segunda-feira, 8 de março de 2010

Maus vizinhos (de Alma Welt)


Umbu, do Rio Grande do Sul

Estória do umbu-rei (de Alma Welt)

Por amor a esta paisagem grandiosa
Mais de uma vez empunhei a carabina,
Mas foi um erro o que me fez ficar famosa
E salvar o umbu desta campina.

Foi quando um vizinho me peitou
Dizendo que estava em sua terra
O umbu onde Martinho se enforcou,
Que a árvore era sinistra e que aberra.

Então, melodramática, me amarrei
Ao tronco, disposta a ali morrer,
Com o risco de outra coisa acontecer

Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse
E rasgando meu vestido me mirasse
Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."

29/12/2006

Nota
Este episódio, absolutamente verdadeiro, foi bastante mitificado aqui na região e fez a árvore mudar a sua fama. Percebi que a Alma, sob o aparente constrangimento por uma vitória vergonhosa, regosijou-se com o resultado e no fundo admirou a presença de espírito e rude galanteria implícita no gesto do estancieiro vizinho, o "gáltcho" que a desnudou deixando-a amarrada por uns minutos, depois soltando-a e partindo no seu cavalo depois de tocar o seu chapéu com dois dedos. Me recordo ter percebido um período de meditação, suspiros profundos e um ar mais sonhador que de costume em minha irmã, por um tempo depois deste episódio. (Lucia Welt



Maus vizinhos

Ontem esteve aqui o estancieiro
Que há muito cobiça o meu vinhedo,
Desde que o avô meu, o vinhateiro,
O despachara apontando com o dedo.

Mas, à parte os tais ressentimentos,
Botou-me olho grande, o velho touro,
Para si mesmo, talvez, por uns momentos,
Mas logo para o filho, seu tesouro.

E disse: “Prenda loura, serás nossa,
Como o teu ruivo vinho, eu te prometo.
Prepara o teu vestido e o teu soneto

De bodas, que será o teu derradeiro,
Nem que eu tenha que queimar a tua roça,
E transformar tua Vinha num braseiro...”

12/07/1995


Nota
Acabo de descobrir estre soneto, antigo, da Alma, e me lembro bem deste episódio. Minha irmã viveu momentos de angústia e preocupação por nossa propriedade e sua própria integridade física. E com razão, pois descobri um soneto relacionado que conta um episódio acontecido depois da ameaça desse velho tirano, e que diz respeito justamente ao seu filho, num confronto com a Alma que defendia um velho umbu que ele quis cortar, e que ficava na divisa com as nossas terras.(Lucia Welt)

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PS

LAMENTO PUBLICAR AQUI ESTE TEXTO QUE ACABO DE DESCOBRIR, HOJE, DIA INTERNACIONAL DA MULHER.
Acabo de encontrar, horrorizada um diário de minha irmã e no qual encontrei esta terrível revelação:

