me assusta
Pois foram-se os amigos e parentes
Minha Mutti há muito não me susta
Prazeres que achava impertinentes.
Pois que ela também, há muito, foi-se
E Solange a seguiu, depois Alberto*.
Todos eles... mas a tal dama da foice
Deixou minha data ainda em aberto.
E Geraldo, não mais que um bandido
E de minha doce Lucia um mau marido
Que ousou muito abusar desta guria,
Esse não faz falta e ainda me assombra
Com espectros trazidos da coxia
Do palco que agora vive em sombra...
29/12/2006
Notas
Soneto recentemente encontrado na Arca da Alma.
* Solange - nossa irmã mais velha que foi inimiga da Alma a vida inteira (por ciúmes), mas que, na morte, nos braços da Alma, se perdoaram e se reconciliaram (vide o romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt)
*Alberto- O marido de Solange, alcoólatra, falecido em 2005, e a quem Alma tinha afeto, apesar de tudo, e também porque este lhe salvou a vida em episódio que está contado no romance A Herança.
* Geraldo- meu ex-marido, falecido, que se revelou um verdadeiro bandido, fugiu com Matilde e a nossa herança (a safra de nossos avós), e o pior de tudo: violentou Alma, coisa que está contada de maneira explícita e terrível no romance A Herança. (Lucia Welt)
Pois foram-se os amigos e parentes
Minha Mutti há muito não me susta
Prazeres que achava impertinentes.
Pois que ela também, há muito, foi-se
E Solange a seguiu, depois Alberto*.
Todos eles... mas a tal dama da foice
Deixou minha data ainda em aberto.
E Geraldo, não mais que um bandido
E de minha doce Lucia um mau marido
Que ousou muito abusar desta guria,
Esse não faz falta e ainda me assombra
Com espectros trazidos da coxia
Do palco que agora vive em sombra...
29/12/2006
Notas
Soneto recentemente encontrado na Arca da Alma.
* Solange - nossa irmã mais velha que foi inimiga da Alma a vida inteira (por ciúmes), mas que, na morte, nos braços da Alma, se perdoaram e se reconciliaram (vide o romance autobiográfico A Herança, de Alma Welt)
*Alberto- O marido de Solange, alcoólatra, falecido em 2005, e a quem Alma tinha afeto, apesar de tudo, e também porque este lhe salvou a vida em episódio que está contado no romance A Herança.
* Geraldo- meu ex-marido, falecido, que se revelou um verdadeiro bandido, fugiu com Matilde e a nossa herança (a safra de nossos avós), e o pior de tudo: violentou Alma, coisa que está contada de maneira explícita e terrível no romance A Herança. (Lucia Welt)
Colóquio (de Alma Welt)
Caminhemos como sempre, meu irmão,
Em nosso colóquio prazenteiro
Que nos faz exercitar não a razão
Mas o sonho que nos toma por inteiro,
Tu, do pôquer a narrar tuas façanhas
Em que a própria vida sempre arriscas
Com cartadas, blefes e outras manhas,
Cercado de umas chinas nada ariscas.
Enquanto eu me derramo em escutar-te
Recordando o gestual ilusionista
Que em guria fez por certo mais amar-te,
E em seguida arriscarei um improviso
Que cante nossas vidas e esta vista,
O horizonte que me acolhe ao teu sorriso...
(sem data)
Em nosso colóquio prazenteiro
Que nos faz exercitar não a razão
Mas o sonho que nos toma por inteiro,
Tu, do pôquer a narrar tuas façanhas
Em que a própria vida sempre arriscas
Com cartadas, blefes e outras manhas,
Cercado de umas chinas nada ariscas.
Enquanto eu me derramo em escutar-te
Recordando o gestual ilusionista
Que em guria fez por certo mais amar-te,
E em seguida arriscarei um improviso
Que cante nossas vidas e esta vista,
O horizonte que me acolhe ao teu sorriso...
(sem data)
O cavalo de fogo (de Alma Welt)
Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
terça-feira, 16 de junho de 2009
A figueira (de Alma Welt)
Plantei uma figueira no pomar
Que vejo lentamente erguer seu porte,
Mas não sei se a verei frutificar
Embora na verdade não importe
Pois o mesmo acontece com o verso
Que lanço no papel ou nessa rede
Como pólen de poesia, que disperso
Vai dar aos corações e sua sede.
Todavia não verei a passarada
Como essas figueiras já frondosas
De que venero a sombra projetada.
Mas sei que os frutos esparzidos
Deitam raízes nos solos escolhidos,
Não desabrocham logo como as rosas.
09/10/2006
Que vejo lentamente erguer seu porte,
Mas não sei se a verei frutificar
Embora na verdade não importe
Pois o mesmo acontece com o verso
Que lanço no papel ou nessa rede
Como pólen de poesia, que disperso
Vai dar aos corações e sua sede.
Todavia não verei a passarada
Como essas figueiras já frondosas
De que venero a sombra projetada.
Mas sei que os frutos esparzidos
Deitam raízes nos solos escolhidos,
Não desabrocham logo como as rosas.
09/10/2006
Inverno (de Alma Welt)
Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
Dias tristes (de Alma Welt)
Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
domingo, 14 de junho de 2009
Zen (de Alma Welt)
Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar
O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.
O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso
Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...
(sem data
Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Soneto português de devoção (de Guilherme de Faria)
Para Alma Welt
Apesar de não gostar muito de guerra
Por Joana D’Arc tenho grande devoção,
Me perdoem os ingleses e a Inglaterra
Que queimaram esta guerreira em Ruão.
Por outro lado, detesto os alcagüetes
E tenho certa pena do infeliz
Do escolhido e pobre Iscariotes
Que não virou maldito porque quis.
Mas uma heroína que me encanta
É a Maria, a melhor das Madalenas
Que quando puta pra mim já era santa.
E entre todos os bons heróis covardes
Gosto mais de São Pedro e suas penas
De galos triplos, orelhas e quo vadis...
12/06/2009
Nota
Acabo de receber por e.mail este hilariante soneto que o Guilherme de Faria escreveu e dedicou à Alma, sua eterna musa. Guilherme, como muitos sabem, é o famoso artista plástico e cordelista que foi quem descobriu minha irmã em São Paulo,em 2001, quando ela aí estava morando estabelecida nos Jardins como pintora, e lançou sua obra, prefaciando-a e ilustrando-a com seus maravilhosos desenhos. Por um acordo entre eles, ele se tornou seu único retratista autorizado, em desenhos e pinturas, jamais em fotografias, que eles descartaram numa decisão polêmica e surpreendente. Por isso jamais publiquei fotos de minha irmã.
Creio que Alma, que tinha muito senso de humor adoraria este soneto, que a faria rolar de rir, como o fez a mim. (Lucia Welt)
Apesar de não gostar muito de guerra
Por Joana D’Arc tenho grande devoção,
Me perdoem os ingleses e a Inglaterra
Que queimaram esta guerreira em Ruão.
Por outro lado, detesto os alcagüetes
E tenho certa pena do infeliz
Do escolhido e pobre Iscariotes
Que não virou maldito porque quis.
Mas uma heroína que me encanta
É a Maria, a melhor das Madalenas
Que quando puta pra mim já era santa.
E entre todos os bons heróis covardes
Gosto mais de São Pedro e suas penas
De galos triplos, orelhas e quo vadis...
12/06/2009
Nota
Acabo de receber por e.mail este hilariante soneto que o Guilherme de Faria escreveu e dedicou à Alma, sua eterna musa. Guilherme, como muitos sabem, é o famoso artista plástico e cordelista que foi quem descobriu minha irmã em São Paulo,em 2001, quando ela aí estava morando estabelecida nos Jardins como pintora, e lançou sua obra, prefaciando-a e ilustrando-a com seus maravilhosos desenhos. Por um acordo entre eles, ele se tornou seu único retratista autorizado, em desenhos e pinturas, jamais em fotografias, que eles descartaram numa decisão polêmica e surpreendente. Por isso jamais publiquei fotos de minha irmã.
Creio que Alma, que tinha muito senso de humor adoraria este soneto, que a faria rolar de rir, como o fez a mim. (Lucia Welt)
Pássaros migrantes (de Alma Welt)

Pássaros migrantes- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x60cm, coleção Ricardo Meirelles de Faria, São Paulo, Brasil
Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho
De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...
Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”
Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...
