Com tal sofreguidão vivi a vida
E tanto a fruí que pouco devo
A uma outra vida imerecida
Se já vivi em dobro no que escrevo,
Malgrado esta dor de incompreensão
De minha mãe Morgado, a dura Ana,
Que tanto me faz falta ao coração,
Que sempre acreditou-me ser insana.
Isto pensado aceitaria nova chance
Se vivi pela metade minha saga:
Minha Mutti ficou fora do romance.
Que não pude deitar-me em sua cama
E colar-me num seio que me afaga,
E não mais chamá-la assim: Açoriana...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que expõe, em tema recorrente na obra da poetisa, a dificuldade de relacionamento com nossa mãe, que ela chamava com um certo distanciamento mítico de "a Açoriana". Essa distância e sua perda total aos 16 anos, está no cerne da tragédia da grande artista.
(Lucia Welt)
Há 7 meses
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