terça-feira, 13 de outubro de 2009

Penélope do Pampa (de Alma Welt)

Nos meus olhos lágrimas faltando,
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória

Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.

E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo

Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...


Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)
Como exemplo da recorrência deste tema na obra da Alma republico aqui este outro (n°221, dos Sonetos Pampianos):


Penélope (de Alma Welt)

Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.

Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna

Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,

E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.

29/12/2006

Um comentário:

Lúcia Amorim: disse...

Lúcia...senti a energia...
Abraços Lúcia Amorim