(sem data)
A Canção do guarani (de Alma Welt)
Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
quinta-feira, 11 de junho de 2009
O embuçado (de Alma Welt)
Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
terça-feira, 9 de junho de 2009
O haragano e o minuano (de Alma Welt)
O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
segunda-feira, 8 de junho de 2009
O Edital (de Alma Welt)
Manhãs do meu sonho, esfuziantes,
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
domingo, 7 de junho de 2009
Coração infame (de Alma Welt)
Às vezes me surpreende estar no mundo
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias
De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.
Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga
A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...
(sem data)
Notas
...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.
Tornar-me o branco cisne- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias
De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.
Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga
A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...
(sem data)
Notas
...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.
Tornar-me o branco cisne- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)
sábado, 6 de junho de 2009
A quermesse (de Alma Welt)
Eu gostava da quermesse na cidade
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O dia e a noite (de Alma Welt)
Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.
Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.
E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.
Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...
(sem data)
Memórias farroupilhas (de Alma Welt)
Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
Crepúsculo no Pampa de Alma Welt- óleo s/tela de Guilherme de Faria, coleção Giovanni Meirelles de Faria, São Paulo, SP, Brasil
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura
E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo
E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a descer o corrimão
De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...
(sem data)
sábado, 30 de maio de 2009
Largo al Factotum * (de Alma Welt)
Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural
Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa
Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos
Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.
* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"
*banda oriental- o Uruguay
*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar
*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.
* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".
* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...
* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural
Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa
Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos
Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.
* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"
*banda oriental- o Uruguay
*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar
*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.
* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".
* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...
* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Ao irmão (de Alma Welt)
Estarei sempre por aqui, ó meu irmão,
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças
De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.
Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.
Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.
09/05/2006
Nota
Acabei de encontrar, esta manhã, este soneto que descobri ser inédito (nunca publicado) e que percebo pertencer à serie dos Pampianos da Alma. Então acrescentei-o àquele ciclo específico no blog Vida e Obra de Alma Welt, como n° 398, elevando para 401 a série até agora. A Carruagem permanece como o último, mesmo, da vida da grande Poetisa do Pampa. (Lucia Welt
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças
De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.
Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.
Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.
09/05/2006
Nota
Acabei de encontrar, esta manhã, este soneto que descobri ser inédito (nunca publicado) e que percebo pertencer à serie dos Pampianos da Alma. Então acrescentei-o àquele ciclo específico no blog Vida e Obra de Alma Welt, como n° 398, elevando para 401 a série até agora. A Carruagem permanece como o último, mesmo, da vida da grande Poetisa do Pampa. (Lucia Welt
terça-feira, 26 de maio de 2009
Plantei um poema em meu jardim (Alma Welt)
Plantei um poema em meu jardim,
Mais secreto e apto a dar flores
E que oculto permanece quieto assim
No tempo em que se agitam os amores.
Enquanto a juventude canta e geme
Lançando sua semente aos quatro ventos,
As minúsculas embarcações sem leme
Que vão dar às praias e tormentos,
Esta semente do poema da velhice
Lança suas raízes bem mais fundo
Antes de alcançar a superfície.
Pois meu poema sábio e despojado
Ainda não nasceu e é tão calado
Que talvez nem seja deste mundo.
05/10/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e que me parece uma obra-prima.
Este soneto parece ter nacido já como um "clássico" e contém as características fundamentais da poesia da grande Musa: o lirismo e nostalgia inconfundíveis da Alma, sempre mesclados de uma fina ironia, sugerida por sutis paradoxos. ( Lucia Welt)
Mais secreto e apto a dar flores
E que oculto permanece quieto assim
No tempo em que se agitam os amores.
Enquanto a juventude canta e geme
Lançando sua semente aos quatro ventos,
As minúsculas embarcações sem leme
Que vão dar às praias e tormentos,
Esta semente do poema da velhice
Lança suas raízes bem mais fundo
Antes de alcançar a superfície.
Pois meu poema sábio e despojado
Ainda não nasceu e é tão calado
Que talvez nem seja deste mundo.
05/10/2006
Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e que me parece uma obra-prima.
Este soneto parece ter nacido já como um "clássico" e contém as características fundamentais da poesia da grande Musa: o lirismo e nostalgia inconfundíveis da Alma, sempre mesclados de uma fina ironia, sugerida por sutis paradoxos. ( Lucia Welt)
domingo, 24 de maio de 2009
Esplêndidas manhãs (de Alma Welt)
Esplêndidas manhãs me esperavam
Grande parte do ano aqui na estância
E me lembro das da gloriosa infância
Em que estar viva e amar me exaltavam
A ponto de gritar em correrias
De brisas e andorinhas em milícias
Com rasantes e estridentes arrelias
Pelos prados de vôos e carícias!
Mas a Vinha herdada dos avós
Somada à memória farroupilha
Era por certo um peso para nós...
E eu voltava então com muitas flores
Pra seduzir a casarão como uma filha
E em segredo ofertar aos meus amores...
07/11/2006
Grande parte do ano aqui na estância
E me lembro das da gloriosa infância
Em que estar viva e amar me exaltavam
A ponto de gritar em correrias
De brisas e andorinhas em milícias
Com rasantes e estridentes arrelias
Pelos prados de vôos e carícias!
Mas a Vinha herdada dos avós
Somada à memória farroupilha
Era por certo um peso para nós...
E eu voltava então com muitas flores
Pra seduzir a casarão como uma filha
E em segredo ofertar aos meus amores...
07/11/2006
A abantesma (de Alma Welt)
No riacho que produz minha cascata
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.
Ou então, ela diz, "faz desmaiar",
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.
Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal.
E o povo a lenda ama e perpetua:
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...
08/06/2005
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.
Ou então, ela diz, "faz desmaiar",
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.
Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal.
E o povo a lenda ama e perpetua:
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...
08/06/2005
sábado, 23 de maio de 2009
Ofélia (de Alma Welt)

Ofélia, ou A Morte de Alma Welt- pintura de Guilherme de Faria. o s/t. 100x130cm (coleção Fernando Carrieri, São Paulo, SP).
Hoje o dia amanheceu enevoado
Evocando antigas brumas de Avalon,
Mas levanto e capricho no penteado
Em bandós e nem um toque de baton.
E com uma saia longa e meu chale
Me vejo um tanto mais vitoriana
A vagar numa charneca ou num vale
Como Tess, e muito menos pampiana.
Então, triste e encarnada no papel
Vou até o soturno lago meio opaco
E me inclino sobre águas como um véu
Que me nega as luzes que preciso
Para mirar meu rosto ainda que fraco
E mais para uma Ofélia que Narciso...
10/01/2007
Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto triste, que, como muitos outros contém uma velada premonição de seu destino, isto é, de sua morte afogada nesse lago, como uma Ofélia, tão anunciada, e que entretanto não podíamos prevenir ou deter... (Lucia Welt)
quinta-feira, 21 de maio de 2009
A corredeira (de Alma Welt)
Ultimamente vivo mais acelerada
E tenho um sentimento de urgência
Que não tinha enquanto era mimada
Qual Infanta, princesa ou excelência,
Guria branca de cabelo quase rubro,
Ouro velho, melhor dito, e como seda,
A vagar no jardim e na alameda
Florida como fora sempre outubro
Pois então a primavera era perene
E as horas fluíam sobre um rio
Como um barco feliz de pouco leme
E eu não pressentia como agora
A corredeira que me lança em desvario
Numa ânsia entre ficar e ir embora...
8/10/2006
Nota
Este soneto recém-descoberto revela, como tantos outros, o pressentimento de minha irmã de sua morte próxima, que a revoltava e abismava, ao mesmo tempo. (Lucia Welt)
E tenho um sentimento de urgência
Que não tinha enquanto era mimada
Qual Infanta, princesa ou excelência,
Guria branca de cabelo quase rubro,
Ouro velho, melhor dito, e como seda,
A vagar no jardim e na alameda
Florida como fora sempre outubro
Pois então a primavera era perene
E as horas fluíam sobre um rio
Como um barco feliz de pouco leme
E eu não pressentia como agora
A corredeira que me lança em desvario
Numa ânsia entre ficar e ir embora...
