Embora tendo tantos privilégios
E vir da natureza o meu quinhão
Somado a alguns presentes régios,
Reconheço a humana condição
Em mim mesma, patética e sofrida
Pois tenho uma angústia recorrente,
Na mentira vital interrompida,*
Da tal dura consciência tão presente.
Somos para morte e disfarçamos
Pela vã dignidade que portamos
Pois, dirão alguns, isto é com todos!
E tu, poeta, não és senão chorona
E pensas que essa dor só vem à tona
Nos versos como ressumantes lodos...
(28/11/2006)
Nota
*Na mentira vital interrompida- Esta expressão remete à uma teoria psicanalítica de Otto Rank, da Escola de Viena, segundo a qual, mais ou menos aos três anos de idade, ao notar suas próprias fezes como algo decomposto que vem de si, viria à tona na criança, uma consciência súbita da Morte, que seria fatal não fosse uma espécie de "comporta" que o ser humano ergue na mente a partir desse momento crucial, separando o inconsciente do consciente, bloqueando essa consciência fatídica, para tornar a vida possível. A isto, Rank denominou " A Mentira Vital", que nos permite viver. Esta é a razão de vermos a morte quase como se fosse algo que se passa somente com o outro. Vivemos como se não fôssemos morrer. Os artistas parecem ter uma falha ou rachadura nessa comporta, por onde intermitentemente "ressumam" os eflúvios dessa consciência mortal, na forma de uma angústia criadora. O artista cria para "ludibriar" a Morte...
(Lucia Welt)
Há 7 meses
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