sábado, 6 de novembro de 2010

Meio Ofélia, meio Inês (de Alma Welt)

Permaneço plantada aqui no pampa
Como raiz de mim, não mais semente,
Preparando não a fronde mas a campa,
Que velha não serei, infelizmente.

Mas meus mil sonetos e poemas
Farão a vez do umbu ou do carvalho
À cuja sombra os homens e as emas
Vêm refrescar do sol como ao orvalho

As ervas e quem dera minha tez,
Posta, sim, em cruel desassossego
Na coxilha e bem longe do Mondego,*

Na vida, meio Ofélia e meio Inês,
Cheia de dores, suspiros e apego
Nesta híbrida saga em que me vês.


08/01/2007

Nota

*Posta, sim, em cruel desassossego/Na coxilha e bem longe do Mondego,- Trata-se de um paráfrase ou alusão aos famosos versos da estância CXX do Canto III dos Lusíadas de Camões, que aqui transcrevo no seu português original, arcaico (renascentista):

"Estavas, linda Ignês, posta em socego,
De teus annos colhendo o doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito:
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às hervinhas
O nome que no peito escrito tinhas."

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