8/10/2006
Nota
Este soneto recém-descoberto revela, como tantos outros, o pressentimento de minha irmã de sua morte próxima, que a revoltava e abismava, ao mesmo tempo. (Lucia Welt)
Esta noite me sento à lua cheia (de Alma Welt)
Esta noite me sento à lua cheia
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções
Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever
Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo
Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções
Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever
Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo
Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)
terça-feira, 19 de maio de 2009
As vozes do Tempo (de Alma Welt)
Levanto-me ao ouvir os sons da noite
Que aos outros parecem inaudíveis,
Não de grilos e sapos, sons tangíveis
Do Tempo, onde quer que ele se amoite
Pois de dia se evaporam e exalam
Sob o azul que quer só o presente
Ao vento das campinas onde calam
Os talos do capim que se ressente.
E como os que estiveram deste lado
Eu me vejo desde uma outra infância
Auscultando os sussurros do passado
E a verter das noites para os dias
As vozes gravadas à distância
No silêncio destas velhas pradarias...
(24/05/2006)
Que aos outros parecem inaudíveis,
Não de grilos e sapos, sons tangíveis
Do Tempo, onde quer que ele se amoite
Pois de dia se evaporam e exalam
Sob o azul que quer só o presente
Ao vento das campinas onde calam
Os talos do capim que se ressente.
E como os que estiveram deste lado
Eu me vejo desde uma outra infância
Auscultando os sussurros do passado
E a verter das noites para os dias
As vozes gravadas à distância
No silêncio destas velhas pradarias...
(24/05/2006)
A preceptora (de Alma Welt)
Minha mãe contratou preceptora
Para botar cabresto em sua guria
Que desembesta por aí c’uma pletora
De velhos deuses e numes à porfia,
Pelo prado, o lago e o vinhedo,
Pelo pomar e o poço mágico vetado,
Pelo bosque que guarda o meu segredo,
Pelas palhas do galpão abandonado.
“Senhorita, põe um freio nesta prenda
E ensina-lhe a conter os seus impulsos,
A comportar-se como o livro recomenda.”
“O resto, o francês e os algarismos
Podem vir se a prenderes pelos pulsos,
Contendo seu vulcão, sonhos e sismos.”
(sem data)
A Preceptora II (de Alma Welt)
A mim, a Mutti sem saber presenteou
C’uma austera professora inusitada
Que assim que me viu se abrandou
De modo que me pôs emocionada.
O semblante, antes duro, amoleceu,
O olhar a destilar um certo mel,
E a tocar minhas mãos e o rosto meu
Como a afastar um fino véu.
E logo, ai de nós! apaixonadas,
Transformamos as aulas na mansarda
Num doce Kama-Sutra de vanguarda.
Eis o teatro de emoções mui delicadas,
Em que a mestra amolecia o coração
E o corpo, ao deslizar de minha mão...
(sem data)
Nota
Para os leitores que quiserem conhecer melhor este episódio real da adolescência da Alma recomendo a leitura do belo conto "A Preceptora", no blog "A Prosa de Alma Welt"(Lucia Welt)
www.prosadealmawelt.blogspot.com
Para botar cabresto em sua guria
Que desembesta por aí c’uma pletora
De velhos deuses e numes à porfia,
Pelo prado, o lago e o vinhedo,
Pelo pomar e o poço mágico vetado,
Pelo bosque que guarda o meu segredo,
Pelas palhas do galpão abandonado.
“Senhorita, põe um freio nesta prenda
E ensina-lhe a conter os seus impulsos,
A comportar-se como o livro recomenda.”
“O resto, o francês e os algarismos
Podem vir se a prenderes pelos pulsos,
Contendo seu vulcão, sonhos e sismos.”
(sem data)
A Preceptora II (de Alma Welt)
A mim, a Mutti sem saber presenteou
C’uma austera professora inusitada
Que assim que me viu se abrandou
De modo que me pôs emocionada.
O semblante, antes duro, amoleceu,
O olhar a destilar um certo mel,
E a tocar minhas mãos e o rosto meu
Como a afastar um fino véu.
E logo, ai de nós! apaixonadas,
Transformamos as aulas na mansarda
Num doce Kama-Sutra de vanguarda.
Eis o teatro de emoções mui delicadas,
Em que a mestra amolecia o coração
E o corpo, ao deslizar de minha mão...
(sem data)
Nota
Para os leitores que quiserem conhecer melhor este episódio real da adolescência da Alma recomendo a leitura do belo conto "A Preceptora", no blog "A Prosa de Alma Welt"(Lucia Welt)
www.prosadealmawelt.blogspot.com
Minhas vidas paralelas (de Alma Welt)
Sobre a folha branca de papel
Tenho minhas horas renovadas,
Passadas a limpo sob um céu
Escolhido em azul ou trovoadas.
Eis aqui o meu mundo paralelo
Não menos real que minha prosa
Ao gerir o casarão como um castelo
Onde reino e sou toda poderosa.
Bah! Pois se é esse o meu destino,
Perdoem-me descrentes e aflitos,
Meus versos e o sangue com que assino.
Pois assim se na vida rio e choro,
Esta folha vai renovar-me os ritos:
Nova vida, riso, dor, que não deploro.
09/12/2006
Tenho minhas horas renovadas,
Passadas a limpo sob um céu
Escolhido em azul ou trovoadas.
Eis aqui o meu mundo paralelo
Não menos real que minha prosa
Ao gerir o casarão como um castelo
Onde reino e sou toda poderosa.
Bah! Pois se é esse o meu destino,
Perdoem-me descrentes e aflitos,
Meus versos e o sangue com que assino.
Pois assim se na vida rio e choro,
Esta folha vai renovar-me os ritos:
Nova vida, riso, dor, que não deploro.
09/12/2006
sexta-feira, 15 de maio de 2009
A Era romântica (de Alma Welt)
Eu já estive nesta casa, eu o sinto.
Sentava-me à mesa como agora,
Os convivas se enchiam de absinto
E tardavam muito a ir embora.
Mas me lembro de um que era sóbrio
E notando meu desgosto e desalento
Para evitar-me algum opróbrio
Me convidava a passearmos ao relento.
E eu já então chegada ao verso
Declamava para ele minha poesia,
Concentrando seu olhar nada disperso.
“Abandonei os bebedores comezinhos”
-ele com olhos marejados me dizia-
“E me embriago agora de outros vinhos...”
08/03/1990
Nota
Alma quando estudou na Alemanha, foi à França e visitou parentes na Alsácia-Lorena, terra de nossa avó Frida, e disse ter sentido a sensação de já ter estado na vetusta casa onde aquela nasceu e morou até a juventude. Então escreveu este soneto que expressa essas sensações, que ela considerou reminiscências de uma sua encarnação na “era romântica”. Resta saber quem foi esse interlocutor...
(Lucia Welt)
Sentava-me à mesa como agora,
Os convivas se enchiam de absinto
E tardavam muito a ir embora.
Mas me lembro de um que era sóbrio
E notando meu desgosto e desalento
Para evitar-me algum opróbrio
Me convidava a passearmos ao relento.
E eu já então chegada ao verso
Declamava para ele minha poesia,
Concentrando seu olhar nada disperso.
“Abandonei os bebedores comezinhos”
-ele com olhos marejados me dizia-
“E me embriago agora de outros vinhos...”
08/03/1990
Nota
Alma quando estudou na Alemanha, foi à França e visitou parentes na Alsácia-Lorena, terra de nossa avó Frida, e disse ter sentido a sensação de já ter estado na vetusta casa onde aquela nasceu e morou até a juventude. Então escreveu este soneto que expressa essas sensações, que ela considerou reminiscências de uma sua encarnação na “era romântica”. Resta saber quem foi esse interlocutor...
(Lucia Welt)
quarta-feira, 6 de maio de 2009
De sina, vinhos e sonetos (de Alma Welt)
Voltarei ao meu Pampa após o fim,
Nada pode afastar-me da coxilha
Semeada pela vinha de Joachim
De quem fui a neta, não a filha,
Mas de quem no seu leito de morte
Tocou a testa e instou a celebrar
O vinhedo que seria a minha sorte
Pois me permite o livre poetar.
Assim o vinho e minha sina agradecida
Dormitam nas garrafas e nas resmas
Que aguardam do Soneto a conclusão
Como a chave de ouro de uma vida
Ainda que me junte aos abantesmas
A assombrar eternamente o casarão...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, e que percebi ser inédito embora intimamente ligado a este outro, dos Pampianos:
A Herança, ou Na cabeceira do avô (de Alma Welt)
(180)
Meu avô era homem de palavra
E a tinha só na força concentrada,
Toda nervos, olhar, e aquela trava
Na maxila tensa e pesada.
De outras poucas palavras, nada terno
Era incapaz de uma carícia,
Persistente e tenaz como se eterno,
E totalmente isento de malícia.
