quinta-feira, 26 de junho de 2008

Um poema de CORSO

Transcrevo aqui, pinçado do seu blog Teratologia um dos poemas do notável poeta que se assina Corso. Ao que parece um poeta jovem, que sem dúvida é um gênio. Raríssimas vezes deparamos com uma poesia assim poderosa, madura, contundente. E escrita com tal maestria. Tenho certeza que a Alma o descobriria ainda antes que eu. (Lucia Welt)

Um poema do Corso


XVII

quiçá ainda haja dia
para o último bonde cruzar a avenida,
lilás;
novembro dormiu como uma revolução
na maquinaria de uma cereja amarela,
e ainda são as mesmas árvores
guarnecendo os vestidos
e as mesmas flores enfeitando as chuvas
e a mesma lua concentrando os olhos;
o tempo deixa estar as coisas do mundo
o quanto é preciso estarem as coisas no mundo;

são tão líquidos os rosários negros
nas mãos das senhoras
quanto o sangue no peito do condenado,
e há tanta importância nisso
quanto há agricultura no estômago
do mendigo.

ah!, rosa,
és um punho de água na cara
da água misturando-se,
sol e destino,
pétala e maldição,
dama e tronco,

dar-te a quem somos?

as ondas mornas de novembro
e o riso triste de julho,
o pano branco sobre o fim de julieta,
as dificuldades das alcaparras
e os desesperos das cadeiras,
o eterno romance de mim para comigo
sem o congresso
e sem o voto dos fungos,

um fenômeno particular entre
mil particularidades possíveis,

vêm as algas e as terras,
a caixa mórbida de um homem doente,
vêm o pião rodando no escuro,
as ameixas doces
e a clausura verde das uvas
aproximando-se,

o universo
um buraco em que o universo escorre,
sonhando-se lúcido,
amando-se triste,

movendo-se preso.


Corso

Um comentário:

R. M. Peteffi disse...

Lucia...

um agradecimento muito desajeitado, por ora...rs

a resposta mais exata seria uma flor.

um abraço!