quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Vigília espectral ( de Alma Welt)

No silêncio crepitante da candeia
Recebo estancieiros de outra era,
Que comigo vêm plantar à meia
Sua seara de sonhos e de espera.

E eu os acolho em minha vigília,
Cavalhada espectral e exangue
A formar imensa teia na coxilha,
Penélope de mágoas e de sangue.

Quem espera essa tropa de farrapos,
Contrastando com os tais engalanados
Neste plaino abandonado pelos sapos?

Don Sebastião não seja, mas o Bento,
Canabarro e Netto, ambos montados,
Anita e Pepe no turbilhão do vento...

08/07/2004

*Dom Sebastião não seja, mas o Bento- esse verso alude ao rei de Portugal, Dom Sebastião, o Venturoso, chamado depois de seu desaparecimento na batalha de Alcácer-Quibir, "O Esperado", ocasionando desde então um movimento místico-político denominado Sebastianismo, que se estendeu até os sertões do Nordeste do Brasil e também ao Pampa, até o fim do século XIX.
Há quem diga que há resquícios desse mito até hoje em certas regiões do Brasil e de Portugal, em que o povo espera a volta de Dom Sebastião para uma espécie de redenção geral e volta da monarquia.
Este verso da Alma sugere que o povo gaúcho pampeano espera a volta do seu grande comandante farroupilha Bento Gonçalves.

* Canabarro e Netto- os dois outros mais importantes generais dos Farrapos

* Anita e Peppe no turbilhão do vento - Este verso extremamente rico, alude ao fato de que Giuseppe Garibaldi, aqui alcunhado Peppe, e Anita, não eram cavaleiros, mas marinheiros, portanto levados pelo vento. Mas, sobretudo evoca o turbilhão eterno que arrastava os também amantes clandestinos Paolo e Francesca da Rimini,abraçados, eternamente sem pouso, no segundo círculo do Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri.
(Lucia Welt)

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