Mas foi o velho boche grandalhão
Que me chamou à cabeceira bem no fim
E segurou com brandura a minha mão.
Depois tocando leve a minha testa,
Disse piscando o olho para mim:
"Alma, fiz o vinho, faça a festa."
13/01/2007
Nota:
Emocionou-me este soneto primoroso, que considerei de imediato mais uma obra-prima da Alma, e que me fez lembrar do velho Joachim Welt, que Alma tão magistralmente descreveu no soneto, e que eu não sabia ter doado tão bela herança em poucas palavras para a verdadeira herdeira do vinhedo de sua vida. (Lucia Welt)
Nada pode afastar-me da coxilha
Semeada pela vinha de Joachim
De quem fui a neta, não a filha,
Mas de quem no seu leito de morte
Tocou a testa e instou a celebrar
O vinhedo que seria a minha sorte
Pois me permite o livre poetar.
Assim o vinho e minha sina agradecida
Dormitam nas garrafas e nas resmas
Que aguardam do Soneto a conclusão
Como a chave de ouro de uma vida
Ainda que me junte aos abantesmas
A assombrar eternamente o casarão...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, e que percebi ser inédito embora intimamente ligado a este outro, dos Pampianos:
A Herança, ou Na cabeceira do avô (de Alma Welt)
(180)
Meu avô era homem de palavra
E a tinha só na força concentrada,
Toda nervos, olhar, e aquela trava
Na maxila tensa e pesada.
De outras poucas palavras, nada terno
Era incapaz de uma carícia,
Persistente e tenaz como se eterno,
E totalmente isento de malícia.
Mas foi o velho boche grandalhão
Que me chamou à cabeceira bem no fim
E segurou com brandura a minha mão.
Depois tocando leve a minha testa,
Disse piscando o olho para mim:
"Alma, fiz o vinho, faça a festa."
13/01/2007
Nota:
Emocionou-me este soneto primoroso, que considerei de imediato mais uma obra-prima da Alma, e que me fez lembrar do velho Joachim Welt, que Alma tão magistralmente descreveu no soneto, e que eu não sabia ter doado tão bela herança em poucas palavras para a verdadeira herdeira do vinhedo de sua vida. (Lucia Welt)
domingo, 3 de maio de 2009
Vida e Integração (de Alma Welt)
Ao olhar a natureza circundante
Eu vejo que sou fruto e parte dela.
Nada do que há me é distante,
A flor, o inseto e minha cadela.
Tudo, o prado, o vinho e o vinhedo,
As peonas que as uvas vão colhendo,
Seus piás e mesmo seu brinquedo,
E no alto aquela nuvem se movendo.
Mas afirmo que tudo isso me forma,
Devo-lhes corpo e mente, é o que digo,
Ao Universo estou ligada pelo umbigo.
Por isso ao despertar sou nascitura,
E de noite a filha pródiga retorna
Ao velho ventre da grande mãe Natura.
(sem data)
Eu vejo que sou fruto e parte dela.
Nada do que há me é distante,
A flor, o inseto e minha cadela.
Tudo, o prado, o vinho e o vinhedo,
As peonas que as uvas vão colhendo,
Seus piás e mesmo seu brinquedo,
E no alto aquela nuvem se movendo.
Mas afirmo que tudo isso me forma,
Devo-lhes corpo e mente, é o que digo,
Ao Universo estou ligada pelo umbigo.
Por isso ao despertar sou nascitura,
E de noite a filha pródiga retorna
Ao velho ventre da grande mãe Natura.
(sem data)
sábado, 2 de maio de 2009
De eras, heras e medos (de Alma Welt)
"...Où sont les neiges d'antan?"
(Balada das Damas dos Tempos Idos -(François Villon)
As vetustas paredes desta casa
Guardam sonhos da farroupilha era,
Também medo tardio que extravasa
E se alastra agora como a hera
A recobrir daninha esta fachada
Tornando-a mais sombria que vital
E nada hospitaleira à convidada
Que eu trouxe da longínqua capital
E que de noite acorda e se me agarra
A debater-se qual barca em sua amarra
Na torrente dos soluços e das mágoas
Das prendas que qual "neves d’antanho"
Ora permitem degelar as suas águas
Pois que então o heroísmo era tamanho...
2004
Nota
Acabei de encontrar este soneto inédito que percebi corresponder aos primeiros tempos da estada de Aline na estância. A namorada paulistana da Alma teve um filho de nosso irmão Rodo e acabou voltando com a criança (Marco) para São Paulo, contra a nossa vontade (que a amávamos), depois de dois anos (vide o romance O Sangue da Terra, de Alma Welt, no blog com este nome). (Lucia Welt)
(Balada das Damas dos Tempos Idos -(François Villon)
As vetustas paredes desta casa
Guardam sonhos da farroupilha era,
Também medo tardio que extravasa
E se alastra agora como a hera
A recobrir daninha esta fachada
Tornando-a mais sombria que vital
E nada hospitaleira à convidada
Que eu trouxe da longínqua capital
E que de noite acorda e se me agarra
A debater-se qual barca em sua amarra
Na torrente dos soluços e das mágoas
Das prendas que qual "neves d’antanho"
Ora permitem degelar as suas águas
Pois que então o heroísmo era tamanho...
2004
Nota
Acabei de encontrar este soneto inédito que percebi corresponder aos primeiros tempos da estada de Aline na estância. A namorada paulistana da Alma teve um filho de nosso irmão Rodo e acabou voltando com a criança (Marco) para São Paulo, contra a nossa vontade (que a amávamos), depois de dois anos (vide o romance O Sangue da Terra, de Alma Welt, no blog com este nome). (Lucia Welt)
sexta-feira, 1 de maio de 2009
O sonho da Pintora (de Alma Welt)
As cores deste dia estão mais belas.
Eu vejo, sinto, esta paleta vive
A fase heróica das tintas amarelas
Como as do Van Gogh que não tive.
Ontem foi em mim o azul Picasso
E o rosa do alvorecer do mestre;
Como ele retornei ao puro traço
Qual xamã velho e caçador rupestre,
Ou ainda: Hokusai, mesmo Da Vinci
Ao riscar o traço preto no papel
Buscando encontrar aquele acinte
Ao fazer vibrar na folha e abri-la
Tornando a superfície um novo céu
E o sonho se instalar como em Tarsila...
08/02/2004
Nota
Acabo de encontrar mais este soneto inédito na Arca da Alma e não pude deixar de associá-lo a outro que já citava os "velhos deuses do traço". Este aqui, n°9 do ciclo Sonetos da Pintora III (no blog Sonetos da Alma):
9
Vou desenha-la, Aline, a puro traço
Para fixar o seu perfil
E a sua silhueta no espaço
Do plano do papel que você viu
De uma pura trama como linho
Vindo de longe, talvez Jerusalém
Ou colhido na beira do caminho
Da estrada que leva até Belém,
E delirando assim sobre o papel
Coloco sobre a mesa o material
Depois de organizar esta Babel
E oficiando, enfim, como vestal,
Invoco os velhos deuses meus do traço:
Leonardo, Hokusai, e até Picasso.
Eu vejo, sinto, esta paleta vive
A fase heróica das tintas amarelas
Como as do Van Gogh que não tive.
Ontem foi em mim o azul Picasso
E o rosa do alvorecer do mestre;
Como ele retornei ao puro traço
Qual xamã velho e caçador rupestre,
Ou ainda: Hokusai, mesmo Da Vinci
Ao riscar o traço preto no papel
Buscando encontrar aquele acinte
Ao fazer vibrar na folha e abri-la
Tornando a superfície um novo céu
E o sonho se instalar como em Tarsila...
08/02/2004
Nota
Acabo de encontrar mais este soneto inédito na Arca da Alma e não pude deixar de associá-lo a outro que já citava os "velhos deuses do traço". Este aqui, n°9 do ciclo Sonetos da Pintora III (no blog Sonetos da Alma):
9
Vou desenha-la, Aline, a puro traço
Para fixar o seu perfil
E a sua silhueta no espaço
Do plano do papel que você viu
De uma pura trama como linho
Vindo de longe, talvez Jerusalém
Ou colhido na beira do caminho
Da estrada que leva até Belém,
E delirando assim sobre o papel
Coloco sobre a mesa o material
Depois de organizar esta Babel
E oficiando, enfim, como vestal,
Invoco os velhos deuses meus do traço:
Leonardo, Hokusai, e até Picasso.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A ânfora em vermelho (de Alma Welt)
(ou Auto-biografia breve)
Eu sinto que estou perto da vida
Quando observo o mundo e sua lida
A partir deste reduto aonde vim
Viver desde que me dei por mim,
Guria entre piás, e deslumbrada,
Chegada da pequena Novo Hamburgo
Onde após me ver parida numa estrada
Meu pai fora viver qual demiurgo.
