A Poesia não foi uma opção,
Mas sim destino certo anunciado
Ainda em meu berço, no sobrado,
Ao ouvir da Matilde uma canção
Que era um acalanto castelhano*
Repleto de uma doce nostalgia,
Alternado com o canto açoriano
Daquela que a sorte não previa
De sua filha, de quem só esperava
Fosse um dia a prenda bem normal
Sem ver que lhe a Poesia semeava.
Uma voz destoante, mas em termos,
Razão tanto do bem quanto do mal,
Que Orfeu há muito paira nestes ermos...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar esta manhã, na Arca da Alma, dois sonetos, este e "Da Poesia" (abaixo), que constatei inéditos.
* ...acalanto castelhano- Matilde, que foi babá da Alma, e é nossa cozinheira e segunda mãe (há muitos anos), é uruguaia, assim como Galdério, seu irmão e factotum aqui da estância.
*... canto açoriano - como muitos leitores já sabem, nossa mãe, Ana Morgado era neta de portugueses açorianos,e a Alma, com distanciamento mítico a chamava poeticamente "A Açoriana", pois nunca se entenderam bem. Nossa mãe temia a vocação artística da Alma e tentava coibi-la. Entretanto, Alma, no seu crescimento poético pode perceber poesia mesmo na sua quase inimiga, pois nossa mãe era muito bela em sua secreta tristeza, e cantava lindamente com voz maravilhosa de soprano, que aliás, sua filha herdou.
*Orfeu há muito paira... - Alma quis dizer que o Pampa, este fim de mundo, já possui Poesia há muito tempo...
(Lucia Welt)
Há 7 meses
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