sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alma Frankenstein (de Alma Welt)


Angústia- painel central do tríptico Cabeças Metafísicas,
140x120cm cada, 1991, de Guilherme de Faria


Alma Frankenstein (de Alma Welt)

Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?

O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...

Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.

Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...

16/12/2006

Notas
*Prometeu, de quem somos a metade- com este verso a poetisa alude ao fato de que Prometeu, que doou o fogo dos deuses aos homens, sendo um dos Titãs rebelados contra Zeus na batalha que se travou entre estes e os deuses do Olimpo (Titanomaquia), os Titãs dilaceraram e devoraram Dioniso criança (a alma ) e tendo afinal sido vencidos, fulminados por Zeus suas cinzas foram lançadas à Terra. O homem teria pois uma dupla natureza: o corpo físico e a alma divino-dionisíaca, que é Dioniso encerrado no corpo titânico, que terá que cumprir dez ciclos (mil anos ) de reencarnações antes de recuperar as asas para escapar do "cárcere titânico" para voltar ao Empíreo, a morada dos deuses e das almas purificadas, segundo o Orfismo, religião grega relacionada aos Mistérios de Elêusis, surgida no século VII AC, e do qual Pitágoras é o mais célebre adepto, e o grandePlatão, no sec IV AC, um reflexo tardio.

* Qual Frankenstein, somos filhos da Razão - Interligando no soneto, Frankenstein a Prometeu, Alma alude ao subtítulo da grande obra de Mary Shelley, Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, em que a esposa do poeta Percy Bische Shelley criou um genial mito moderno, o seu monstro do doutor Victor Frankenstein, trágica criatura, tomada pelo ressentimento da rejeição e pela solidão, e que a uma certa altura, perseguido em pleno Ártico exclama: "Há muito tempo abandonei toda humanidade!... ". Alma parece dizer com este soneto, que ela, como ele, carrega esta solidão de desterro de um monstro social: o Poeta. Não esqueçamos as profundas raízes no romantismo alemão que a Poetisa tinha, por sua herança genética e formação, que dotavam sua visão e poesia de uma subjacente tragicidade. Alma tinha uma demasiada presente consciência de solidão e de morte, que afinal a abismou...
(Lucia Welt)

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