E aqui fui, neste vetusto casarão
Educada para ser o seu orgulho
E não a simples filha do patrão,
Mas aquela que seria o seu espelho,
E como grega ânfora em vermelho
Compensar do passado o mero entulho.
(sem data
Nota
...grega ânfora em vermelho- Alma (que era ruiva) se refere àquele tipo característico de cerâmica ática (da antiga Grécia) que tem como característica as figuras pintadas somente em vermelho (ficando assim chamadas pelos arqueólogos, colecionadores e museus), das quais constam tantas obras-primas, e que quando encontradas numa escavação compensam toneladas de entulho, ou simples terra e pedras inúteis. (Lucia Welt)
Eu sinto que estou perto da vida
Quando observo o mundo e sua lida
A partir deste reduto aonde vim
Viver desde que me dei por mim,
Guria entre piás, e deslumbrada,
Chegada da pequena Novo Hamburgo
Onde após me ver parida numa estrada
Meu pai fora viver qual demiurgo.
E aqui fui, neste vetusto casarão
Educada para ser o seu orgulho
E não a simples filha do patrão,
Mas aquela que seria o seu espelho,
E como grega ânfora em vermelho
Compensar do passado o mero entulho.
(sem data
Nota
...grega ânfora em vermelho- Alma (que era ruiva) se refere àquele tipo característico de cerâmica ática (da antiga Grécia) que tem como característica as figuras pintadas somente em vermelho (ficando assim chamadas pelos arqueólogos, colecionadores e museus), das quais constam tantas obras-primas, e que quando encontradas numa escavação compensam toneladas de entulho, ou simples terra e pedras inúteis. (Lucia Welt)
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Álbum de memórias (de Alma Welt)
Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!
Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.
Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.
Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Melhor ali que o quadro, e mais precisa...
(sem data)
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!
Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.
Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.
Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Melhor ali que o quadro, e mais precisa...
(sem data)
O Iceberg (de Alma Welt)

O abismo da Alma (ou O Iceberg) -óleo s/ tela de Guilherme de Faria
Deus criou o mundo inconsciente
Onde somos todos Anima e magia.
A razão é um universo penitente,
Diminuto, limitado, dia a dia.
Mas na base imensa do iceberg,
Que riqueza, que cosmos, que amplidão,
No sonho que a alma ainda persegue
Ao despertar pela manhã em solidão!
Como, pois, duvidar do dom divino
Se a própria divindade compartilha
O poder, o mito e a alegoria
No sono do velho e do menino?
E desta Alma desperta em sua ilha
A sonhar um oceano de alegria...
15/12/2006
terça-feira, 28 de abril de 2009
Fênix (de Alma Welt)
Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento
Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!
E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.
E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...
(sem data)
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento
Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!
E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.
E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...
(sem data)
segunda-feira, 27 de abril de 2009
O pêndulo parado (de Alma Welt)
Vou-me daqui, Rôdo, por ora.
Não posso mais, não passarei na prova,
Nosso pai amado foi-se embora,
Eu mesma o vi descer àquela cova.
Tudo por aqui clama ou ilude,
Meu coração tropeça em sua sombra,
Ouço ainda seus passos sobre a alfombra
Que deveria guardá-los em quietude.
Mas os livros, mudos, o piano...
E o relógio da sala é só silêncio,
Os ponteiros no vão doze romano,
Imóveis congelados no momento,
O pêndulo inerte, ponte pênsil
Sobre o nada eterno e seu tormento...
(sem data(1999?)
Não posso mais, não passarei na prova,
Nosso pai amado foi-se embora,
Eu mesma o vi descer àquela cova.
Tudo por aqui clama ou ilude,
Meu coração tropeça em sua sombra,
Ouço ainda seus passos sobre a alfombra
Que deveria guardá-los em quietude.
Mas os livros, mudos, o piano...
E o relógio da sala é só silêncio,
Os ponteiros no vão doze romano,
Imóveis congelados no momento,
O pêndulo inerte, ponte pênsil
Sobre o nada eterno e seu tormento...
(sem data(1999?)
domingo, 26 de abril de 2009
Sonho e projeção (de Alma Welt)
Nas noites da estância há muito brilho,
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.
Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...
Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.
E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...
(sem data)
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.
Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...
Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.
E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...
(sem data)
Manhãs (de Alma Welt)
Belas manhãs, esplêndidas manhãs
Quando após um breve chimarrão,
A geléia e o queijo sobre o pão,
Eu corria para o prado e seus afãs.
E abrindo meus braços para o céu
Azul de doer de tão perfeito,
Eu experimentava vir do peito
Das andorinhas o mágico escarcéu.
E no calor girava até cair
De tontura, emoção e euforia
Por estar viva e tanto isso sentir.
Mas eis que a sombra começava a vir,
Não do umbu a fronde que alivia,
Mas do afoito coração que entardecia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto inédito na Arca da Alma, que no entanto denuncia já o trantorno bipolar, doença que a acometeria nos últimos anos e que pode ter sido a causa da morte da grande poetisa. (Lucia Welt)
Quando após um breve chimarrão,
A geléia e o queijo sobre o pão,
Eu corria para o prado e seus afãs.
E abrindo meus braços para o céu
Azul de doer de tão perfeito,
Eu experimentava vir do peito
Das andorinhas o mágico escarcéu.
E no calor girava até cair
De tontura, emoção e euforia
Por estar viva e tanto isso sentir.
Mas eis que a sombra começava a vir,
Não do umbu a fronde que alivia,
Mas do afoito coração que entardecia.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto inédito na Arca da Alma, que no entanto denuncia já o trantorno bipolar, doença que a acometeria nos últimos anos e que pode ter sido a causa da morte da grande poetisa. (Lucia Welt)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Arcádicas vigílias (de Alma Welt)
DOS SONETOS DELIRANTES DA ALMA
Arcádicas vigílias (de Alma Welt)
6
Espectros arcaicos desta estância!
Nas noites das vigílias gauchescas
Eu os vejo em torno desde a infância
A rodar e a dançar chulas grotescas.
Mas eu os saúdo e a eles brindo
Com o vinho dos avós para aplacá-los
Ou mesmo seduzi-los, e até rindo
Quando estão a exibir imensos falos.
E em noites de luar desmesurado
Vago com eles alva e seminua
Pela relva grisalha do meu prado.
E se da prenda xucra e sem dono
Em malícia o povo o mito perpetua,
Em arcádicas orgias me abandono...
(sem data)
Arcádicas vigílias (de Alma Welt)
6
Espectros arcaicos desta estância!
Nas noites das vigílias gauchescas
Eu os vejo em torno desde a infância
A rodar e a dançar chulas grotescas.
Mas eu os saúdo e a eles brindo
Com o vinho dos avós para aplacá-los
Ou mesmo seduzi-los, e até rindo
Quando estão a exibir imensos falos.
E em noites de luar desmesurado
Vago com eles alva e seminua
Pela relva grisalha do meu prado.
E se da prenda xucra e sem dono
Em malícia o povo o mito perpetua,
Em arcádicas orgias me abandono...
(sem data)
A Noite do Maestro (de Alma Welt)
5
Noite perplexa, pálida e demente
A se estender da casa à pradaria
Desde o coração da minha gente
Concentrada no salão e escadaria,
Todos à roda do corpo tão presente
A que só eu via a grande espada
Entre as mãos no peito e repousada
Longitudinal e reluzente...
O maestro jazia inanimado
Mas a música de seus dedos se ouvia
A tocar num gravador ultrapassado,
Parecendo vir de longe, muito longe,
D’uma idade recheada de magia
Onde fora grão-senhor, guerreiro e monge...
03/01/2001
Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que junto à serie dos "Delirantes", embora seja bem claro e descritivo do velório do Vati (papai) que para os novos leitores esclareço que também era chamado de Maestro pelos peões e alguns de nós, pois era um grande pianista embora fosse médico (só exerceu a medicina na juventude). (Lucia Welt)
Noite perplexa, pálida e demente
A se estender da casa à pradaria
Desde o coração da minha gente
Concentrada no salão e escadaria,
Todos à roda do corpo tão presente
A que só eu via a grande espada
Entre as mãos no peito e repousada
Longitudinal e reluzente...