15 de Julho de 1995

"...há dois dias que estou prostrada, deprimida e cheia de dores. Meu Vati e minhas irmãs, e principalmente Rodo, não podem jamais saber o que realmente me aconteceu, e para despistar escrevi um soneto que abranda os fatos. A verdade é que no malfadado episódio da minha defesa do umbu-rei, as coisas não se passaram como descrevi no soneto. O filho de Contardo, nosso vizinho estancieiro, quis cortar a aquela magnífica árvore, por ignorância ou idiossincrasia, sim, e eu sabendo corri para lá com uma corda e me amarrei à árvore, dando um nó na altura do plexo. Rodrigo, chegou acompanhado de um peão com uma moto-serra, e me viu ali, naquela situação, gritando para ele: "Não tocarás nesta árvore! Antes terás que me matar!"
Ai!! Ingênua e tola que fui... Rodrigo deu uma gargalhada, e apeando avançou para mim e agarrando meu vestido deu um violento puxão rasgando-o e me deixando praticamente nua. O peão, um guarani, permanecia impassível, olhando, com a serra na mão. Gritei e comecei a chorar, pois pensei que ele ia mandar o peão me serrar, em seguida. Mas Rodrigo, rindo, se aproximou e abrindo a braguilha de sua bombacha, tirou seu imenso pênis, que estava ereto e era assustador de tão grande, me agarrando enquanto eu me debatia tentando me soltar de minha própria armadilha. O rapaz agarrou e mordeu meus seios, e em seguida me estuprou violentamente, por incontáveis e dolorosos minutos. Depois ainda me virou de costas sob aquele maldito laço, e me violou por trás!
A dor foi tão grande que desmaiei. Quando voltei a mim, estava, caída sobre a relva, com meus trapos jogados sobre mim, e sangrava. Em dores imensas, voltei cambaleando, caía e me arrastava, levantava de novo, até chegar perto do casarão. Galdério me viu, me pegou e desfaleci em seus braços. Acordei no sótão, onde ele me cuidava com compressas úmidas... meu fiel e devotado Galdério! Chorei muito abraçada a ele, meu leal paladino, mas depois o fiz jurar que ele jamais revelaria a ninguém o que acontecera, para evitar uma desgraça. Rodo mataria Rodrigo se soubesse, e seria certamente preso... E fiz Galdério jurar que ele mesmo não o faria, ele, que me revelou já ter duas mortes nas costas. Mas, mirando os olhos do meu uruguaio, vi que a vingança já estava ali..."


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E ainda há pouco, encontrei este soneto que de certa forma se relciona com tudo isso. Bá!! Se eu soubesse, de tudo o que corria com minha irmã por causa de sua excepcional beleza, que eu também pensava ser só uma benção e um "privilégio" divino:


Tantas vezes violada (de Alma Welt)

Às vezes questiono o privilégio
Dos dons de beleza que herdei,
Embora pareça um sacrilégio
Ou cuspir no prato que provei.

Mas revelo que fui muito violada,
E minh’alma ainda resta machucada,
Pela cobiça de homens desregrados
Apesar da resistência e meus brados.

Em desespero cinco vezes eu lutei
Com valentia, às vezes, e com garra,
Para evitar em vão a vil penetração.

Mas o bicho homem que me agarra
Parece querer algo que não dei
Ao dar-me à revelia... à sua visão.

(sem data)

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Encontrei agora mesmo, pasma e revoltada, este outro soneto!


O verão de minha desgraça (de Alma Welt)

O filho do Contardo, estancieiro,
Como seu velho, mau e cobiçoso,
Aproveitou-se de meu gesto espantoso
De amarrar-me ao tronco do umbuzeiro

Pra defender a árvore grande e bela
Que ele quis derrubar com moto-serra,
Pois Martinho, um tal filho da terra
Se enforcara ali, em sua sela.

E eu, que a mim tinha amarrado,
Depois de meu vestido estraçalhado,
Nua me vi diante dele e seu peão

Que alternadamente me estupraram,
Por bem mais de uma hora, no verão
Da desgraça a que me abandonaram...

(sem data)





ESTOU HORRORIZADA. Acabo de descobrir este soneto que revela que o estupro foi ainda pior e mais escabroso, pois foi duplo: o peão também participou. Eis porque a pobre Alma ficou desequilibrada, no final de sua breve vida e teve de ser internada duas vezes. Mas o que mais me aperta o peito só de imaginar, é que ela pode ter sido estuprada novamente antes de ter sido assassinada, afogada no poço da cascata, segundo a teoria do delegado Benotti. Ele disse que nos precipitamos, nós, a família, ao cremarmos o corpo da Alma (segundo sua vontade expressa há tempos), pois destruimos as evidências de violência sexual. O delegado disse que os arranhões na parte interna dos braços da Alma, que atribuimos à grande pedra atada ao seu pescoço e que ela supostamente deixara escorregar de seus braços para a água, do alto da pedra onde ela estava, na verdade poderiam ser sinais de luta desesperada. Ai!!! Essa dor não terá fim...

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