terça-feira, 16 de novembro de 2010

A vida vivida ( de Alma Welt)

Com tal sofreguidão vivi a vida
E tanto a fruí que pouco devo
A uma outra vida imerecida
Se já vivi em dobro no que escrevo,

Malgrado esta dor de incompreensão
De minha mãe Morgado, a dura Ana,
Que tanto me faz falta ao coração,
Que sempre acreditou-me ser insana.

Isto pensado aceitaria nova chance
Se vivi pela metade minha saga:
Minha Mutti ficou fora do romance.

Que não pude deitar-me em sua cama
E colar-me num seio que me afaga,
E não mais chamá-la assim: Açoriana...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que expõe, em tema recorrente na obra da poetisa, a dificuldade de relacionamento com nossa mãe, que ela chamava com um certo distanciamento mítico de "a Açoriana". Essa distância e sua perda total aos 16 anos, está no cerne da tragédia da grande artista.

(Lucia Welt)

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