O maestro jazia inanimado
Mas a música de seus dedos se ouvia
A tocar num gravador ultrapassado,
Parecendo vir de longe, muito longe,
D’uma idade recheada de magia
Onde fora grão-senhor, guerreiro e monge...
03/01/2001
Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que junto à serie dos "Delirantes", embora seja bem claro e descritivo do velório do Vati (papai) que para os novos leitores esclareço que também era chamado de Maestro pelos peões e alguns de nós, pois era um grande pianista embora fosse médico (só exerceu a medicina na juventude). (Lucia Welt)
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sonetos delirantes da Alma (de Alma Welt)

pintura de autoria de Alma Welt
O gaucho triste (de Alma Welt)
1
Vinha o gaucho ereto em sua sela,
Montado no vento e sem cavalo.
A noite carecia de uma vela
Que a lua era negra e sem um halo.
“Vai-te”, disse eu, “por quem me tomas?”
“Sou a prenda fiel de pai e irmão,
E não deixarei que escuras formas
Venham entrever meu coração!”
E o gaucho espectral continuava
Ali, com a face branca e triste,
E o zum de seu silêncio se arrastava.
Longos bigodes, chapéu de barbicacho,
No seu punho uma lâmina em riste,
A outra mão a conter o rubro facho...
05/02/2004

O mundo de Alma Welt- óleo s/tela de Guilherme de Faria
Sob a figueira (de Alma Welt)
2
Sob a figueira em sonho estava ela,
A branca peregrina de uma noite,
Sentada de viés em sua sela
Os olhos a pedir que não me afoite.
E eu me aproximei arrepanhando
Minha longa saia de cetim
Com meus pés inseguros caminhando
Numa espécie sedosa de capim
Dourado, como a bruma que luzia
E envolvia tudo em doce flama
Que por si apaziguava e seduzia.
E eu ouvi a voz que se me canta,
E o coração, ao recordar, ainda inflama:
"Virás comigo em breve, Alma, Infanta."
A Cavalhada (de Alma Welt)
3
A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.
E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,
O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono
Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...
10/03/2005
Noites abrasadas (de Alma Welt)
4
Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.
Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.
Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e tanto amei,
Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...
06/01/2007
Nota
Acabo de descobrir um novo tesouro na Arca da Alma: um grosso maço de papel contendo sonetos manuscritos que pelo seu timbre e conteúdo resolvi entitular "Sonetos Delirantes da Alma".
A grande poetisa cultivava também uma vertente obscura e misteriosa, por vezes assustadora, na sua imaginação tão rica de mundos e timbres.
À medida que os for compilando e digitando, irei publicando numerados. Talvez tome a liberdade de entitulá-los, para efeito de melhor divulgação no Google, pois Alma não fez, nem sequer os numerou.
(Lucia Welt)
Natura e Divindade (de Alma Welt)
O segredo de crescer é admirar
O imenso dom da vida e o mistério
Do extremo afã de se perpetuar
Que vemos desde cima ao andar térreo,
Ali mesmo, no âmbito invisível
Dos seres que constroem a fina teia
À qual o ser humano é remissível,
E que é a própria base da “cadeia”.
Foi esse o pensamento de cientista
Que o Vati legou-me como herança
Dizendo ser o seu mesmo, de artista:
Se a Natura tem tal complexidade
Redundando em espetáculo e pujança,
A Beleza é o embrião da Divindade...
08/03/2005
Nota
Encantou-me encontrar agora há pouco na Arca da Alma, este belo soneto desconhecido e inédito, de tom filosófico e científico ratificando a visão de artista que Alma diz ter herdado de nosso pai (o Vati= papai, em alemão) que era médico e pianista ao mesmo tempo. (Lucia Welt)
O imenso dom da vida e o mistério
Do extremo afã de se perpetuar
Que vemos desde cima ao andar térreo,
Ali mesmo, no âmbito invisível
Dos seres que constroem a fina teia
À qual o ser humano é remissível,
E que é a própria base da “cadeia”.
Foi esse o pensamento de cientista
Que o Vati legou-me como herança
Dizendo ser o seu mesmo, de artista:
Se a Natura tem tal complexidade
Redundando em espetáculo e pujança,
A Beleza é o embrião da Divindade...
08/03/2005
Nota
Encantou-me encontrar agora há pouco na Arca da Alma, este belo soneto desconhecido e inédito, de tom filosófico e científico ratificando a visão de artista que Alma diz ter herdado de nosso pai (o Vati= papai, em alemão) que era médico e pianista ao mesmo tempo. (Lucia Welt)
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Amores meus! (de Alma Welt)
Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!
Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência,
A que escolhi, na aurora, pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;
Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...
E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...
16/01/2007
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!
Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência,
A que escolhi, na aurora, pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;
Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...
E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...
16/01/2007
Um Soneto de Outono (de Alma Welt)

Tela de Outono - pintura de Alma Welt, 100x120cm, coleção da psicóloga Ana Maria Amaral, São Paulo, Brasil
Um Soneto de Outono (de Alma Welt)
(da série Sonetos da Pintora (I)
Voltou o Outono e sua quietude
Estação de mortal melancolia
Em minh’alma, malgrado a juventude
Que afinal ainda me anima, serve e guia.
Lanço quadros, em ouro matizado
De vermelho, mas em telas abstratas,
Abstraídas folhas, cataratas
De cores, tons, e frio antecipado.
É o nórdico Outono dentro em mim,
Pois que aqui a cidade se acinzenta
E dói como um cristal dentro de um rim
Que urina sobre a tela em ouro e sangue
Produzindo esta matéria densa e lenta
Onde a alma chafurda como em mangue...
Nota
Este soneto, por oportuno, republico aqui pois foi muito difundido na Internet, "pinçado" que foi da série Sonetos da Pintora (I), de Alma Welt, e transcrito em outros blogs de pessoas sensíveis às mudanças de estação, e em particular a esta tão especial... (mas não são todas?)
(Lucia Welt)
sábado, 18 de abril de 2009
As palavras vivem (de Alma Welt)
As palavras vivem e me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...
Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.
Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:
Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!
15/01/2007
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...
Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.
Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:
Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!
15/01/2007
O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.
Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.
E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.
Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.
14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.
* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.
Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.
E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.
Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.
14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.
* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)
terça-feira, 14 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Original, sem pecado (de Alma Welt)
Meu pai criou-me sem pecado,
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,
Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.
Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.
Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...
Páscoa de 2006
Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,
Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.
Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.
Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...
Páscoa de 2006
Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)
A cidade e o rio (de Alma Welt)
Na cidade fui um dia questionada:
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.
E eu que não sou nada de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.
Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios
Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”
12/07/2006
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.
E eu que não sou nada de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.
Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios
Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”
12/07/2006
sábado, 11 de abril de 2009
O Promontório e a Ilha (de Alma Welt)
Eu levantava muito cedo ainda guria
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.
Eu achava que esta honra lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.
E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.
Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”
06/05/2005
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.
Eu achava que esta honra lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.
E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.
Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”
06/05/2005
sexta-feira, 10 de abril de 2009
O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Gato na cama (de Alma Welt)

Gato na cama- óleo s/tela de 30x40cm, de Guilherme de Faria
Gato na cama (de Alma Welt)
Sobre a colcha colorida do meu leito
Deixo o gato subir e aproveitar
Ronronando e oferecendo o preito
Ao aconchego que acabo de deixar
Desse caos macio e retalhado
Que é o próprio universo goghiano
Que num relance vejo ali plasmado
Antes de sair pra um outro plano:
O de minha pradaria tão eqüestre
Não como as de Arles ou de Flandres
Onde outrora viveu o ruivo mestre
Que não me consta ter tido o seu gatinho,
Que a ele faltou, como a "noigandres"*
O sentido que perdeu-se no caminho...
18/05/2005
Notas
Deste curioso e notável soneto que encontrei recentemente na Arca da Alma, o mestre Guilherme de Faria pintou uma verdadeira ilustração a meu pedido, o maravilhoso quadro acima reproduzido, a que ele deu, naturalmente, o mesmo título do soneto da Alma : "Gato na Cama". A pintura de Guilherme sugere sutil e remotamente o quadro da cama no quarto de Van Gogh, que o próprio soneto da Alma parece evocar .
