quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Fronteiriça (de Alma Welt)


Entre o Azul e o Vermelho... - pintura de Guilherme de Faria 150x150cm

A Fronteiriça (de Alma Welt)

Presa do sonho me vi por tantos anos,
Que a vida como espelho se instalou,
Que não posso distinguir os meus enganos
Desta real e louca vida que restou.

E se vivo em poesia dupla vida,
Atravesso a ponte desse espelho
Ou vivo na fronteira, dividida
Entre o azul de mim e o vermelho.

Não que haja conflito ou coisa assim
Entre o mundo de cá e o de lá
Ou seja eu a espiã fria de mim...

Mas essa dupla mão e seu perigo,
Sem o gosto do banal que já não há,
Fez de mim o mistério que persigo...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na inesgotável Arca da Alma, e, como sempre, riquíssimo de subtexto:
Alma, que era bipolar, temia estar se tornando esquizofrênica por viver uma dupla vida espelhada, já que traduzia tudo em poesia, isto é, todos os seus pensamentos e sensações e tudo o que a sua vista captava ao seu redor. A " fronteira" representa o limite entre o "real" e esse espelho de Alice que é o nosso inconsciente como reflexo invertido da nossa suposta realidade.

O azul e o vermelho no soneto faz ricas alusões à bipolaridade não só dela, Alma, mas de mundos que se confrontam e se interpenetram (" espião que saiu do "frio", guerra fria, azul ocidente- vermelho Rússia; cristãos e mouros- condão azul e vermelho das cavalhadas; mundo ocidental e oriental- mundo de racional e do "primitivo teocrático" ...
E no último verso, ela menciona o fato de ser o seu próprio tema e cada vez mais misterioso, à medida que a sua vida-obra crescia, a ponto de se hoje se falar em um "Mistério Alma Welt", uma poetisa tão rica e universalmente profunda que muitos duvidam que ela tenha existido em carne e osso...
(Lucia Welt)

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