
Junto ao berço- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50cm de diâmetro
Por ocasião do Dia das Mães publico aqui alguns sonetos que a Alma dedicou à nossa mãe falecida quando minha irmã tinha apenas 16 anos. Para ver a série completa dos sonetos da Alma dedicados à Mutti (como nós a chamávamos) sugiro que entrem no blog:
http://sonetosamuttidealmawelt.blogspot.com/
Arca de amor e fel (Alma Welt)
324
Quanto procurei na velha arca
As cartas e os vestígios de um amor
Que foi o de meu pai em seu vigor
E mais além, já quase em sua barca!
Espero que a Mutti me perdoe
Mas sei que não era o seu papel,
Que sem amor não há o que se doe
E a ela caberia a dor e o fel.
E nesta tragédia pampiana
Tomei eu partido do meu Vati
Em prejuízo da pobre Açoriana
Em quem não obstante o amargor
Plasmado em cada folha deste mate,
Reconheço agora tanto amor...
21/12/2006
Nota
Nessa mesma arca que agora guarda a imensa obra inédita de minha irmã, também procurei os vestígios desse misterioso amor de toda a vida de nosso pai, encontrando, como a Alma, somente pistas igualmente misteriosas. Alma se refere a isso também num capítulo de seu romance A Herança e também na crônica O rosto de Musidora, publicada no blog Crônicas de Alma Welt e também no site Texto Livre. (Lucia Welt)
Eu estarei aqui depois de tudo
(de Alma Welt)
305
Eu estarei aqui depois de tudo
Quando voltarem as flores no meu prado,
A macieira a florir no pomar mudo
E o casarão estiver todo arruinado,
Suas paredes recobertas pela hera
E no salão a grande mesa abandonada
Onde um dia quando bem guria eu era
Fui belamente adormecida colocada
Pelo fiel Galdério, também ido
Que com Matilde e seu dever cumprido
Foram prestar contas à patroa
Nossa bela, triste e branca Ana
Que afinal como rainha se coroa
E que já não chamo mais... Açoriana!
12/01/2007
O espectro (de Alma Welt)
(210)
Em noites frias aqui no casarão
Acontece do meu leito levantar
E enrolada num pala ir ao salão
Para sentir o silêncio crepitar
Na lareira, pois ali sou visitada
Por um mundo de imagens agradáveis
Que me trazem poemas inefáveis
Ou alguma coisa inusitada.
Foi ali que num lance inesquecível
O espectro da Mutti afinal veio,
Que fora tanto tempo inacessível,
E que porfim estendia-me os braços
Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,
Quisera agora sentir-te no meu seio."
16/01/2007
Nota da editora:
Nossa mãe, Ana Morgado, que chamávamos Mutti, faleceu quando éramos adolescentes(Alma tinha 16 anos) tinha dificuldade de compreender o temperamento artístico da Alma, e havia muita dificuldade de relacionamento entre as duas, uma vez que Alma, apesar de aparentemente meiga era rebelde e tinha o respaldo do nosso pai, o Vati que tomara a sua educação em suas mãos e a criara como uma pequena pagã, em contato com a Arte e com os deuses do Olimpo e do Walhalla. Dir-se-ia que ele fazia uma espécie de experiência com sua filha predileta. Ele disse uma vez que faria da Alma não só uma artista, mas uma obra de arte. Alma teve muitos momentos penosos de conflito, incomprensão e intolerância por parte da Mutti, chegando mesmo a ser algumas vezes açoitada com vara de marmelo. Tudo isso transparece na série dos "Sonetos Pampianos da Alma".
Alma se referia à nossa Mãe com uma espécie distanciamento mítico como "a Açoriana", devido às origens de nossos avós maternos e à rigidez católica da Mutti, que impedia uma maior compreensão entre a duas.
Este soneto me comoveu, pois revelou uma reconciliação, de algum modo, entre elas. (Lucia Welt)
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