*noigandres- Palavra enigmática encontrada no último verso de um poema do poeta provençal (da Idade Média) Arnault Daniel ("...y olor de noigandres"). Ezra Pound, grande poeta e filólogo, numa entrevista a Haroldo de Campos, em Rapallo, na Itália, no fim de sua vida, comenta que jamais pode encontrar o significado dessa palavra, que se perdeu no tempo. Os irmãos Campos e Décio Pignatari, então, na década de 50 fundaram a revista literária Noigandres, porta-voz do movimento concretista na poesia paulistana.(Lucia Welt)
Pretenciosamente, pois não sou filóloga, arrisco por minha conta a seguinte interpretação da palavra noigandres baseada no fato de ela vir precedida no verso de A. Daniel da palavra olor (perfume). Poderia ser uma erva ou uma flor odorífera... Mas tentando analisá-la etimologicamente, eu diria que
noig é a raiz da palavra nóz (semente)
e andres deriva do grego andros = viril
portanto a palavra noigandres quereria dizer: semente viril= esperma
Entretanto me desconcerta o fato de não ter encontrado em parte alguma um raciocínio daqueles poetas ou de qualquer outro no sentido do que arrisquei aqui. Eles permaneceram até o fim de suas vidas cultuando essa palavra como um enígma insolúvel ou uma espécie de mistério etimológico.
Eu adoraria ter conversado pessoalmente com eles sobre isso (quanta pretensão!...) mas, sendo da geração do meu pai, já faleceram, ou me são inacessíveis.
Tanscrevo aqui a "transcriação" de Augusto de Campos para o poema em idioma provençal Noigandres , de Arnaut Daniel:
Er vei vermeils, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
Ei' l votz del auselz sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
So'm met en cor qu'ieu colore mon chan
D'un aital flor don lo fruitz sia amors
E jois lo grans, e l'olors de noigandres.
Vejo vermelhos, verdes, blaus,brancos, cobaltos
Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhãs, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres *
* O grão só de alegria e o olor livre de tédio
Pela nota que Augusto de Campos colocou sob o poema, percebe-se se que o tradutor atribuiu a noig o significado de tédio, talvez por abrandamento do g em a produzindo a palavra noia (tédio, em italiano ainda hoje)mas mais certamente porque partiu da expressão do francês "L'enoi gandir ( francês arcaico enoi que transformou-se no moderno l'ennui,o tédio) gandir" (achando gandres derivada do francês gandir (proteger). Mas confesso que prefiro a minha tradução que tem mais a ver com o sentido do poema, da "flor cujo fruto é só de amor", e seria própria da malícia ou erotismo típicos desse autor provençal. (Lucia Welt)
O canto da colina (de Alma Welt)
É domingo e eu preparo a ida
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:
Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.*
E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina
Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...
12/01/2007
Nota
*... cresceu, perdoou...-Para o leitor entender o significado deste verso, ou do soneto inteiro, recomendo que leia o romance A Herança, que, nas últimas páginas descreve os momentos finais de nossa irmã Solange nos braços da Alma, a quem até então hostilizara e tratara como inimiga. Elas se perdoaram mutuamente naquele derradeiro minuto.(Lucia Welt)
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:
Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.*
E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina
Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...
12/01/2007
Nota
*... cresceu, perdoou...-Para o leitor entender o significado deste verso, ou do soneto inteiro, recomendo que leia o romance A Herança, que, nas últimas páginas descreve os momentos finais de nossa irmã Solange nos braços da Alma, a quem até então hostilizara e tratara como inimiga. Elas se perdoaram mutuamente naquele derradeiro minuto.(Lucia Welt)
terça-feira, 7 de abril de 2009
Amo colher flores (de Alma Welt)
Amo muito colher flores nestes prados
Já tangidos pela aragem da manhã,
E cercada por volteios e agrados
Das abelhas e os zumbidos feito imã
Como disse o canoro Djavan
Do som dos besouros e seu ouro
Em torno à brancura tão louçã
De minha própria carne e pêlo louro,
Em sossego também entre as ervinhas
Que me fazem, bah! lembrar-te, “linda Inês”
E “o nome que no peito escrito tinhas”,
Eu que não passo, cercada de mensagens
E poemas do antigo amor cortês,
De uma prenda a vagar entre pastagens...
08/06/2006
Nota
Como este soneto é de tema recorrente na obra da Alma, por curiosidade ou comparação republico aqui o n°58:
As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)
(58)
Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.
A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.
Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:
Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...
24/12/2006
Já tangidos pela aragem da manhã,
E cercada por volteios e agrados
Das abelhas e os zumbidos feito imã
Como disse o canoro Djavan
Do som dos besouros e seu ouro
Em torno à brancura tão louçã
De minha própria carne e pêlo louro,
Em sossego também entre as ervinhas
Que me fazem, bah! lembrar-te, “linda Inês”
E “o nome que no peito escrito tinhas”,
Eu que não passo, cercada de mensagens
E poemas do antigo amor cortês,
De uma prenda a vagar entre pastagens...
08/06/2006
Nota
Como este soneto é de tema recorrente na obra da Alma, por curiosidade ou comparação republico aqui o n°58:
As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)
(58)
Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.
A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.
Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:
Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...
24/12/2006
Perdidas ilusões (de Alma Welt)
Sonhos meus, perdidas ilusões!
Como diziam as que me precederam,
Tolas donzelas, as que excederam
As regras, como eu, com os varões.
Quebrei contratos, talvez, e mesmo a cara,
Como dizem agora, e com razão.
Recolho-me ao meu sexo, mais avara,
Que não provoco mais nenhum machão.
Traumatizada? Sim. Eu me confesso.
Fui invadida mesmo, sem mercê,
Mas à mercê de fato de um possesso.
Trago ventre e traseiro doloridos,
A retaguarda mais, como se vê
Pelo mau passo e sorriso, tão sofridos...
14/10/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca este singular soneto, que pela data corresponde ao período logo após a chegada de volta ao nosso casarão, depois de sofrer o estupro (inclusive anal!) por parte do namorado de Aline, que invadiu o ateliê-apartamento de São Paulo quando Alma se encontrava sozinha encaixotando os livros para retornar com Aline à estância. Alma tinha se tornado amante de sua modelo que abandonara o namorado de mais de um ano, por ela, a pintora e poetisa que a contratara e por quem se apaixonara ( episódio que consta no romance autobiográfico inédito A Herança, de Alma Welt).
Resolvi publicar aqui, e não nos “Eróticos” simplesmente, este patético e estranho soneto revelador, de humor auto-crítico e ligeiramente amargo, pois pretendo me manter fiel ao voto de respeitar o seu desejo de revelar tudo, de tudo narrar, sem nenhuma auto-censura, a extraordinária e por vezes sofrida trajetória anímica e existencial que fez dela uma das mais extraordinárias autoras confessionais da literatura universal, ao meu ver e já no de muitos leitores. (Lucia Welt )
Como diziam as que me precederam,
Tolas donzelas, as que excederam
As regras, como eu, com os varões.
Quebrei contratos, talvez, e mesmo a cara,
Como dizem agora, e com razão.
Recolho-me ao meu sexo, mais avara,
Que não provoco mais nenhum machão.
Traumatizada? Sim. Eu me confesso.
Fui invadida mesmo, sem mercê,
Mas à mercê de fato de um possesso.
Trago ventre e traseiro doloridos,
A retaguarda mais, como se vê
Pelo mau passo e sorriso, tão sofridos...
14/10/2004
Nota
Acabo de encontrar na arca este singular soneto, que pela data corresponde ao período logo após a chegada de volta ao nosso casarão, depois de sofrer o estupro (inclusive anal!) por parte do namorado de Aline, que invadiu o ateliê-apartamento de São Paulo quando Alma se encontrava sozinha encaixotando os livros para retornar com Aline à estância. Alma tinha se tornado amante de sua modelo que abandonara o namorado de mais de um ano, por ela, a pintora e poetisa que a contratara e por quem se apaixonara ( episódio que consta no romance autobiográfico inédito A Herança, de Alma Welt).
Resolvi publicar aqui, e não nos “Eróticos” simplesmente, este patético e estranho soneto revelador, de humor auto-crítico e ligeiramente amargo, pois pretendo me manter fiel ao voto de respeitar o seu desejo de revelar tudo, de tudo narrar, sem nenhuma auto-censura, a extraordinária e por vezes sofrida trajetória anímica e existencial que fez dela uma das mais extraordinárias autoras confessionais da literatura universal, ao meu ver e já no de muitos leitores. (Lucia Welt )
Voltem meus amores (de Alma Welt)
Voltem, oh! voltem meus amores,
Que aqui os espero em meu tugúrio!
