Sonhei minha vida e minha morte
E sei detalhes que nem posso explicar,
Que levantam questões de toda sorte
Como aquela expulsão do meu pomar...
Mas meu corpo nu sobre uma mesa
E a marca vermelha no pescoço...
Posso mesmo ver isso com clareza
Antes que comece um alvoroço:
Ouço um denso silêncio meio tenso
No velório que é meu e inusitado
(mulheres de chapéu preso com lenço)*
Que a Matilde furiosa romperia
Atirando alva toalha de bordado:
"Seus ímpios, cubram já a minha guria!”
14/01/2007
Nota
Estarrecida, descobri agora a pouco este soneto inédito na Arca de minha irmã, e que atesta a sua espantosa vidência, o sexto sentido que a acompanhou a vida toda, e que, imagino, duplicava o seu sofrimento nesta vida... Como pôde ela ver o que exatamente se passaria no seu espantoso velório?
*...(mulheres com chapéu preso com lenço)- As trabalhadoras da vinha, camponesas que trabalham sob o sol com chapéus de palha presos com um lenço debaixo do queixo, por causa do vento da coxilha. Elas e suas filhas é que encheram a grande sala do nosso casarão no velório da Alma, colocada nua como seu corpo foi resgatado da águas por Rodo e carregada nos braços por Galdério por um longo trecho de campina até ser colocada sobre a mesa e começar a inusitada visitação sem que ninguém ousasse cobri-la, até a Matilde, furiosa, irromper jogando uma toalha de renda sobre o alvíssimo corpo deslumbrante, gritando aquilo que Alma ouviu na sua visão. (Lucia Welt)
A propósito, republico aqui um soneto (relacionado a esse episódio) que descobri e publiquei aqui em 22 de julho de 2008, que explica o porquê de Alma ter sido colocada (nua!) sobre a mesa da nossa sala de jantar:
A leitoinha (de Alma Welt)
Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar
E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”
E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,
Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...
09/07/2006
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Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.
Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.
Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)
E este, do dia 03 do mês fatídico:
Visão (de Alma Welt)
Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!
Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.
Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:
Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino...
03/01/2007
Há 7 meses
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