
Alma e a macieira- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 150x150cm
Quantas vezes prestes a me alçar
Retornei ao chão de minhas lembranças,
Aquelas que me prendem no pomar
Onde tu e eu fomos crianças...
Ali sob a inocente macieira
Que viu o nosso afoito desnudar,
Depois a nossa linda brincadeira
De que nos quisera envergonhar,
Debalde, eu diria como antigos,
Os brios da matrona Açoriana,
Morgado, a Mutti, a dona Ana...
Pois me alcei do chão pela poesia
Ao descobrir em mim pelos perigos:
Estrelas move o Amor, e nos movia...
(sem data)
Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma, este soneto de tema tão recorrente na obra da poetisa, o que mostra a extensão do trauma ocasionado na alma de minha irmã pelo flagrante produzido por nossa mãe, a Mutti, a Açoriana (como só a Alma a chamava). Entretanto, como tudo que ela escrevia, o tema transcende a mera circunstância pessoal, pela sua conotação arquetípica, universal, pois é vidente a alegoria da expulsão do inocente casal primordial, do paraíso terrestre, e o anátema de Deus, que os jogou no mundo, "contra natura" , por punição. Alma como poeta haveria de se rebelar, e, como ela diz, se alçar deste chão traumático, pela Poesia.
(Lucia Welt)
*Estrelas move o Amor, e nos movia...- A inversão da ordem por necessidade de rítmo ( que a Alma tanto prezava) talvez dificulte o entendimento: O "amor move estrelas", e nos movia é uma alusão ou paráfrase do último verso d' A Divina Comédia de Dante Alighieri : L'amor che muove il sole e l'autre stelle", O Amor que move o sol e as outras estrelas.
(Lucia Welt)
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