Agora o meu amor e seus humores
Devem menos a Eros que a Mercúrio,
O esperto deus ligeiro das mensagens
Dos amantes, dos deuses e ladrões,
E tanto aos vãos amores temporões
Como àqueles precoces e selvagens.
Saibam que os espero em concílio,
Todos à roda do perdido coração,
Que acabo de voltar do meu exílio...
Estou de volta à terra do meu ser:
Aqui posso amar sem exclusão,
Abraçá-los todos juntos e... morrer.
05/07/2004
Nota
Este belo soneto já revela o pressentimento da Alma de que o ciclo de sua vida se fechava e que não viveria muito mais. Ela queria reunir poeticamente todos os seus amores e paixões, reconciliando-se com todos, inclusive com os que duraram tão pouco. Alma conseguiu expressar algo difícil como este concílio simbólico dos amores de toda uma vida num abraço final, carinhoso, redentor... ( Lucia Welt)
Que aqui os espero em meu tugúrio!
Agora o meu amor e seus humores
Devem menos a Eros que a Mercúrio,
O esperto deus ligeiro das mensagens
Dos amantes, dos deuses e ladrões,
E tanto aos vãos amores temporões
Como àqueles precoces e selvagens.
Saibam que os espero em concílio,
Todos à roda do perdido coração,
Que acabo de voltar do meu exílio...
Estou de volta à terra do meu ser:
Aqui posso amar sem exclusão,
Abraçá-los todos juntos e... morrer.
05/07/2004
Nota
Este belo soneto já revela o pressentimento da Alma de que o ciclo de sua vida se fechava e que não viveria muito mais. Ela queria reunir poeticamente todos os seus amores e paixões, reconciliando-se com todos, inclusive com os que duraram tão pouco. Alma conseguiu expressar algo difícil como este concílio simbólico dos amores de toda uma vida num abraço final, carinhoso, redentor... ( Lucia Welt)
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Meus navios (de Alma Welt)
Meu destino, estou mais que convencida,
É deixar minha passagem bem gravada
Em sonetos e também na própria vida
Que me cerca, a paisagem e a peonada.
Assim, sei que estarei perpetuando
Não a mim, mas o quê, o como, o quando
Desta casa, do jardim, do meu pomar,
Destas trilhas singradas como um mar.
E assim, quando acaso recordarem
Esta Alma, vã guria serelepe,
Reverão uma saga, se me amarem,
Que carreei por aqui um belo dia,
Como aqueles do audaz e bom Giuseppe,
Os navios da minha própria fantasia...
29/12/2006
Nota
Acabo de descobrir mais este soneto inédito, na arca da Alma. Nele podemos ver como ela encarava seu destino, não só literário, mas como vida imaginária... no imaginário de futuros leitores. Alma acreditava como poucos na vida do espírito, como o verdadeiro próposito da existência: nós somos mais duradouros, ou reviveremos... na mente dos outros. (Lucia Welt)
*como aqueles do audaz e bom Giuseppe- Alma se refere ao episódio histórico da Revolução Farroupilha, dos dois navios que Giuseppe Garibaldi e seus homens arrastaram em carretas puxadas por bois, através das pradarias por 104 kms, até o oceano para entrarem em batalha contra os "imperiais".
É deixar minha passagem bem gravada
Em sonetos e também na própria vida
Que me cerca, a paisagem e a peonada.
Assim, sei que estarei perpetuando
Não a mim, mas o quê, o como, o quando
Desta casa, do jardim, do meu pomar,
Destas trilhas singradas como um mar.
E assim, quando acaso recordarem
Esta Alma, vã guria serelepe,
Reverão uma saga, se me amarem,
Que carreei por aqui um belo dia,
Como aqueles do audaz e bom Giuseppe,
Os navios da minha própria fantasia...
29/12/2006
Nota
Acabo de descobrir mais este soneto inédito, na arca da Alma. Nele podemos ver como ela encarava seu destino, não só literário, mas como vida imaginária... no imaginário de futuros leitores. Alma acreditava como poucos na vida do espírito, como o verdadeiro próposito da existência: nós somos mais duradouros, ou reviveremos... na mente dos outros. (Lucia Welt)
*como aqueles do audaz e bom Giuseppe- Alma se refere ao episódio histórico da Revolução Farroupilha, dos dois navios que Giuseppe Garibaldi e seus homens arrastaram em carretas puxadas por bois, através das pradarias por 104 kms, até o oceano para entrarem em batalha contra os "imperiais".
terça-feira, 31 de março de 2009
Alma Welt e o Abismo
segunda-feira, 30 de março de 2009
O que é a Verdade? (de Alma Welt)
“...a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)
Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro
De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade
Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação
Pois o Mestre calou-se sabiamente
Legando aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...
(sem data)
Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:
"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)
Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro
De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade
Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação
Pois o Mestre calou-se sabiamente
Legando aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...
(sem data)
Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:
"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".
Muito além das minhas rosas (de Alma Welt)
Aninhada no quarto entre paredes
Vetustas e entretanto carinhosas,
Mesmo assim percebo minhas sedes,
A ânsia de ir além das minhas rosas,
De ganhar a pradaria e o mundo...
Mas que sei eu do mundo? Eis a verdade,
Se vejo esta planície como fundo
Ou fundamento da própria eternidade!
E então uma inquietude geradora
De poemas e cantos me agoniza,
E talvez por isso mesmo salvadora,
Liberta-me do ninho e do aconchego
E posso ver o mundo sem ter visa,
Posso fazer voar o meu apego.
(sem data)
Vetustas e entretanto carinhosas,
Mesmo assim percebo minhas sedes,
A ânsia de ir além das minhas rosas,
De ganhar a pradaria e o mundo...
Mas que sei eu do mundo? Eis a verdade,
Se vejo esta planície como fundo
Ou fundamento da própria eternidade!
E então uma inquietude geradora
De poemas e cantos me agoniza,
E talvez por isso mesmo salvadora,
Liberta-me do ninho e do aconchego
E posso ver o mundo sem ter visa,
Posso fazer voar o meu apego.
(sem data)
sábado, 28 de março de 2009
De viagens e úteros (Alma Welt)
Devo deixar meu Pampa e esta estância
Por longa temporada, em viagem,
E dói-me como abandonar a infância
Ou arrancar raiz, não só ramagem.
É sempre um desterro, um auto-exílio
Contra o qual me revolto e me debato
Não tanto contra a dor, mas contra o fato
De ser eu a própria lágrima em meu cílio
Que, frágil, trêmula, demoro
Para correr, descer, ganhar o mundo
Para o mundo saber que também choro.
E, bah! então voltar (falso pudor)
E recolher-me ao útero profundo
De onde nasço e renasço sem mais dor.
(18/02/1999)
Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua Arca e reconheço nele o momento que precedeu sua partida para São Paulo, num "auto-exílio", como ela se expressou, por imensa angústia logo após a morte do nosso Vati. Alma permaneceria quatro anos naquela metrópole, estabelecida num ateliê como pintora, onde conheceria Guilherme de Faria, que a descobriria como poetisa e a lançaria, conseguindo uma editora para publicar seu livro Contos da Alma (em 2004) (Lucia Welt)
Por longa temporada, em viagem,
E dói-me como abandonar a infância
Ou arrancar raiz, não só ramagem.
É sempre um desterro, um auto-exílio
Contra o qual me revolto e me debato
Não tanto contra a dor, mas contra o fato
De ser eu a própria lágrima em meu cílio
Que, frágil, trêmula, demoro
Para correr, descer, ganhar o mundo
Para o mundo saber que também choro.
E, bah! então voltar (falso pudor)
E recolher-me ao útero profundo
De onde nasço e renasço sem mais dor.
(18/02/1999)
Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua Arca e reconheço nele o momento que precedeu sua partida para São Paulo, num "auto-exílio", como ela se expressou, por imensa angústia logo após a morte do nosso Vati. Alma permaneceria quatro anos naquela metrópole, estabelecida num ateliê como pintora, onde conheceria Guilherme de Faria, que a descobriria como poetisa e a lançaria, conseguindo uma editora para publicar seu livro Contos da Alma (em 2004) (Lucia Welt)
O vinho e o Graal (de Alma Welt)
Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.
"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia
Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."
“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.
"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia
Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."
“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)
